Dia Internacional da Música: quando o som vira memória, identidade e profissão

No Dia Internacional da Música, a trajetória da jovem musicista reforça essa dimensão plural da arte

Por Lane Gois |

No Dia Internacional da Música, celebrado em 1º de outubro, o som ganha um significado que vai muito além do entretenimento. Para a musicista alagoana Clariar, de 22 anos, a música atravessa diferentes momentos da vida: está na formação acadêmica, nos palcos, nas aulas, na produção cultural e também nas memórias afetivas.

Graduanda em Música – Licenciatura, com ênfase em canto lírico, pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Clariar encontrou na música uma forma de expressão desde a infância. Aos seis ou sete anos, começou a estudar teclado. Antes disso, porém, já experimentava a música por meio da dança, quando fazia aulas de balé.

“Antes mesmo de tocar já vivia a música.”

Foi a partir das aulas de teclado que surgiram os primeiros contatos com a teoria musical, a leitura de partituras e também com os palcos. Nos recitais, ela cantava e tocava e começou a perceber que aquela experiência poderia fazer parte de seu futuro.

A paixão cresceu ao longo dos anos. Durante a pandemia, Clariar aprendeu violão de maneira autodidata, utilizando vídeos disponíveis na internet. Também criou um canal no YouTube para publicar covers e, posteriormente, começou a estudar canto.

Na universidade, a relação com a música ganhou novas perspectivas. Além do contato com o canto erudito e com experiências de performance, ela passou a compreender a música também como ciência e conhecimento técnico.

“Passei a estudar a música como ciência, algo entendível e aprendível”, conta.

Uma música para cada momento

Se existe algo capaz de transformar rapidamente o estado de espírito de alguém, a música certamente está entre os exemplos mais presentes no cotidiano. Uma mel diferentes pessoas possam se reconhecer em uma mesma canção. É como se uma composição contasse, de alguma maneiraodia pode trazer de volta uma pessoa, um lugar ou uma fase inteira da vida.

Para Clariar, essa capacidade está justamente na relação entre música, sentimento e memória.

“Eu acho que das ciências é uma das mais humanas, que ela mexe com o nosso sentimento, mexe com a nossa memória.”

Segundo a musicista, essa conexão faz com que diferentes pessoas possam se reconhecer em uma mesma canção. É como se uma composição contasse, de alguma maneira, uma história que também pertence a quem escuta.

E é justamente essa capacidade de provocar emoções que, para ela, define uma das principais funções da música.

“Pra mim, o papel da música é provocar emoções e sentimentos.”

Uma artista em diferentes palcos


A trajetória de Clariar também revela como a música pode ser vivenciada de diversas maneiras. Além de cantora e instrumentista, ela atua como DJ, professora de canto e produtora cultural.

Como DJ, encontrou uma relação diferente com o palco. Em vez de concentrar a atenção na própria voz, passou a trabalhar principalmente com a parte técnica, a seleção musical e a interação corporal com o público.

“Eu tive essa proximidade maior com os palcos e a performance”, explica.

Ela também dá aulas de canto na escola de música de Myrna Araújo, experiência que a aproxima de outro aspecto da profissão: o ensino.

No palco, Clariar costuma realizar performances de voz e violão, interpretando principalmente MPB, bossa nova e pop rock nacional. Também integra o grupo percussivo Maracatu Baque Alagoano (MBA), onde toca alfaia.

Para ela, cada uma dessas experiências revela uma parte diferente de sua relação com a música.

“Cada uma dessas partes me conectam com partes minhas, que já estavam aqui dentro, e musicais também.”

Música também é produção cultural


A atuação artística de Clariar não se limita aos palcos. Ela também trabalha na produção de eventos voltados ao público LGBTQIAPN+, especialmente para a comunidade sáfica.

É uma das fundadoras e idealizadoras da Festa das Sáficas, iniciativa criada para promover encontros e experiências voltadas especificamente para essa comunidade. A primeira edição ocorreu em 28 de junho de 2024, no Rex Jazz Bar, em Maceió, justamente na data do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+.

A partir da iniciativa, outros projetos foram desenvolvidos, como o Vôlei das Sáficas, evento beneficente que arrecada doações para o Centro de Acolhimento Ezequias Rocha Rego (CAERR), além do Cine Sáfico e do Karaokê das Sáficas.

A produção cultural, portanto, tornou-se mais uma maneira de utilizar a arte como ferramenta de encontro e convivência.

“Qualquer pessoa pode fazer música”

Ao olhar para a própria trajetória, Clariar entende que a música não precisa estar restrita a quem escolhe seguir carreira profissional.

Para ela, qualquer pessoa pode fazer música. O desafio está em transformar essa paixão em profissão e construir uma trajetória dentro de um mercado que reúne diferentes áreas e possibilidades.

“Qualquer pessoa pode fazer música, porém viver dela é só para quem tem coragem.”

Hoje, entre a universidade, os palcos, as aulas, o trabalho como DJ, a produção cultural e a criação de conteúdo para as redes sociais, Clariar segue construindo sua própria trajetória.

E, quando perguntada sobre uma única música que representaria sua vida neste momento, a escolha foi “Lilás”, de Djavan — canção que ela guarda com carinho e que encerrou a entrevista em forma de performance.

Uma vida atravessada pela música


A história de Clariar mostra que a música pode ocupar muitos lugares ao mesmo tempo. Pode ser estudo, trabalho, profissão, expressão artística, encontro, memória e também uma maneira de compreender a si mesma.

No Dia Internacional da Música, a trajetória da jovem musicista reforça justamente essa dimensão plural da arte: a música pode estar em uma sala de aula, em um ensaio, em uma festa, em um instrumento, em uma voz ou simplesmente naquele fone de ouvido que acompanha alguém durante o dia.

E talvez seja por isso que, ao imaginar um mundo sem música, Clariar encontre uma resposta simples:

“Ia ser um mundo muito chato.”