Por décadas, o debate sobre a tradição carnavalesca de Arapiraca dividiu opiniões. Para alguns, a cidade nunca teve uma cultura forte de carnaval; para outros, a folia já foi um dos momentos mais vibrantes do calendário cultural do Agreste. A percepção varia conforme a geração que viveu cada fase da festa.
O município experimentou ciclos distintos: a efervescência das décadas de 1960 e 1970, o hiato cultural que levou famílias a buscar o litoral durante o período momesco, o auge das micaretas nos anos 1990 e início dos anos 2000 e, mais recentemente, a consolidação das prévias carnavalescas como principal expressão da festa popular.
Entre memórias preservadas em fotografias, relatos, arquivos pessoais e páginas nas redes sociais, antigos foliões mantêm viva a lembrança de um tempo em que Arapiraca era referência estadual em carnaval de rua e bailes sociais. Já as novas gerações cresceram conhecendo um formato diferente de celebração: os blocos organizados antes do carnaval, reunindo milhares de pessoas em clima familiar e festivo.
Esta matéria especial resgata a trajetória do carnaval arapiraquense, desde os primeiros blocos nascidos após a emancipação política até a atualidade, quando a cidade reafirma sua identidade cultural por meio da folia reinventada.
OS PRIMEIROS CARNAVAIS E O NASCIMENTO DOS BLOCOS TRADICIONAIS
Os registros mais antigos da folia em Arapiraca remontam à década de 1920, logo após a emancipação política do município. O escritor, folclorista e artista plástico Zezito Guedes, que faleceu em dezembro do ano passado, relata, em "Arapiraca através do tempo", que já nos anos de 1925, 1926 e 1927 a cidade organizava festas carnavalescas impulsionadas pelo entusiasmo da nova fase administrativa.
As elites políticas e sociais da época promoviam bailes e desfiles, consolidando o carnaval como uma expressão de celebração coletiva. Foi nesse contexto que surgiu o primeiro bloco carnavalesco local, o Canaverde, fundado pelo coronel Zé Farias, com estandarte simbólico e repertório próprio. Pouco depois, o maestro Jovino criou o Bola Preta, cujo destaque era a música composta especialmente para o desfile.
Outros blocos surgiram e marcaram época, como Lusitano, Garota Moderna, Padadinos, Caçadores e Sossega Leão, alguns ativos até meados da década de 1930. Mesmo em períodos de instabilidade política, a tradição resistiu, impulsionada por iniciativas como a Bandinha do Dedé Vigário, que animava ruas e residências com irreverência e espírito boêmio.
Nas décadas seguintes, o carnaval ganhou força com blocos estudantis — Zum Zum, Tengo Tengo, Bizorão, Bloco do Pau, Bisoleta, Corrupaco e Pingo Dela, e com escolas de samba, como 30 de Outubro, Unidos de Arapiraca e Cebolinha, ampliando o repertório cultural da festa.

Era de Ouro da juventude arapiraquense
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Entre os blocos que marcaram as décadas de 1960 e 1970, o Zum Zum tornou-se símbolo da juventude local. Formado majoritariamente por estudantes, o grupo reunia cerca de 60 integrantes e desfilava com fantasias criativas, marchinhas autorais e forte espírito de confraternização.
O jornalista Eli Mário Magalhães, um dos integrantes, mantém viva a memória do bloco e recorda as marchinhas irreverentes que homenageavam as famílias que recebiam os foliões em suas casas. O desfile era diurno, percorrendo ruas do centro, com paradas em residências onde os moradores ofereciam comida, bebida e acolhimento.
Segundo ele, o carnaval começava semanas antes, com organização coletiva e convivência intensa dos integrantes, muitos vindos de outras cidades para participar da festa. À noite, a programação continuava nos tradicionais bailes do Clube dos Fumicultores, embalados por orquestras de frevo e grandes encontros sociais.
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Após o declínio do carnaval tradicional, Arapiraca encontrou um novo modelo de festa com a Micaraca, o carnaval fora de época iniciado em 1992. Durante 13 anos, o evento consolidou-se como uma das maiores micaretas do Nordeste, atraindo multidões e impulsionando o turismo local.
Com percurso pela Avenida Governador Lamenha Filho e estrutura dividida entre camarotes, arquibancadas, abadás e pipoca, a festa reuniu grandes nomes do axé, como Chiclete com Banana, Asa de Águia, Netinho, Ivete Sangalo e Araketu. A estimativa da organização apontava públicos superiores a 250 mil pessoas por edição.
Para muitos foliões, a Micaraca representou um período de ouro da cultura festiva arapiraquense, com impacto econômico, social e simbólico que ainda ecoa na memória coletiva da cidade.
Arapiraca no samba: homenagem histórica no carnaval de Maceió
Em 2012, Arapiraca foi homenageada pela Escola de Samba Jangadeiros Alagoanos, em Maceió, com o enredo “Um sonho à sombra de uma Arapiraca”, de autoria do jornalista e carnavalesco Henrique Fernandes. O samba-enredo destacou a trajetória histórica, cultural e econômica do município, reconhecendo seu protagonismo regional e sua identidade cultural.
A homenagem simbolizou o reconhecimento da importância de Arapiraca no cenário sociocultural alagoano, reforçando o vínculo entre o município e a tradição carnavalesca estadual.
Folia de Rua: a consolidação das prévias carnavalescas em 2026
No século XXI, Arapiraca consolidou um novo modelo de carnaval com o Folia de Rua, criado em 2001 e expandido ao longo das décadas seguintes. As prévias carnavalescas tornaram-se marca registrada da cidade, reunindo milhares de foliões em eventos organizados, familiares e culturalmente diversos.
A criação da Liga de Blocos, em 2017, profissionalizou a festa, que em 2026 reúne mais de 30 blocos, incluindo tradicionais como Valeriano & Cia, Tá Tô Besta e Oz Bregas VIPs, além de blocos institucionais e comunitários. Alguns grupos ultrapassam a marca de dois mil abadás vendidos, com grande participação popular na chamada “pipoca”.
O Folia de Rua representa a síntese da história carnavalesca arapiraquense: tradição, reinvenção e identidade cultural. Ao transformar a festa em um espaço de convivência social, cultural e econômica, Arapiraca reafirma sua vocação para a folia, não apenas como memória do passado, mas como expressão viva da cidade em 2026.
Confira a programação deste sábado e domingo:
No sábado (31) será dia do tradicional desfile dos blocos, começando a partir das 16h.
A concentração é na Avenida Ventura de Farias e o percurso seguirá por toda Avenida Miguel Correria de Amorim (Avenida Norte) até a Perucaba, onde acontecem os shows de Edson Gomes, Afro Ara e Dany Kebrança.
No domingo (1º), último dia de prévias, terá uma programação especial, voltada para toda família.
O tradicional Folia Kids vai agitar a galerinha com a apresentação da quadrilha Canarraiá Kids e os shows de Petequinha e Florzinha e do Palhaço Mixuruca.

