Como o delegado-geral de Alagoas entrou no esquema de fraude de concursos públicos, segundo a PF
Trecho da investigação revela que exigência para evitar prisão de envolvido marcou entrada de Gustavo Xavier no esquema criminoso
A investigação da Polícia Federal sobre fraudes em concursos públicos ganhou um novo elemento que aprofunda o envolvimento do delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento. Desta vez, o foco recai sobre a forma como ele teria ingressado no esquema criminoso: por meio de uma suposta coação ao chefe da organização investigada.
De acordo com informações reveladas em reportagem do Fantástico exibida na noite deste domingo (22), a delação premiada de Tiago José de Andrade aponta que o delegado utilizou o próprio cargo para forçar a cooperação do grupo.
Segundo o depoimento, em 2021, quando ainda atuava como delegado em Arapiraca, Gustavo Xavier comandou uma operação policial que resultou na expedição de um mandado de prisão contra Tiago. A partir desse momento, conforme a delação, teria ocorrido a virada: o delegado teria condicionado o não cumprimento da ordem judicial à prestação de serviços ilícitos.
Na prática, ainda segundo a Polícia Federal, Tiago teria sido obrigado a passar a operar fraudes em concursos públicos para beneficiar pessoas indicadas por Gustavo Xavier. A exigência incluiria a aprovação direcionada de candidatos ligados ao delegado, utilizando métodos já identificados no esquema, como vazamento de provas e uso de dispositivos eletrônicos durante as avaliações.
A revelação reforça a linha investigativa de que o envolvimento do delegado-geral não se limitava a eventual benefício indireto, mas teria começado a partir de uma imposição direta, caracterizada como uso da função pública para obtenção de vantagem indevida, hipótese que se enquadra no crime de concussão.
Intermediação e execução
As investigações também indicam que as ordens não eram repassadas diretamente. De acordo com a Polícia Federal, o contato com a organização criminosa ocorria por meio de intermediários de confiança.
Esquema estruturado
A organização criminosa investigada atuava em concursos públicos em todo o país, com um modelo sofisticado que incluía acesso antecipado a provas, envio de gabaritos, uso de “candidatos substitutos” e cobrança de valores elevados, que podiam chegar a centenas de milhares de reais.
Com base nas novas revelações, a Polícia Federal aprofunda a apuração sobre a possível utilização da estrutura do Estado para alimentar o esquema, especialmente no que diz respeito à origem das demandas por fraudes.
Investigação em andamento
O delegado-geral foi alvo de mandado de busca e apreensão, e o caso segue sob investigação. Até o momento, não há denúncia formal apresentada pelo Ministério Público.
As defesas dos citados negam irregularidades. A apuração busca agora identificar outros possíveis beneficiários e esclarecer a extensão do uso de cargos públicos para viabilizar o esquema.
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