Justiça

Ex-PM entra em contradição sobre compra de comida no dia do desaparecimento de Davi

Ré foi confrontada por versões divergentes sobre parada para alimentação no dia do desaparecimento

Por Giulianna Albuquerque 04/05/2026 18h06 - Atualizado em 04/05/2026 18h06
Ex-PM entra em contradição sobre compra de comida no dia do desaparecimento de Davi
Julgamento acontece no Fórum do Barro Duro - Foto: Ascom MP/AL

O depoimento da ex-policial militar Nayara Silva de Andrade marcou mais uma etapa do júri popular que apura o desaparecimento do adolescente Davi Silva. Ouvida nesta segunda-feira (4), a ré manteve a versão apresentada anteriormente sobre a rotina da guarnição no dia 25 de agosto de 2014, mas foi questionada pelo Ministério Público sobre inconsistências entre declarações prestadas em momentos diferentes da investigação.

Durante o interrogatório, Nayara afirmou que entre 8h e 9h a equipe estava em deslocamento para a área de atuação. Segundo ela, a viatura utilizada era cinza com detalhes vermelhos. Ao ser questionada sobre as características do veículo e do fardamento, disse não se recordar se a viatura possuía o desenho de um cachorro pitbull, símbolo de algumas equipes da corporação, mas afirmou lembrar que a farda era camuflada em tons de cinza e preto. "Não lembro se tinha ou não tinha o cachorro, lembro que a farda era camuflada, cinza com preto, mais ou menos nesses tons", disse.

Sobre o trajeto feito naquela manhã, a ex-PM relatou que a equipe saiu da base no Jaraguá por volta das 7h30 e seguiu para a região do Benedito Bentes, chegando ao local por volta das 9h. Questionada pelo juiz se houve abordagens na área, respondeu que não sabia precisar, alegando não ter clareza sobre os limites territoriais da região atendida. 

Nayara também reafirmou que a equipe recebeu um chamado do oficial de operações para uma suposta ação da P2, setor de inteligência da Polícia Militar. Segundo ela, antes disso os policiais teriam tentado comprar comida, mas não conseguiu informar onde a refeição foi adquirida. "Tentamos ver se comprávamos comida, compramos, mas não lembro onde foi que pegamos", disse a ex-PM.

Em depoimento anterior, Nayara havia declarado que a compra não ocorreu porque, por ser uma segunda-feira, havia dificuldade para encontrar estabelecimentos abertos naquele horário.

Outro ponto questionado foi a suposta ligação recebida pelo comandante da equipe para retorno à unidade. O promotor destacou que registros apontam que o contato mais próximo com o oficial de operações ocorreu apenas após as 11h, o que diverge da cronologia apresentada pela acusada.

Durante o interrogatório, Nayara também foi perguntada se conhecia uma policial militar identificada como Alexandra Calaça. A pergunta foi feita com base em relato de uma testemunha ligada à família de Davi, segundo a qual a PM teria mencionado que o adolescente havia sido levado para uma base da Rádio Patrulha. 

O depoimento foi marcado ainda por um momento de tensão entre defesa e acusação. O advogado Napoleão acusou a promotora Lidia Malta de postura desrespeitosa durante os questionamentos, sendo repreendido pelo juiz, que determinou o restabelecimento da ordem no plenário. 

Em resposta, a representante do Ministério Público afirmou que seu foco era esclarecer as contradições nos depoimentos dos réus. "Eu pisei no calo da defesa, disse que ia mostrar o depoimento contraditório da ré, e os senhores decidiram intervir. Não estou preocupada com o que os senhores pensam de mim, mas com os depoimentos contraditórios dos seus clientes", disse.

Ao fim da sessão, o juiz decidiu suspender os trabalhos e adiar o início dos debates entre acusação e defesa para a manhã desta terça-feira (5), às 8h.

Júri popular


O julgamento, iniciado nesta segunda-feira (4), deve seguir até terça-feira (5). Familiares de Davi acompanham a sessão e cobram respostas sobre o paradeiro do adolescente, desaparecido há quase 12 anos.

Davi tinha 17 anos quando desapareceu, em 25 de agosto de 2014, após ser abordado por uma equipe do Batalhão de Rádio Patrulha no conjunto Cidade Sorriso I. Desde então, o corpo do jovem nunca foi localizado.

Quatro ex-integrantes da Polícia Militar respondem ao processo: Nayara Silva de Andrade, Victor Rafael Martins da Silva, Eudecir Gomes de Lima e Carlos Eduardo Ferreira dos Santos. Eles são acusados de tortura, sequestro, cárcere privado, homicídio qualificado e ocultação de cadáver.