Saúde mental de mulheres privadas de liberdade expõe desafios no sistema prisional de Alagoas

Pesquisa desenvolvida entre 2023 e 2024 mostra como o cárcere afeta a saúde mental de mulheres no sistema prisional de Alagoas

Por Lane Gois |

Ansiedade, depressão e o afastamento da família fazem parte da realidade enfrentada por mulheres privadas de liberdade em Alagoas. O cenário foi identificado em uma pesquisa desenvolvida por Lara Secco, advogada e mestra em Ciências Criminais, que investigou as condições de saúde mental das detentas do único presídio feminino do estado, localizado em Maceió. 



O estudo foi realizado entre 2023 e 2024, com autorização da Vara de Execuções Penais da Capital e aprovação do Comitê de Ética da instituição de ensino responsável pela pesquisa. Antes de entrevistar as internas, a pesquisadora conversou com profissionais que atuam na unidade prisional para compreender a realidade do local e evitar expor as detentas a perguntas sensíveis.

"A primeira entrevista que eu fiz foi com a psicóloga e com a assistente social. Elas relataram que os casos mais frequentes eram de ansiedade e depressão", explicou.

Ao todo, foram ouvidos profissionais da equipe técnica e três mulheres privadas de liberdade. Para preservar a identidade das participantes, a pesquisadora utilizou pseudônimos e garantiu que nenhuma informação pessoal seria divulgada.

Segundo ela, também optou por não informar às internas que era advogada, evitando que essa informação influenciasse as respostas durante as entrevistas ou gerasse expectativas sobre possíveis benefícios jurídicos.

"As entrevistas aconteceram em uma sala reservada, apenas comigo e cada entrevistada. Apesar da privacidade, elas permaneciam algemadas durante toda a conversa", relatou.

Cada uma das mulheres entrevistadas apresentou uma trajetória diferente, mas todas tinham em comum histórias marcadas por sofrimento e vulnerabilidade.

Um dos casos que mais chamou a atenção da pesquisadora foi o de uma detenta que estava presa havia quase 20 anos e era a mais antiga da unidade.


Presídio concentra mulheres de todo o estado


Outro fator apontado pela pesquisa é que Alagoas possui apenas um presídio feminino de regime fechado, concentrando mulheres de todas as regiões do estado em Maceió.

Essa centralização dificulta o contato familiar, principalmente para pessoas de baixa renda que moram em municípios distantes.

"Muitas famílias não conseguem visitar porque não têm condições financeiras para se deslocar até a capital", destacou.

Enquanto o sistema masculino conta com unidades em outras regiões de Alagoas e diferentes regimes de cumprimento de pena, as mulheres permanecem concentradas em uma única unidade prisional.


Durante a pesquisa, a capacidade oficial do presídio era de 157 vagas. A unidade abrigava 121 mulheres. 


Pesquisa enfrentou dificuldades


Além dos trâmites burocráticos para obtenção das autorizações necessárias, o trabalho de campo também foi impactado pela paralisação dos policiais penais durante o período das entrevistas.

Com a redução do efetivo, diversas visitas precisaram ser canceladas, prolongando a realização da pesquisa.

Apesar dos obstáculos, o estudo buscou lançar luz sobre uma realidade ainda pouco discutida: os impactos do encarceramento na saúde mental das mulheres e os desafios enfrentados por quem cumpre pena no sistema prisional alagoano.

Para a pesquisadora, compreender esse cenário é fundamental para fortalecer o debate sobre políticas públicas voltadas à assistência psicológica, à humanização do cumprimento da pena e à garantia dos direitos das mulheres privadas de liberdade.