Médico relata falta de leito para cesariana de alto risco em Hospital da Unimed Maceió: 'tragédia anunciada'
Paciente acompanhada pelo médico apresentava histórico delicado; Em uma gravidez anterior, ela desenvolveu uma síndrome hipertensiva (pré-eclâmpsia) grave e perdeu um bebê prematuro extremo
O obstetra Kleber Fortes voltou a fazer um alerta público sobre a estrutura do atendimento obstétrico na rede privada de Maceió após relatar dificuldades enfrentadas para realizar a cesariana de uma gestante de alto risco na última sexta-feira (27). Segundo o médico, a paciente só conseguiu ser operada perto da meia-noite após uma sequência de atrasos, superlotação e falta de leitos.
A nova denúncia ocorre semanas após o especialista já ter manifestado preocupação com o impacto do descredenciamento da Santa Casa de Maceió pela Unimed Maceió, tema abordado em reportagem publicada no último dia 17 de fevereiro.
De acordo com o relato, a paciente acompanhada pelo médico apresentava histórico delicado. Em uma gravidez anterior, ela desenvolveu uma síndrome hipertensiva (pré-eclâmpsia) grave e perdeu um bebê prematuro extremo. Na gestação atual, segundo o obstetra, tratava-se novamente de um caso de alto risco, com diversas situações de saúde envolvidas como, por exemplo: predisposição à pré-eclâmpsia; uso de medicação preventiva durante o pré-natal; restrição de crescimento fetal; indicação de interrupção antecipada da gravidez para reduzir riscos maternos e fetais.
A cirurgia estava inicialmente prevista para o início da tarde, mas precisou ser remarcada sucessivas vezes. Ao chegar à unidade hospitalar no fim do dia, o médico afirma ter encontrado um cenário de superlotação. Segundo ele, não havia vagas para internação obstétrica.
Ele relatou que uma outra gestante, que já havia entrado em trabalho de parto, precisou permanecer no setor destinado ao parto normal por falta de leito. Outra paciente ficou acomodada em uma das sala do centro cirúrgico, além de ter havido diversas interrupções de procedimentos eletivos devido ao surgimento de cirurgias emergenciais naquele mesmo dia.
Diante da situação, a cesariana da paciente dele acabou sendo sucessivamente adiada, o que trouxe risco de vida para a mãe e o bebê além de sofrimento para ambos.
Ainda conforme o relato, a gestante permaneceu em jejum desde a manhã e começou a apresentar sintomas como tontura, mal-estar e dor de cabeça enquanto aguardava o procedimento. Apesar da demora, a cirurgia foi realizada e, segundo ele, mãe e recém-nascido felizmente não precisaram de cuidados intensivos.
Para o obstetra, o episódio evidencia um “estrangulamento” da capacidade de atendimento, provocado pela alta demanda e pela redução de serviços obstétricos na rede credenciada.
Ele voltou a defender que decisões contratuais sejam revistas, citando especialmente a importância da manutenção de serviços como os da Santa Casa e do Hospital Arthur Ramos para absorver a demanda.
Segundo o médico, sem ampliação da estrutura, há risco de agravamento da situação. “Estamos lidando com duas vidas e emergências imprevisíveis”, afirmou no desabafo.
O que diz a Unimed
Procurada pela reportagem, a Unimed Maceió enviou nota esclarecendo que a assistência hospitalar segue critérios técnicos e protocolos de segurança.
A cooperativa afirmou que a paciente mencionada no vídeo estava internada para procedimento eletivo, permaneceu estável e que não havia indicação clínica de risco iminente. Informou ainda que casos emergenciais têm prioridade absoluta, o que teria motivado o adiamento da cirurgia.
A Unimed também declarou que não realizou descredenciamento dos serviços de obstetrícia e UTI neonatal, afirmando que a decisão partiu exclusivamente do prestador.
Confira a nota na íntegra:
A assistência prestada em nosso Hospital segue rigorosamente critérios técnicos e protocolos de segurança, monitorando permanentemente a quantidade de leitos para assegurar capacidade de atendimento e qualidade assistencial aos beneficiários.
A paciente mencionada no vídeo deu entrada na unidade para um atendimento eletivo, quando o procedimento é previamente agendado, sendo internada em apartamento individual e manteve-se estável, sem indicação clínica de risco iminente para ela ou para o bebê.
Em conformidade com os protocolos assistenciais e com os princípios de segurança do paciente, casos com intercorrências emergenciais têm prioridade absoluta. Por essa razão, o procedimento eletivo precisou ser postergado e foi realizado de acordo com a disponibilidade do médico. Após a realização dessas intervenções, a dinâmica do centro obstétrico foi gradualmente restabelecida ao longo da noite.
A Unimed Maceió esclarece, ainda, que não realizou qualquer descredenciamento dos serviços de obstetrícia e UTI neonatal. O descredenciamento partiu exclusivamente do prestador.
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