Dentro do mercado público do Jacintinho, em Maceió, passando por vielas estreitas cercadas por pequenos comércios de frutas, temperos, artesanatos e outros produtos populares, está a Loja do Doté. Em meio a fios de conta coloridos, imagens de orixás, banhos espirituais engarrafados e vestimentas ritualísticas, clientes entram e saem discretamente da loja, procurando itens específicos para rituais do Candomblé ou da Umbanda. Outros preferem fazer os pedidos pelo WhatsApp, longe dos olhares atravessados pelo preconceito religioso.
Na Umbanda e no Candomblé, elementos utilizados nos rituais religiosos fazem parte do cotidiano dos terreiros e movimentam uma cadeia econômica própria. Em Alagoas, parte desses artigos chega de estados como Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Outra parte é produzida dentro dos próprios terreiros, sustentando uma rede de comerciantes, costureiras e artesãos ligados às religiões de matriz africana.
Trazendo nas próprias vestes parte da estética ligada à cultura afro-brasileira, o sacerdote Doté Elias, proprietário da Loja do Doté, concedeu entrevista à reportagem usando uma roupa confeccionada com tecido Ankara, tradicional em diversos países africanos e bastante utilizado no Candomblé por sacerdotes e adeptos. Em tons vibrantes de azul e dourado, a vestimenta chama atenção entre os corredores da feirinha do Jacintinho. De acordo com ele, modelos como o utilizado durante a entrevista também podem ser usados por pessoas que não seguem religiões de matriz africana, embora destaque que o traje também carrega identidade cultural e religiosa.

“Pois bem, eu visto essa roupa, é a minha identidade. Não é porque eu sou um sacerdote, mas tem pessoas que não são da religião, mas gostam, acham bonita a estampa, o estilo da roupa. Claro que dentro do Candomblé temos roupas específicas, mas existem outras que a população em geral pode usar”, afirma.
Fundada em 2012 pelo sacerdote Doté Elias, a Loja do Doté surgiu para suprir uma carência antiga dos terreiros em Alagoas. Segundo ele, durante muitos anos sacerdotes precisavam viajar para estados como Pernambuco e Bahia para encontrar objetos utilizados especificamente no Candomblé.
O crescimento desse mercado acompanha, não por acaso, o aumento do número de adeptos das religiões de matriz africana no Brasil. Dados do último Censo divulgado pelo IBGE apontam que o país possui quase dois milhões de praticantes de Candomblé, Umbanda e outras religiões afro-brasileiras, um crescimento de cerca de 300% em relação ao levantamento anterior. E junto com a expansão dessa fé, cresce também uma cadeia econômica ligada à comercialização de artigos utilizados nos rituais religiosos, um mercado ainda invisível nos levantamentos oficiais.

No Brasil, o empreendedorismo negro ganhou força impulsionado não apenas pela busca por autonomia financeira, mas também pelas dificuldades históricas de acesso ao emprego formal. Dentro desse cenário, o comércio ligado aos terreiros também se consolidou como fonte de renda para milhares de famílias.
Em muitos barracões, especialmente entre sacerdotes e lideranças religiosas, as demandas ligadas aos cultos acabam ocupando boa parte da rotina diária. Preparação de cerimônias, atendimento espiritual, confecção de roupas, organização de rituais e cuidados com o próprio terreiro fazem parte de uma dinâmica que, muitas vezes, dificulta a manutenção de empregos formais paralelos.
Ao mesmo tempo, a tradição de confeccionar artigos dentro dos próprios terreiros também contribui para fortalecer as atividades econômicas dessas comunidades. Costura, artesanato e outros saberes ligados às religiões passaram a representar não apenas expressão cultural e religiosa, mas também fonte de renda para muitas famílias.
Empreendedorismo Negro
Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que pessoas negras representam cerca de 72,5% dos donos de negócios em Alagoas, o equivalente a aproximadamente 247,6 mil empreendedores no estado. O levantamento também mostra crescimento de 17% no número de empreendedores negros desde 2012.

Em regiões marcadas historicamente pelo comércio popular e pela informalidade, pequenos negócios ligados à produção artesanal, à cultura e aos serviços aparecem, muitas vezes, como única alternativa de geração de renda para comunidades negras. Em Alagoas, esse movimento também alcança os empreendimentos ligados às religiões de matriz africana, presentes em feiras populares, eventos culturais e mercados públicos espalhados pelo estado.
Para Jonathan Silva, integrante da Rede Cenafro em Alagoas, muitos desses empreendimentos ainda operam sem reconhecimento formal do seu potencial econômico e cultural. Segundo ele, boa parte da economia preta em Alagoas historicamente se desenvolveu de forma informal, especialmente em áreas ligadas à cultura, ao artesanato, à estética e às tradições afro-brasileiras.

“Existiam muitos empreendedores negros produzindo arte, cultura, moda, estética, gastronomia e iniciativas criativas, mas sem acesso estruturado a redes de apoio, capacitações, editais e políticas públicas específicas”, afirma.
Jonathan também destaca que negócios ligados aos terreiros movimentam uma cadeia econômica ampla, envolvendo vestimentas religiosas, acessórios, ervas, alimentos litúrgicos, instrumentos musicais e produção artesanal.
Economia que existe, mas não aparece
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Apesar da movimentação econômica presente nos mercados populares e nos terreiros, o tamanho desse segmento ainda é desconhecido oficialmente. Durante a apuração da reportagem, órgãos oficiais, como a Junta Comercial de Alagoas (Juceal), informaram não possuir dados específicos sobre empreendimentos ligados às religiões de matriz africana.
A dificuldade está, principalmente, na ausência de uma classificação própria para esse tipo de atividade econômica.
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Segundo a Juceal, o comércio de artigos religiosos costuma ser enquadrado em categorias genéricas do varejo, sem distinção entre segmentos religiosos.
Na prática, isso faz com que lojas voltadas ao Candomblé e à Umbanda acabem diluídas em levantamentos mais amplos do comércio popular, dificultando a mensuração oficial do impacto econômico desse mercado.
Uma rede comunitária que gera renda
Mais do que um ponto de venda, a Loja do Doté, no Jacintinho, acabou se transformando em espaço de circulação para pequenos empreendedores ligados à cultura afro-brasileira. Parte das mercadorias vendidas no local é produzida artesanalmente por costureiras, artesãos e religiosos que encontram na loja uma oportunidade de expor e vender seus trabalhos.
Segundo Doté Elias, muitos produtores deixam suas peças no estabelecimento, que funciona como uma vitrine para comerciantes menores ligados ao universo dos terreiros.
“A Loja do Doté não é só eu que produzo. Ela é aberta para os pequenos comerciantes dentro da área que queiram vender seus produtos. Muitos deixam mercadoria aqui e eu ajudo a divulgar”, afirma.

O sacerdote afirma que a iniciativa também ajuda a movimentar economicamente o mercado público do Jacintinho, conhecido popularmente como “Feirinha do Jacintinho”. Para ele, o espaço continua sendo importante para geração de renda e fortalecimento do comércio popular no bairro.
Do outro lado do balcão: o olhar de quem compra
Dentista e iniciado no Candomblé há dez anos, Warley Silva dos Santos afirma que o consumo de itens religiosos acompanha diferentes etapas da vida dentro dos terreiros. Hoje ocupando a posição de irmão mais velho dentro da hierarquia religiosa, ele também participa ativamente das celebrações realizadas em um terreiro localizado no bairro da Ponta da Terra, em Maceió.
Segundo Warley, períodos de festas e celebrações dedicadas aos orixás costumam intensificar a procura por roupas, adornos e outros elementos utilizados nos rituais. “Cada item desses é comprado especialmente para essas ocasiões. As cores também”, explica.
Em ocasiões especiais dentro do Candomblé, Warley utiliza paramentas ligadas ao orixá cultuado na celebração, com roupas e adornos preparados especificamente para esses rituais. Ele relembra que, ainda no período em que era iniciante na religião, participava das cerimônias vestido predominantemente de branco e usando fios de conta ligados ao seu orixá.

“Existe festa que precisamos estar de branco. E tem festa que podemos usar cores”, afirma. A próxima celebração do terreiro, segundo ele, acontece em junho e será dedicada a Xangô, orixá ao qual é ligado espiritualmente, e que tradicionalmente é representado pelas cores vermelho e branco.
Para Warley, muitos desses itens passaram a ser encontrados com mais facilidade nos últimos anos, principalmente através da internet e das redes sociais. “A internet está pra todos e facilitou muito a venda de materiais”, afirma.
O digital ampliando o alcance dos terreiros
As vendas online, segundo o dentista, também acabaram se tornando uma alternativa para adeptos que preferem manter discrição sobre a religião que praticam. “Tenho um filho [de santo] que compra tudo pela internet e chega na minha casa. A família dele não sabe e ele prefere evitar falar sobre”, relata.
Na Loja do Doté, o ambiente virtual também acabou se transformando em uma das principais ferramentas de expansão do negócio. Elias conta que as vendas pelas redes sociais começaram ainda em 2013, antes mesmo da popularização do delivery entre pequenos comerciantes.
“A Loja do Doté tem um site onde a gente vende produtos para Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Pernambuco e outros estados”, afirma.

Segundo o sacerdote, o serviço de entrega por WhatsApp ganhou força principalmente durante a pandemia, período em que o comércio precisou se adaptar às restrições sanitárias. “A pandemia mudou muita coisa. Atualmente a gente consegue ganhar dinheiro não só no virtual como também no presencial”, diz.
Racismo religioso: um gargalo ao empreendedorismo de terreiro
Apesar da movimentação econômica presente nos mercados populares, nas redes sociais e nos próprios terreiros, o segmento ainda enfrenta dificuldades para aparecer oficialmente nos levantamentos econômicos. A ausência de um recorte específico para empreendimentos ligados às religiões de matriz africana, somada à informalidade e ao receio de exposição vivido por parte dos consumidores, acaba tornando esse mercado pouco mensurado institucionalmente.
Segundo Doté Elias, situações de discriminação e preconceito ainda fazem parte da rotina da loja. “Vem muita gente que não é adepta, mas está ali comprando um produto. Depois aponta, discrimina. Infelizmente é uma realidade”, afirma.
“Medo não é coisa de povo de terreiro”:
Mesmo diante das dificuldades, a Loja do Doté continua funcionando diariamente no mercado do Jacintinho, conciliando vendas presenciais, encomendas pela internet e atendimento por WhatsApp. O modelo digital, que inicialmente surgiu como alternativa para ampliar o alcance do negócio, acabou também se tornando uma forma de atender consumidores que preferem manter discrição sobre a religião que praticam.
Comércio x resistência e adaptação
Além do preconceito religioso, empreendedores ligados ao segmento afro-religioso também enfrentam dificuldades comuns aos pequenos negócios, como limitações tributárias, falta de capital de giro e barreiras para expansão. Atualmente enquadrado como microempreendedor individual (MEI), Doté Elias afirma que pretende ampliar a estrutura da Loja do Doté e abrir novas unidades em municípios como Arapiraca e Joaquim Gomes, onde identifica demanda por produtos ligados aos terreiros.
“Pensei já em sair do MEI, colocar para ME, só que o custo é muito alto e no momento não tá tendo capital de giro”, afirma. Segundo ele, a loja é atualmente sua única fonte de renda.

Apesar das dificuldades, Doté afirma que o mercado ligado às religiões de matriz africana continua crescendo em Alagoas, inclusive em regiões onde antes quase não existiam pontos especializados de venda. O sacerdote relembra que, em 2019, chegou a abrir uma unidade no Mercado Público localizado no bairro Benedito Bentes, em Maceió, numa época em que poucos comerciantes trabalhavam com roupas e artigos específicos do Candomblé. Segundo ele, a presença da loja acabou incentivando outros vendedores a também passarem a comercializar esses produtos.

Na tentativa de fortalecer juridicamente os terreiros e ampliar o acesso a direitos, instituições como o Instituto Negro de Alagoas (Ineg/AL) têm incentivado a formalização dessas casas religiosas. Segundo Pedro Gomes, representante da entidade, o processo permite que os terreiros passem a existir oficialmente como associações civis religiosas.
“A formalização visa trazer o terreiro para a existência jurídica”, explica. Segundo ele, o CNPJ permite acesso a benefícios fiscais, participação em editais públicos, proteção patrimonial e maior inserção institucional dessas comunidades religiosas.
Pedro afirma que, apesar dos avanços, muitos terreiros ainda permanecem na informalidade, principalmente em bairros periféricos e municípios do interior de Alagoas. “A maioria dos terreiros maiores, sobretudo em Maceió, já estão formalizados, mas temos muitos terreiros na informalidade”, diz.
Sem formação na área de administração, Doté Elias afirma que também precisou aprender sozinho estratégias de gestão, vendas e organização financeira para manter o funcionamento da loja ao longo dos anos.

Segundo ele, parte desse aprendizado veio através da internet, das redes sociais e da própria experiência acumulada no comércio popular. “A gente vai aprendendo a empreender, crescer e saber lidar com o dinheiro”, afirma.
O sacerdote acredita que os terreiros possuem grande potencial para o empreendedorismo comunitário, principalmente através da extensa e diversificada produção artesanal desenvolvida por costureiras, artesãos e religiosos ligados às casas de axé. “Somos também empreendedores. Somos artesãos”, diz.
Além disso, um ponto importante que estimula tanto a produção quanto a venda de produtos associados à cultura dos terreiros, tem sido o interesse de pessoas ligadas à moda e itens decorativos. Turbantes, estampas, acessórios e elementos inspirados na cultura afro-brasileira passaram a ser utilizados por consumidores que não necessariamente seguem o Candomblé ou a Umbanda, ampliando o alcance desse mercado.

“Tem pessoas que não são da religião, mas gostam, acham bonita a estampa, o estilo da roupa”, afirma. Para Doté, esse movimento também ajuda a romper parte dos preconceitos históricos direcionados às religiões de matriz africana.
Apesar da expansão comercial e da presença cada vez maior desses elementos no cotidiano, o sacerdote deixa claro que os produtos utilizados dentro dos rituais religiosos precisam de um cuidado especial, e de conhecimento específico no preparo. “Não é só vender”, resume. “Tem fundamento, tem ciência e tem respeito.”
Perspectivas para o fortalecimento do setor
Se por um lado o empreendedorismo de terreiro ainda enfrenta desafios relacionados à informalidade, à invisibilidade econômica e ao preconceito religioso, por outro, a pauta começa a ganhar espaço nas discussões sobre desenvolvimento econômico e inclusão produtiva.
Para o Sebrae, iniciativas voltadas ao empreendedorismo ligado às religiões de matriz africana podem ser discutidas dentro de uma lógica de fortalecimento de negócios que possuem impacto econômico, social e cultural. Segundo o diretor técnico da instituição em Alagoas, Keylle Lima, o Sebrae acompanha as transformações da sociedade e avalia demandas que surgem dos próprios territórios e empreendedores.

“O empreendedorismo ligado às religiões de matriz africana é um tema relevante, que dialoga tanto com a valorização da cultura afro-brasileira quanto com a geração de oportunidades econômicas”, afirma.
A instituição destaca ainda que a construção de projetos específicos depende de processos de escuta, identificação de necessidades e articulação com lideranças e entidades representativas, mas reforça que seu compromisso é apoiar empreendedores de diferentes segmentos, oferecendo capacitação, orientação e acesso a oportunidades para o crescimento sustentável dos negócios.
Nesse cenário, o empreendedorismo de terreiro segue impulsionado não apenas pela necessidade econômica dos praticantes das religiões de matriz africana, mas também pelo crescente interesse da sociedade por elementos ligados à cultura afro-brasileira. Quando observados os números de crescimento dos que se declaram adeptos dessas religiões no país e a expansão desse comércio dentro e fora dos terreiros, fica evidente a existência de um mercado em constante movimento, que passa a ocupar espaço cada vez maior nas discussões sobre desenvolvimento local, valorização cultural e inclusão produtiva.

