EM ALAGOAS, DESAFIO JÁ CHEGOU AO MERCADO DE TRABALHO
Quando a inteligência artificial generativa deixou de ser um recurso restrito às grandes empresas de tecnologia e passou a fazer parte da rotina de milhões de pessoas, uma nova pergunta ganhou força no mercado de trabalho: afinal, a IA vai substituir profissionais ou transformar a maneira como eles trabalham?
A dúvida não é apenas teórica. Ela já influencia decisões de carreira, provoca mudanças dentro das empresas e desperta preocupação entre trabalhadores de diferentes setores da economia. Uma pesquisa do Observatório Febraban, realizada em parceria com o IPESPE, mostra que 50% da população do Nordeste acredita que a inteligência artificial representa uma ameaça ao emprego e às oportunidades profissionais. O índice coloca a região entre as mais preocupadas do país, atrás apenas do Sudeste (55%) e ligeiramente acima do Norte (51%).
Os dados refletem um momento de transição. Embora 90% dos nordestinos afirmem já ter ouvido falar sobre inteligência artificial e mais da metade (52%) diga utilizar alguma ferramenta baseada nessa tecnologia, o avanço acelerado dos chamados modelos generativos também desperta insegurança. Entre aqueles que ainda não utilizam esses recursos, o principal motivo é o receio de receber informações falsas ou cometer erros, seguido das preocupações com privacidade e uso de dados.

Febrabam Tech 2025 debateu o protagonismo da 'IA Generativa'
Ao mesmo tempo em que parte da população teme perder espaço para algoritmos capazes de produzir textos, imagens, códigos e análises em poucos segundos, outra parcela enxerga oportunidades. Segundo o levantamento, 31% dos entrevistados acreditam que a IA trará mais benefícios do que riscos ao mercado de trabalho, enquanto 28% avaliam que oportunidades e desafios caminharão lado a lado.
Em Alagoas, embora ainda não existam pesquisas específicas sobre os impactos da tecnologia na economia estadual, universidades, empresas e instituições de apoio ao empreendedorismo já observam mudanças significativas na forma como profissionais e negócios utilizam ferramentas de inteligência artificial. O fenômeno atinge desde pequenos empreendedores até grandes grupos industriais, passando por escritórios, hotéis, restaurantes, produtoras de conteúdo e órgãos públicos.
Para especialistas, a discussão já não é mais sobre se a IA transformará o mercado, mas como trabalhadores e empresas conseguirão acompanhar essa mudança.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS ESTÁ ATENTA ÀS MUDANÇAS
A coordenadora do recém-criado curso de Bacharelado em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Cristina Tenório, afirma que o receio da população possui fundamento, mas precisa ser analisado dentro de um contexto histórico de evolução tecnológica.
Segundo ela, a humanidade sempre buscou automatizar tarefas repetitivas, desde as ferramentas rudimentares utilizadas na Pré-História até as revoluções industriais e a popularização da internet. A inteligência artificial representa apenas uma nova etapa desse processo, com uma diferença importante: pela primeira vez, a automação alcança atividades cognitivas antes consideradas exclusivamente humanas.
"A inteligência artificial não automatiza apenas o esforço físico. Ela também executa tarefas como resumir textos, organizar informações, reconhecer padrões, escrever códigos e produzir imagens", explica.
Na avaliação da pesquisadora, profissões cuja rotina é composta principalmente por atividades padronizadas tendem a sofrer os maiores impactos nos próximos anos. Funções como atendentes, digitadores, auxiliares administrativos, caixas, profissionais da contabilidade, tradutores, designers e programadores iniciantes já convivem com ferramentas capazes de realizar parte significativa dessas tarefas.

Professora Cristina Tenório é coordenadora do curso de IA da Ufal
Apesar disso, Cristina ressalta que os casos de substituição completa de trabalhadores ainda são raros. O cenário mais comum é o da transformação das funções, exigindo profissionais capazes de supervisionar, validar e complementar aquilo que a inteligência artificial produz.
Outro fator considerado decisivo é o chamado letramento digital. Para ela, grande parte do medo em relação à IA está relacionada à dificuldade de compreender como essas tecnologias funcionam e quais são seus limites. Trabalhadores com menor acesso à qualificação tendem a enfrentar maiores dificuldades de adaptação.
"O desafio não é competir contra a inteligência artificial, mas aprender a utilizá-la como ferramenta de produtividade. Quem desenvolver senso crítico, capacidade de avaliar resultados e domínio dessas plataformas terá melhores condições de permanecer competitivo", afirma.
A especialista lembra ainda que ferramentas de IA estão sujeitas a falhas, podem produzir informações incorretas e reproduzir vieses. Por isso, a supervisão humana continua sendo indispensável em atividades que envolvem decisões relevantes, análise técnica e responsabilidade profissional.
Ela destaca que, justamente para preparar profissionais para essa nova realidade, a Ufal iniciou neste mês as atividades do Bacharelado em Inteligência Artificial, curso voltado não apenas ao uso das ferramentas já existentes, mas também ao desenvolvimento de novas soluções tecnológicas. Além da graduação, a universidade mantém projetos de pesquisa e extensão voltados ao letramento digital e à formação da população para o uso consciente dessas tecnologias.
-
"Perdi clientes para a IA", diz revisor alagoano
Durante quase dez anos, o revisor de textos acadêmicos Eduardo Albuquerque construiu uma clientela formada por universitários, pesquisadores e estudantes de pós-graduação. O trabalho consistia em revisar ortografia, gramática, normas da ABNT e melhorar a clareza dos textos antes da entrega de artigos, monografias e dissertações.
Nos últimos dois anos, porém, a procura diminuiu de forma perceptível.
"Antes eu recebia pedidos praticamente todos os dias. Hoje, muitos clientes dizem que primeiro passaram o texto por uma inteligência artificial e só procuram um revisor quando o orientador identifica problemas", relata.
Segundo ele, parte dos estudantes passou a acreditar que ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude conseguem substituir completamente a revisão humana.
"A IA ajuda muito. Ela corrige erros, reorganiza frases e melhora a escrita. O problema é que muita gente acha que ela nunca erra. Já recebi trabalhos cheios de referências inventadas, conceitos alterados e até citações que simplesmente não existiam."
Para continuar competitivo, Eduardo precisou mudar o próprio modelo de negócio. Em vez de oferecer apenas revisão textual, passou a vender um serviço mais amplo de análise crítica, verificação de referências bibliográficas, conferência de normas técnicas e avaliação da consistência científica do conteúdo.
A estratégia aumentou o valor agregado do serviço e permitiu recuperar parte da clientela, embora em um volume menor que o observado antes da popularização da inteligência artificial.
Especialistas afirmam que esse movimento deve se repetir em diversas profissões. Em vez de eliminar totalmente determinadas ocupações, a IA tende a reduzir a demanda por atividades mais mecânicas e ampliar a necessidade de profissionais capazes de interpretar, validar e aperfeiçoar aquilo que as máquinas produzem.
Foi exatamente esse fenômeno que levou a pesquisa da Febraban a identificar um sentimento dividido entre esperança e preocupação. Enquanto muitos enxergam ganhos de produtividade, outros percebem que determinadas tarefas já começam a perder valor econômico.
-
Empresas adotam IA para ganho em produtividade
Se para parte dos trabalhadores a inteligência artificial desperta receios, entre os pequenos empresários ela aparece cada vez mais como uma oportunidade de crescimento.
A analista do Sebrae Alagoas, Lyana Munt, afirma que o interesse dos empreendedores pelo tema aumentou significativamente nos últimos anos, refletindo uma tendência observada em todo o país.
Embora ainda não existam estatísticas específicas para Alagoas, ela explica que cresce a procura por consultorias e capacitações voltadas ao uso da inteligência artificial nos negócios.
Estudos nacionais do Sebrae mostram que 44% dos pequenos empreendedores brasileiros já utilizaram alguma ferramenta de IA. Nas microempresas, os principais usos estão ligados à produção de conteúdo para redes sociais, criação de campanhas de marketing, atendimento ao cliente, apoio às vendas e organização da rotina administrativa.
À medida que as empresas amadurecem digitalmente, a tecnologia passa a desempenhar funções mais estratégicas, como análise de dados, apoio à tomada de decisões e aumento da produtividade.
Para Lyana, a maior barreira ainda não é a resistência à tecnologia, mas a falta de conhecimento sobre como aplicá-la corretamente.
"Muitos empresários conhecem as ferramentas, mas ainda não sabem como transformá-las em resultados concretos para seus negócios", explica.
Ela alerta que a inteligência artificial não deve ser adotada apenas porque está em evidência. O ideal é identificar um problema específico da empresa, testar soluções em pequena escala e acompanhar os resultados antes de ampliar o uso da tecnologia.
Outro cuidado envolve a proteção de dados. Informações estratégicas, documentos internos e dados pessoais de clientes não devem ser inseridos indiscriminadamente em plataformas de IA sem que o empreendedor conheça as políticas de privacidade e as exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Para o Sebrae, o maior diferencial competitivo continuará sendo o fator humano. Empresas que conseguirem combinar criatividade, conhecimento técnico e inteligência artificial tendem a obter ganhos de produtividade sem abrir mão da qualidade das decisões.

Lyana Munt é analista do Sebrae Alagoas
TURISMO, AGROINDÚSTRIA E SERVIÇOS JÁ VIVEM A TRANSFORMAÇÃO DIGITAL
Embora os impactos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho alagoano ainda não tenham sido medidos por pesquisas específicas, especialistas afirmam que alguns dos principais setores da economia estadual já incorporam soluções baseadas nessa tecnologia em diferentes etapas de suas atividades.
No turismo, uma das principais matrizes econômicas de Alagoas, a IA passou a integrar processos que vão desde a captação de clientes até a experiência do visitante. Plataformas de hospedagem utilizam algoritmos para ajustar preços em tempo real, prever taxas de ocupação e recomendar destinos de acordo com o perfil de cada turista. No cotidiano dos empreendedores locais, ferramentas de inteligência artificial também auxiliam na criação de campanhas publicitárias, elaboração de roteiros turísticos, tradução automática de conteúdos e atendimento em múltiplos idiomas.
Guias de turismo, hotéis, pousadas, bares e restaurantes passaram a utilizar assistentes baseados em modelos de linguagem para agilizar tarefas administrativas e melhorar o relacionamento com os clientes. A tecnologia, porém, ainda atua como ferramenta de apoio, mantendo a tomada de decisões e o atendimento personalizado sob responsabilidade dos profissionais.
Outro segmento que vem acelerando sua modernização é a agroindústria sucroenergética. Segundo Cristina Tenório, pesquisas desenvolvidas por estudantes da Universidade Federal de Alagoas identificaram o uso de automação, sensoriamento remoto e inteligência artificial em usinas instaladas no estado para monitorar lavouras, identificar falhas no cultivo, planejar colheitas e ampliar a produtividade.
No cenário nacional, sistemas de visão computacional também vêm sendo testados para analisar imagens da cana-de-açúcar e identificar características capazes de melhorar a qualidade da matéria-prima utilizada na fabricação de açúcar e etanol. A expectativa é de que soluções semelhantes se tornem cada vez mais comuns na agroindústria alagoana ao longo dos próximos anos.
A tendência, segundo especialistas, é que praticamente todos os setores econômicos convivam com algum nível de automação inteligente. Em vez de substituir completamente trabalhadores, a tecnologia deverá assumir tarefas repetitivas, permitindo que profissionais concentrem esforços em atividades estratégicas, criativas e que exigem julgamento humano.
O PROFISSIONAL DO FUTURO PRECISARÁ APRENDER CONTINUAMENTE
Se há consenso entre pesquisadores e representantes do setor produtivo, ele está na necessidade de qualificação permanente.
Para Cristina Tenório, a competência mais importante para os trabalhadores da próxima década será o chamado letramento digital em inteligência artificial. Isso significa compreender como essas ferramentas funcionam, elaborar comandos eficientes, escolher a solução adequada para cada atividade e, principalmente, analisar criticamente os resultados produzidos pelos algoritmos.
A pesquisadora ressalta que nenhuma resposta gerada por inteligência artificial deve ser aceita automaticamente. Informações incorretas, interpretações equivocadas e até conteúdos completamente inventados, conhecidos como "alucinações", continuam fazendo parte das limitações desses sistemas. Por isso, a supervisão humana permanece indispensável em qualquer atividade profissional.

A mesma percepção é compartilhada pelo Sebrae. Para a instituição, o aprendizado deve começar pela identificação de problemas concretos dentro das empresas. Em vez de buscar a tecnologia por modismo, empreendedores devem compreender quais processos podem ser aprimorados e testar soluções gradualmente, sempre avaliando ganhos de produtividade, qualidade e segurança.
Outro ponto considerado essencial é a proteção de dados. Informações sigilosas, estratégias empresariais e dados de clientes exigem cuidados especiais antes de serem compartilhados em plataformas de inteligência artificial, respeitando a legislação e as boas práticas de governança digital.
A pesquisa da Febraban mostra que a sociedade brasileira ainda está dividida entre o entusiasmo e a preocupação diante da nova tecnologia. No entanto, especialistas ouvidos pelo Portal 7Segundos concordam em um aspecto: a inteligência artificial dificilmente eliminará o trabalho humano, mas transformará profundamente as competências exigidas pelo mercado.
Para trabalhadores, empresários e estudantes alagoanos, a principal escolha já não será entre usar ou não usar inteligência artificial. A diferença competitiva estará na capacidade de utilizá-la de forma ética, crítica e estratégica, transformando uma ferramenta de automação em um instrumento de inovação e geração de oportunidades.

