'Gabinetes do Ódio' e robôs digitais já atuam nas eleições 2026 tentando influenciar a opinião pública

Por 7Segundos |

À medida que a campanha eleitoral de 2026 esquenta no Brasil e no mundo, pesquisadores e especialistas em comunicação alertam que uma prática considerada razoavelmente antiga, o uso de robôs e contas automatizadas nas redes sociais, continua sendo uma ferramenta relevante, ainda que menos sofisticada do que as projeções mais avançadas de IA.

Esses “bots” são programas que simulam atividade humana em plataformas como Twitter, Instagram e Facebook para amplificar mensagens, influenciar debates ou inundar seções de comentários com recados coordenados.

Estudos acadêmicos já mostraram que bots podem representar uma porção significativa da atividade política online e que sua presença tende a crescer em períodos eleitorais, mesmo quando plataformas tentam contê-los.

Pesquisadores de ciência política e comunicação definem os bots como ferramentas que automatizam tarefas repetitivas, imitando usuários humanos para espalhar informação, ou desinformação, e moldar percepções públicas. Embora muitas dessas contas sejam simples e facilmente detectáveis, sua utilização deliberada para empurrar narrativas ou criar “ruído digital” ainda representa um desafio para a integridade dos debates eleitorais.

Como bots atuam no jogo político

Os chamados gabinetes do ódio, ambientes online onde conteúdos agressivos, polarizadores e coordenados são produzidos, muitas vezes utilizam bots para disseminar mensagens em massa. Essa técnica consiste em programar perfis automatizados que interagem com publicações de políticos ou instituições públicas, inundando as redes com respostas negativas ou positivas em grande volume e em curtos espaços de tempo.

Pesquisas mostram que bots podem desempenhar papéis em diferentes campanhas eleitorais internacionais: desde amplificar mensagens partidárias e direcionar debates de agenda até descreditar oponentes políticos e fomentar temas polarizadores. Em algumas eleições, como nos Estados Unidos, análises indicaram que centenas de milhares de bots impulsionaram milhões de posts relacionados à votação de 2016.

Perigo à democracia ou barulho inócuo?

Especialistas destacam que, embora bots possam não ser capazes de “vencer” uma eleição sozinhos, eles podem distorcer o discurso público e criar uma falsa sensação de consenso ou rejeição em torno de determinados temas ou candidatos. Estudos também apontam que notícias de baixa credibilidade são frequentemente amplificadas por bots antes mesmo que humanos as “viralizem”, indicando um papel significativo na difusão de desinformação.

“A disseminação de notícias falsas por meio de bots, agora humanizados por rostos falsos e deepfakes, pode influenciar e/ou modificar o resultado do pleito eleitoral por meio da manipulação da opinião pública", explica Jefferson Aparecido Dias, procurador da república.

Estudos e opinião de especialistas

  • Bots como instrumentos de astroturfing: pesquisas explicam que bots não se limitam a postar conteúdo, mas podem criar a ilusão de opinião pública artificial (astroturfing), moldando debates e polarizações ao redor das eleições.

    Modelos de influência indireta: estudos mostram que bots influenciam usuários não apenas por interações diretas, mas via algoritmos de recomendação que amplificam mensagens polarizadoras.

  • Perigo global crescente: um consórcio internacional de pesquisadores, incluindo vencedores do Nobel, em artigo recente publicado na revista Science, alertou que sistemas de bots IA podem mimetizar humanos, coordenar campanhas e influenciar narrativas eleitorais em larga escala, ameaçando processos democráticos.

    Chatbots persuasivos: pesquisas recentes sugerem que chatbots de IA podem convencer alguns eleitores a revisar suas opiniões políticas, superando o impacto de muitos anúncios tradicionais.

No interior de Alagoas, a Prefeitura de Arapiraca e o deputado federal Daniel Barbosa, que é filho do prefeito da maior cidade do interior de Alagoas, foram alvo de uma enxurrada de comentários negativos automatizados em suas redes sociais. Perfis com pouca atividade real e localizações artificiais postaram uma série de respostas repetitivas que chamaram atenção de especialistas em comunicação, levantando a hipótese de uma ação coordenada para influenciar percepções públicas, um exemplo local de como mesmo técnicas consideradas “ultrapassadas” continuam empregadas.

Apesar da tentativa, houve uma falta de conhecimento, ou experiência, por parte do 'investidor' do mecanismo. Em meio a enxurrada de comentários negativos, existiam alguns dando protagonismo a dois outros políticos locais, revalando a farsa por trás da tática.

Casos Internacionais Relevantes

Em outros países, exemplos mais sofisticados mostram o uso de contas falsas para moldar a opinião pública em eleições ou eventos políticos. Na Filipinas, um terço das contas envolvidas em debates sobre eleições foi identificado como falso, permanecendo ativo em debates e engajando diretamente usuários reais.

Ainda que organizações eleitorais e plataformas como WhatsApp e Twitter tenham firmado acordos com o Tribunal Superior Eleitoral no Brasil para combater desinformação e robôs nas eleições anteriores, o avanço das tecnologias de IA e a persistência de contas automatizadas continuam sendo um problema relevante.

O uso de robôs nas redes sociais, seja para apoiar, seja para atacar políticos, segue sendo uma realidade nas eleições contemporâneas. Embora ferramentas automatizadas mais avançadas de IA prometam uma nova fronteira nessa disputa digital, até mesmo técnicas consideradas humildes, como bots simples, ainda são capazes de perturbar debates e criar ruído político legítimo.

O combate eficaz requer alfabetização digital, detecção tecnológica, políticas públicas transparentes e cooperação entre plataformas e órgãos eleitorais para preservar a integridade das decisões eleitorais no ambiente digital.