Valdomiro Barbosa: o homem por trás de parte da transformação de Arapiraca

Da comercialização do fumo para o mercado nacional e internacional à expansão da infraestrutura, sua trajetória se entrelaça com a história econômica da cidade

Por Maria Villanova | 7Segundos

A história de Arapiraca foi construída por pessoas que chegaram de outras localidades e encontraram na cidade oportunidades para empreender e contribuir com seu desenvolvimento. Foi assim com o pioneiro, Manoel André, responsável pela sua fundação, e com Esperidião Rodrigues, responsável pela sua independência. Mas hoje, o 7Segundos destaca a história de Valdomiro Barbosa, empresário que participou de transformações importantes na economia local, com marcos de desenvolvimento diversos.

Nascido no Engenho Taquara, em Limoeiro de Anadia, ele se mudou para Arapiraca em 1938 e construiu uma trajetória marcada pelo comércio, pela iniciativa empresarial e pela geração de oportunidades. Com sua primeira esposa, Maria de Lourdes de Almeida Barbosa, enxergava na cidade um ambiente de crescimento e desenvolvimento, ligados a um grande sentimento de responsabilidade com a família, confiado por sua mãe, Afra Barbosa, em seu leito de morte.

“Apesar de ser o terceiro filho, minha avó confiou a ele a criação dos irmãos. E assim ele o fez”, contou Ivânia Barbosa Brêda, de 83 anos, em entrevista especial ao 7Segundos. “Ele era apaixonado por Arapiraca, e sempre buscava meios de melhorar a cidade, de desenvolver e de progredir. Tanto que, na ocasião de sua morte, falavam que existia uma Arapiraca antes e depois de Valdomiro Barbosa”

Um homem a frente de seu tempo


Antes de se tornar um dos nomes ligados ao desenvolvimento econômico do município, Valdomiro começou a vida profissional como mascate, atividade em que percorria diferentes localidades para vender mercadorias. Também trabalhou na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, onde exerceu funções como guarda-fio e carteiro. A experiência no comércio e o contato com a população ajudaram a formar o perfil de um empreendedor que, ao longo dos anos, diversificou os negócios e passou a investir em setores estratégicos para Arapiraca.

Em um período no qual o cultivo do fumo ganhava força na economia do Agreste alagoano, Valdomiro identificou possibilidades de ampliar a comercialização do produto. Além de atuar como comprador e plantador de fumo, ele passou a trabalhar para que a produção de Arapiraca alcançasse diretamente o mercado internacional: "Nos fundos de nossa residência, ficavam pilhas e pilhas de fumo, onde nós brincávamos as vezes", recordou Ivânia.

Casa de Valdomiro Barbosa em Arapiraca na década de 50 - Cortesia
Casa de Valdomiro Barbosa em Arapiraca na década de 50


Naquele momento, parte do fumo produzido na região era comercializada por intermédio da Bahia, de onde seguia para outros mercados. Valdomiro buscou mudar essa dinâmica. Para isso, fundou a Exportadora de Fumo de Arapiraca S/A (EFASA) e estabeleceu parceria com o empresário Carlos Lyra, iniciativa que possibilitou a exportação do produto para países da Europa e para os Estados Unidos.

“Ele já ia para Bahia todas as quintas, negociando e vendendo o fumo, mas enxergou que poderia mais. Para facilitar a exportação, adquiriu boa parte dos galpões do Jaraguá, que armazenavam o fumo que seguia pelo porto de Maceió. Isso facilitava e diminuia a necessidade de viagens, que naquela época eram de quase 4 horas entre Maceió e Arapiraca”, relatou Ivânia.

Valdomiro também foi o responsável por introduzir a corretagem no mercado fumageiro local e financiou agricultores, contribuindo para movimentar a cadeia produtiva. Ao ampliar as relações comerciais e a circulação de recursos, ajudou a fortalecer a atividade que projetou Arapiraca nacionalmente como um dos principais centros produtores de fumo do país.

"Ele dava aos agricultores o adubo, fazendo com que eles pudessem plantar e desenvolver o fumo. Posteriormente, em troca, como pagamento, eles davam a ele parte da lavoura", explicou Ivânia.

O crescimento dos negócios também favoreceu a chegada de instituições financeiras ao município, atraindo agências bancárias, facilitando e ampliando as condições de financiamento e gerando renda e movimentação econômica para Arapiraca “os banqueiros chegavam e iam procurá-lo, para só depois falar com os políticos locais. Era respeito à visão de negócios que ele tinha”, concluiu Ivânia.

Os benefícios da época são refletidos até hoje. Arapiraca é considerado o grande centro comercial e de serviços do Agreste, que atende a boa parte da população das cidades do Agreste.

Contribuições para a estrutura urbana

  • O espírito empreendedor de Valdomiro também alcançou setores fundamentais para a infraestrutura urbana. Em 1945, ele adquiriu a empresa responsável pelo fornecimento de energia elétrica no município, que posteriormente passou a operar como Força e Luz de Arapiraca Ltda. Sob sua administração, a companhia foi modernizada e ampliada com recursos próprios.

    Apesar da energia elétrica já ter chegado a Arapiraca em 1925, por meio de um gerador instalado pelo empresário Antônio Apolinário Correia, foi com Valdomiro que ela se estabilizou e o serviço foi ampliado. Arapiraca crescia e atraia cada vez mais pessoas, interessadas pela prosperidade da cidade.

    “Ele, com dinheiro próprio, ergueu postes pela rua. Primeiro de madeira, posteriormente de cimento. Também estava sempre alerta para acionar conserto em casos de falha do gerador”, recordou Ivânia. Insatisfeito com a dependência da subestação de Palmeira dos Índios, ele articulou junto à Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) a implantação de uma subestação em Arapiraca.

  • Para viabilizar o empreendimento, doou o terreno onde a estrutura seria instalada e ficou responsável pela concessão, conforme registro de homenagem prestada a ele na Câmara dos Deputados, em 2003, pelo deputado Rogério Teófilo, na época de sua morte.

    Na área da mobilidade, Valdomiro também participou da criação da primeira linha de ônibus entre Arapiraca e Maceió, como recordou Ivânia. A ligação ampliou as possibilidades de deslocamento entre o Agreste e a capital, favorecendo a circulação de pessoas e as relações comerciais em um período de expansão do município.

    O legado da família Barbosa também se relaciona à história da assistência médica em Arapiraca, com a trajetória do Hospital Afra Barbosa. A instituição tem suas origens em uma casa de saúde criada pelo médico Djacy Correia Barbosa, conhecido como Dija Barbosa, irmão de Valdomiro, e recebeu o nome em homenagem à sua mãe.

Um pai amoroso, presente e admirável


Apesar de ser extremamente ativo e participar ativamente da construção da cidade, Valdomiro é lembrado com carinho pela família por sua dedicação, compromisso, amor e zelo com a família. Um pai presente e carinhoso, que sempre procurava estar junto com a família.

Valdomiro com Maria de Lourdes Barbosa, primeira esposa, e as filhas, Maria Iêda e Ivânia

"Me recordo das viagens, ele sempre saia bem cedo de Arapiraca e, antes de ir viajar, passava no internato onde eu estava com a minha irmã, Iêda. Nos via, conversava, depois ia para a Bahia negociar o fumo. Na volta, o caminho inverso: antes de voltar à Arapiraca, passava no Sacramento, para nos abraçar", recordou emocionada Ivânia.

Ao total, Valdomiro teve oito filhos: de seu casamento com Maria de Lourdes de Almeida Barbosa, nasceram Maria Iêda, conhecida como Professora Iêda, alma máter da Uneal, Ivânia Maria, Évio, o único filho homem, e Maria Betânia, que morreu ao nascer. Com Socorro Barros, teve as médicas Valdirene e Valdenice. E com Ivanilda Barbosa, a advogada Valéria e a médica Viviane.

Com as filhas Valdirene e Valdenice, e a segunda esposa, Socorro Barros


“Como empreendedor, eu o via como um homem trabalhador, corajoso e disposto a abrir caminhos. Começou a trabalhar ainda pequeno e construiu, com seu esforço, o patrimônio e as oportunidades que ofereceu à família. Mas sua realização também estava em ajudar outras pessoas. Sentia felicidade em abrir portas para amigos, ajudá-los a encontrar trabalho, estudar e crescer. Sua generosidade foi um dos exemplos mais fortes que deixou para nós”, contou Valdirene Barbosa, neurologista, ao lembrar de seu pai.

A família conta, atualmente, com 14 netos (Évia, Yvens, Yeddinha, Ivaninha, Yanna, Kilza, Yale, Évio, Elton, Antoine, Kirla, David, Arthur e Antônio), 19 bisnetos (Rayssa, Kevin, Kayo, Lilás, Cristal, Natasha, Steffi, Derek, Adam, Ana Clara, Kayk, Arthur, Cadu, Maria Eduarda, Guilherme, Marília, Steve, Maria Luísa e Malu) e dois tataranetos (Martin e Cora), além de inúmeros sobrinhos. Dentre eles, a vice-governadora eleita por Alagoas, Célia Rocha.

Com parte dos netos, na década de 70: Yedda, Évia, Yvens, Yanna e Ivaninha. No colo, Yale Fernandes e Kilza

A trajetória de Valdomiro também recebeu reconhecimento público. Em 1962, foi homenageado em Maceió com o título de Fumageiro do Ano. Em 1970, recebeu da Câmara Municipal de Arapiraca o título de Cidadão Arapiraquense e a Comenda Espiridião Rodrigues.

Valdomiro morreu em 17 de maio de 2003, aos 83 anos. Duas décadas depois, sua história permanece associada a uma fase de transformações econômicas e estruturais de Arapiraca. Do comércio ambulante à exportação de fumo, passando pela energia elétrica, pelo transporte e pela diversificação dos negócios, sua trajetória ajuda a compreender como iniciativas empresariais contribuíram para consolidar a cidade como um dos principais polos do interior de Alagoas.

Acompanhe a entrevista de Ivânia Barbosa Brêda ao portal 7Segundos