Dia do Nordestino celebra o orgulho regional de pertencer

Com contribuições nas artes, ciências, história e esportes, o Nordeste demonstra a sua importância no desenvolvimento nacional

Por Maria Villanova | 7Segundos

Nesta quinta-feira (8), o Brasil celebra o Dia do Nordestino, data que, apesar de não estar oficialmente no calendário nacional, é celebrada por nordestinas e nordestinos espalhados pelos quatro cantos do país. É dia de relembrar sua origem, história, as raízes de um Nordeste soberano e que orgulha quem dele vem.

A data foi instituída em homenagem ao nascimento do poeta, compositor, músico e teatrólogo maranhense Catulo da Paixão Cearense, nascido em 8 de outubro de 1863, popularizado pela canção poética “Luar do Sertão”, em que reverencia as noites estreladas nordestinas, com a saudade em forma de poesia.

Mas o destaque da região é e sempre será o seu povo. 

O Nordeste se impõe pelo protagonismo de sua gente

Já dizia o autor carioca Euclides da Cunha que, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, ao retratar a Guerra de Canudos em seu livro Os Sertões. A frase demonstra a força do nordestino diante das dificuldades e agruras da vida, porque ser nordestino é enfrentar com o peito aberto as diversidades, sem esquecer a alegria e o sorriso no rosto.

E a contribuição do Nordeste reflete no desenvolvimento do Brasil. Espalhados pelos quatro cantos, no crescimento do Sul e Sudeste, no ciclo da borracha ou exploração de ouro no Norte ou na construção da capital federal no Centro-Oeste, o Nordeste se destaca pela sua gente, resiliente e aguerrida.

Em diferentes áreas, nordestinos e nordestinas se destacam pelo seu diferencial, criando, performando e mostrando ao Brasil e ao Mundo todo o valor de sua população, com destaque em diversos segmentos.

Protagonismo nordestino no Brasil e no Mundo

  • Na literatura e pensamento, dentre muitos nomes, destacam-se a genialidade de Ariano Suassuna (PB) com o Movimento Armorial, as narrativas baianas universais de Jorge Amado (BA) o pioneirismo literário de Rachel de Queiroz (CE), com a poesia de Gonçalves Dias (MA), cujos versos indianistas de Canção do Exílio estruturaram o próprio Romantismo e identidade nacional. Aluísio de Azevedo (MA) é conhecido como um dos primeiros expoentes do Realismo nacional.

    Na música e cultura popular, o Nordeste se destaca. Xote, Baião, Forró, a dança colada, o sentimento de alegria, o país foi transformado pela felicidade contagiante do Rei Luiz Gonzaga (PE), cantando sobre sua vivência. Mas muitos outros ritmos também influenciaram o Brasil, como a Bossa Nova de João Gilberto (BA), o tropicalismo de Gilberto Gil e Caetano Veloso (BA), a fusão urbana de Chico Science (PE) e o samba de Alcione (MA)

    No campo da história, cidadania e artes, o Nordeste é sinônimo de luta e força, com o ativismo de Maria da Penha (CE) no combate à violência doméstica e pela dedicação humanitária de Irmã Dulce (BA) aos vulneráveis. A bravura é representada pelo republicanismo de Frei Caneca (PE) e pelo heroísmo de Maria Quitéria (BA) na consolidação da independência nacional.

  • No pensamento crítico, o Nordeste também se mostra pioneiro, com a jurista Esperança Garcia (PI), reconhecida como a primeira advogada do país após peticionar contra os abusos da escravidão em 1770, e pela erudição de Câmara Cascudo (RN), um dos maiores antropólogos e folcloristas do Brasil, imortal nacional no mapeamento da alma popular e das terras na construção cidadã e artística do país.

    Nos esportes, o Nordeste se destaca, como o lendário Oscar Schmidt (RN), o Mão Santa, o maior nome do basquete nacional e reconhecido mundialmente. Também temos a pequena fadinha do Skate, Rayssa Leal (MA), que entre manobras radicais e desenvoltura de campeã, conquistou o coração de brasileiros.

    Ocupando espaços, se impondo pela grandeza, eloquencia, assertividade, por ideais e idéias, o protagonismo nordestino brilha em uma força que ninguém consegue conter, e que preconceitos são vencidos e combatidos. A força do passado contruiu e contribuiu para o presente, e em moldes de justiça e liberdade, força e soberania.

Alagoas, a riqueza em forma de sua gente

Hermeto Pascoal é referência mundial -  Kevin Yatararola / Divulgação / CP Memória

O estado das belezas naturais de ponta a ponta, do litoral ao sertão, mostra sua importância na construção e história do país. O território alagoano, marcado historicamente por lutas de resistência desde o período colonial, moldou cidadãos que lideraram rupturas políticas, transformações científicas, renovações literárias e conquistas esportivas sem precedentes, projetando o nome do Brasil internacionalmente.

É a terra escolhida por Aqualtune, Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares, que transformaram a Serra da Barriga no maior símbolo de resistência contra a escravidão nas Américas, consolidando uma herança de busca incessante por liberdade que se reflete na altivez contemporânea do povo nordestino.

O pioneirismo alagoano está profundamente gravado na própria fundação institucional do Brasil que hoje conhecemos, gerando os os dois primeiros presidentes da República: Marechal Deodoro da Fonseca, que decretou a República, e Marechal Floriano Peixoto, que o consolidou e estabilizou.

É onde Delmiro Gouveia fez pouso, desenvolvendo o sertão e revolucionando a indústria nacional, mostrando como o nordestino é capacitado e não foge do trabalho, refletindo no crescimento de diversas cidades, como São Paulo e Brasília.

Nise da Silveira e Graciliano Ramos - Reprodução


Na ciência e no campo do pensamento humano, a contribuição alagoana de Nise da Silveira foi destaque mundial. Nascida em Maceió, a médica psiquiatra revolucionou o tratamento de saúde mental ao combater métodos violentos como o eletrochoque e o isolamento, introduzindo a arte nos tratamentos, humanizando a psiquiatria.

Na letras e literatura, Graciliano Ramos, mestre do Modernismo que traduziu com realismo a alma do sertanejo em obras-primas como Vidas Secas, e o rigor técnico do linguista, cronista, professor, filólogo e lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda, cujo trabalho de catalogação da língua portuguesa tornou seu nome um sinônimo universal de dicionário em todo o Brasil.

A música alagoana é celebrada em todo país, com nomes como Djavan, que construiu uma das carreiras mais ricas e sofisticadas da MPB, misturando ritmos tradicionais, jazz e pop em uma harmonia poética, e do multi-instrumentista Hermeto Pascoal, nascido em Lagoa da Canoa, e reverenciado mundialmente como um dos maiores músicos experimentais, capaz de extrair melodias de qualquer elemento da natureza.

E nos esportes, Alagoas deu ao Brasil e o mundo a Rainha do Futebol: Marta Vieira, natural de Dois Riachos; eleita seis vezes a melhor jogadora de futebol do mundo, quebrando paradigmas e sendo a pioneira no futebol feminino, abrindo caminhos para meninas sonharem e alcançarem novos patamares.

Alagoas também é a terra de Marias e Josés, que longe dos holofotes, são a força motriz do Estado, do Litoral ao Sertão, do Agreste à Zona da Mata. São agricultores, professores, rendeiras, pescadores, marisqueiros, comerciantes, artistas, profissionais liberais, guias de turismo, folcloristas e tantos outros, que dão vida à cultura e à economia alagoana com dignidade e que, na simplicidade de sua rotina e na riqueza de sua hospitalidade, mostram a força de Alagoas neste dia do Nordestino.