Envelhecer: para alguns, é simplesmente curso natural da vida, e o resultado do acúmulo de experiências vividas ao longo dos anos. Para outros, é sinônimo de enfraquecimento, surgimento de doenças e a dependência física de terceiros para as atividades mais simples do dia a dia.
A chegada da terceira idade, por volta dos 60 anos, traz consigo diversas questões de saúde que, de fato, necessitam de atenção especial, tanto da própria pessoa, quanto dos seus familiares. As doenças degenerativas, e as não transmissíveis, são as mais comuns: hipertensão e doenças cardiovasculares, como infartos e AVCs, diabetes tipo 2, diversos tipos de demência, como o temido Alzheimer, depressão, problemas visuais, como a catarata, e até osteoporose.
Dentre as doenças que mais impactam a rotina do indivíduo que já passou dos 60 anos, e que podem comprometer sua autonomia, está a sarcopenia. Caracterizada pela perda progressiva de massa, força e função muscular, a doença se desenvolve de forma silenciosa e, por apresentar sintomas como fraqueza e dificuldade para realizar atividades simples, costuma ser confundida com o próprio envelhecimento ou até com outras condições de saúde. No entanto, diferentemente do que muitos imaginam, a sarcopenia não é uma consequência inevitável da idade e pode ser prevenida e tratada quando identificada precocemente.
Quando o alerta acende:
Ir ao supermercado e sentir dificuldades para carregar as compras, caminhar de maneira mais lenta, sofrer quedas ou passar a apresentar desequilíbrios frequentes. Ter dificuldade para levantar de uma cadeira e começar a sentir cansaço para realizar tarefas cotidianas. Esses são alguns dos sinais que merecem atenção, de acordo com a médica geriatra Laisa Mirele Santos de Carvalho.
Em entrevista ao portal 7Segundos, a especialista explica que, embora esteja relacionada ao envelhecimento, a sarcopenia não deve ser encarada como uma consequência inevitável da idade.

"A perda de massa muscular é um processo natural do envelhecimento e começa, em geral, por volta dos 40 anos, tornando-se mais acelerada após os 60. Mas isso não significa que, por ser natural, seja inevitável ou que aconteça na mesma intensidade em todas as pessoas", afirma.
Segundo a geriatra, pessoas com doenças crônicas, como diabetes, sedentárias ou que passaram por períodos prolongados de internação podem desenvolver a doença mais cedo. Ainda assim, a faixa etária que exige maior atenção é a população acima dos 60 anos.
Além da redução da força e da massa muscular, a sarcopenia compromete gradativamente a capacidade funcional do indivíduo. " É aquele paciente que começa a ter dificuldade para carregar suas compras, fica mais lento para caminhar, começa a ter quedas ou desequilíbrios frequentes, apresenta dificuldade para levantar de uma cadeira e passa a sentir cansaço para realizar suas tarefas cotidianas", detalha.
Homens e mulheres podem desenvolver a doença, embora fatores hormonais influenciem a forma como ela evolui em cada sexo. Segundo a médica, os homens costumam ter maior reserva de massa muscular ao longo da vida, mas passam por perda progressiva com o envelhecimento, especialmente com a redução dos níveis de testosterona. Nas mulheres, esse processo tende a se acelerar após a menopausa, devido à queda do estrogênio, além de elas apresentarem uma reserva muscular naturalmente menor.
O envelhecimento é o principal fator de risco para a sarcopenia, mas não o único. Sedentarismo, baixa ingestão de proteínas, obesidade, doenças crônicas, períodos prolongados de imobilização e internações também favorecem o desenvolvimento da doença.
"Os idosos em geral devem ficar atentos, principalmente aqueles que passaram a ter dificuldade para levantar de uma cadeira, subir escadas, caminhar distâncias maiores, perderam peso de forma não intencional ou sofreram quedas", orienta.
Sem tratamento, a sarcopenia pode comprometer significativamente a independência da pessoa idosa. A especialista explica que a doença aumenta o risco de quedas, fraturas, internações e até de mortalidade, além de provocar perda da autonomia e piora da qualidade de vida.
Para prevenir ou retardar a progressão da doença, Laisa destaca que a combinação entre atividade física e alimentação adequada é fundamental.
"Precisamos incorporar à rotina a prática regular de exercícios físicos. Além dos exercícios aeróbicos, como a caminhada, os exercícios resistidos, como a musculação, têm papel importante no ganho de massa muscular. A ingestão adequada de proteínas e a correção de deficiências nutricionais também auxiliam na prevenção e no tratamento da sarcopenia", conclui.
Envelhecimento da população exige atenção
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O envelhecimento da população brasileira torna a discussão sobre doenças que comprometem a autonomia cada vez mais necessária. Segundo dados do Ministério da Saúde, com base no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem cerca de 36 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a aproximadamente 17% da população. A cada ano, esse contingente aumenta em cerca de 1,1 milhão de idosos.
O crescimento da população idosa é resultado da melhoria das condições de vida e dos avanços na saúde pública, refletindo o aumento da expectativa de vida dos brasileiros. -
Ao mesmo tempo, esse cenário reforça a necessidade de ampliar os cuidados voltados ao envelhecimento saudável e à prevenção de doenças que possam comprometer a independência e a qualidade de vida.
Embora condições crônicas, como hipertensão e diabetes, sejam comuns nessa faixa etária, especialistas alertam que o envelhecimento não deve ser associado, automaticamente, à perda de autonomia. A capacidade de realizar atividades do dia a dia, manter a força muscular e preservar a independência também fazem parte de um envelhecimento saudável. Nesse contexto, a identificação precoce de doenças como a sarcopenia torna-se uma aliada para garantir mais qualidade de vida aos idosos.
Diagnóstico precoce faz diferença
Embora seja uma doença silenciosa, a sarcopenia pode ser identificada antes que provoque perdas mais severas de força e autonomia. Para o médico do esporte Jefferson Santos Vieira de Santana, reconhecer os primeiros sinais é determinante para aumentar as chances de sucesso no tratamento.
"Quando identificada nas fases iniciais, a sarcopenia responde melhor ao treinamento de força, à adequação nutricional e ao tratamento de doenças associadas, reduzindo o risco de quedas, fraturas, perda da independência, hospitalizações e mortalidade", explica.

Segundo o especialista, o diagnóstico não depende apenas da perda de massa muscular. A avaliação leva em consideração a força, o desempenho físico e a qualidade da musculatura, por meio de testes simples, além da investigação de doenças e outros fatores que possam estar contribuindo para o problema.
Mesmo após o diagnóstico, o quadro pode ser revertido parcialmente e, principalmente, controlado. De acordo com Jefferson Santana, o treinamento de força é a estratégia mais eficaz para prevenir e tratar a doença.
"É possível aumentar significativamente a força muscular, melhorar a funcionalidade e recuperar parte da massa muscular, mesmo em idosos. Nos casos mais avançados, nem toda a massa perdida pode ser recuperada, mas ainda assim há ganhos importantes em equilíbrio, autonomia e qualidade de vida", destaca.
O médico também ressalta que o tratamento vai além da prática de exercícios. Alimentação adequada, ingestão suficiente de proteínas, correção de deficiências nutricionais, controle de doenças crônicas, boa qualidade do sono e redução do sedentarismo fazem parte do processo.
Para pessoas com mais de 60 anos ou que apresentem fatores de risco para perda muscular, a recomendação é realizar uma avaliação médica antes de iniciar um programa estruturado de exercícios. A medida permite identificar possíveis limitações e definir um plano de treinamento seguro e individualizado.

Exercícios de força são aliados
A prática de atividade física é uma das principais ferramentas para prevenir e combater a sarcopenia. Segundo o educador físico Rudny Stevo, a procura de idosos por acompanhamento profissional aumentou nos últimos anos, também devido à maior conscientização de que a perda muscular não precisa ser encarada como uma consequência inevitável do envelhecimento.
Os exercícios de fortalecimento muscular, conhecidos como treinamento resistido, são os mais indicados para preservar ou recuperar a massa muscular. Agachamentos adaptados, exercícios para pernas, costas, peitoral e ombros, além de atividades voltadas ao equilíbrio e à coordenação, fazem parte dos protocolos utilizados.

Embora a musculação seja considerada a estratégia mais eficaz, outras modalidades também podem trazer benefícios.
"Pilates, treinamento funcional adaptado, hidroginástica e caminhadas ajudam, mas é importante que o programa inclua algum tipo de sobrecarga muscular progressiva, sempre respeitando as limitações de cada pessoa", afirma.
De acordo com o educador físico, duas sessões semanais de fortalecimento já contribuem para preservar a massa muscular e a força. Em pessoas que já apresentam sarcopenia, o ideal costuma ser de duas a três sessões por semana, sempre associadas a uma alimentação adequada.

Entre os erros mais comuns, ele cita acreditar que apenas caminhar é suficiente para evitar a perda muscular, utilizar cargas muito leves durante todo o treinamento e interromper os exercícios com frequência.
"O objetivo não é apenas aumentar a massa muscular, mas melhorar a capacidade de realizar atividades do cotidiano, como levantar da cadeira, subir escadas e carregar objetos com mais autonomia", conclui.
Observando as orientações dos especialistas ouvidos pela reportagem, fica claro que envelhecer não é sinônimo de perder autonomia ou depender totalmente de terceiros. Embora o avanço da idade traga mudanças naturais ao organismo, reconhecer os sinais de doenças como a sarcopenia, buscar acompanhamento profissional e adotar hábitos saudáveis são medidas que contribuem para preservar a força muscular, a independência e a qualidade de vida ao longo dos anos.

