Casa própria: como construtoras fraudaram famílias com dinheiro da Caixa
Casais que economizaram a vida inteira para construir a casa dos sonhos descobriram que a obra estava parada e o dinheiro do financiamento, sumido
Um sonho antigo que virou pesadelo. Casais em diferentes regiões do país denunciam um esquema de fraude envolvendo construtoras e financiamentos imobiliários da Caixa Econômica Federal. Mesmo após anos de pagamento e liberação de grandes valores pelo banco, as obras das casas continuam inacabadas, ou sequer avançaram como relatado na reportagem exibida pelo Fantástico.
Em um dos casos, o casal Isael e Marcela contratou financiamento de cerca de R$ 400 mil a R$ 500 mil para construir a casa própria. Três anos depois do início das obras, o terreno permanece com sinais de abandono. “Era para ser o lugar onde nossa filha ia crescer”, lamenta Marcela. A família vive de aluguel enquanto a construção permanece parada.
Segundo o modelo do financiamento, a Caixa libera o dinheiro em parcelas conforme o avanço da obra atestado por laudos técnicos. No caso do casal, esses relatórios indicavam que mais de 80% da casa estava pronta. Mas a realidade era bem diferente. Uma perícia apontou falsificação nas assinaturas de Marcela e concluiu que menos da metade da obra havia sido concluída.
Após suspeitar da fraude, o casal interrompeu o pagamento das parcelas. Como consequência, recebeu a informação de que o imóvel pode ir a leilão para quitar a dívida.
Esquema se repete em outros estados
O mesmo tipo de irregularidade aparece em outras histórias. Em 2022, Guilherme e Bruna financiaram R$ 290 mil para construir a casa em Alvorada (RS). O responsável pela obra, que também se apresentava como funcionário da Caixa, orientava o casal durante o processo.
Apesar de a construtora ter recebido mais de R$ 200 mil do financiamento, a obra foi abandonada poucos meses depois. Nos relatórios enviados ao banco, itens como cobertura, instalações elétricas e hidráulicas apareciam como praticamente concluídos — mas, na prática, nem sequer haviam sido iniciados.
O caso foi denunciado, e o homem ligado à construtora foi demitido da Caixa por justa causa, mas ainda não há condenação na Justiça.
Famílias acumulam dívidas e prejuízos
Além do impacto emocional, as vítimas relatam prejuízos financeiros significativos. Guilherme, por exemplo, contraiu uma dívida superior a R$ 200 mil com o banco e ainda pagou R$ 62 mil diretamente à construtora. “A gente só queria uma casa para morar”, diz.
Já em Pernambuco, outro casal enfrentou situação semelhante. A construtora responsável foi denunciada por cobrar valores acima do executado na obra e se apropriar da diferença. O dono da empresa foi condenado por estelionato; o prejuízo ultrapassou R$ 126 mil.
Clientes relatam falta de fiscalização
Em geral, os contratos desse tipo colocam o cliente como responsável por administrar os pagamentos da obra. Para o banco, em geral, se houver fraude, trata-se de uma questão entre cliente e construtora. A Caixa também informou que apura eventuais irregularidades cometidas por funcionários.
Ainda assim, especialistas apontam que inconsistências nos laudos, como assinaturas falsas ou percentuais irreais de avanço, poderiam ter sido identificadas previamente.
Persistência para concluir o sonho
Mesmo após as fraudes, alguns casais conseguiram finalizar as casas com esforço próprio e ajuda de familiares. É o caso de Renata e Michel, que investiram mais de R$ 386 mil antes de perceber irregularidades. A construção só foi concluída após novos empréstimos e apoio da família.
“É a casa dos sonhos, a gente não quis desistir”, afirma o casal, que ainda enfrenta dificuldades financeiras, mas conseguiu seguir com o projeto.
Outros lados
Em nota, a construtora Âmbar Prumo afirma que todas as obras foram conduzidas dentro das normas da Caixa e que eventuais acusações serão respondidas na Justiça.
Já o ex-funcionário da Caixa e que respondia pela construtora Vitro Viana, Pedro André Marchesi Cecegolo, recorre na Justiça do Trabalho contra a demissão e nega ter causado qualquer prejuízo financeiro à Caixa.
O dono da Multicons, condenado por estelionato, diz que os valores recebidos foram integralmente aplicados na obra e recorre da decisão.
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