ESTADO REGISTROU 5.923 NOTIFICAÇÕES EM 2025, ALTA DE 32,5% EM RELAÇÃO AO ANO ANTERIOR; ENTRE JANEIRO E JULHO DE 2026, CASOS ADQUIRIDOS CAÍRAM 34,6%
A sífilis continua sendo um dos principais desafios de saúde pública relacionados às infecções sexualmente transmissíveis em Alagoas. Dados oficiais da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), obtidos por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), apontam que o Estado registrou 5.923 casos de sífilis em 2025, contra 4.471 notificações em 2024. O crescimento foi de aproximadamente 32,5% em apenas um ano.
A elevação ocorreu nas três categorias acompanhadas pela vigilância epidemiológica. Os registros de sífilis adquirida passaram de 2.926, em 2024, para 3.989 em 2025, aumento de 36,3%. Entre gestantes, as notificações subiram de 1.159 para 1.517, enquanto os casos de sífilis congênita passaram de 386 para 417.
Para a coordenadora do Programa Estadual de IST/AIDS e Hepatites Virais da Sesau, enfermeira Hillary Gabrielle, os números não podem ser interpretados de maneira isolada como prova de que a transmissão aumentou na mesma proporção. A ampliação da capacidade de diagnóstico também interfere diretamente nas estatísticas.
“O aumento das notificações de sífilis em Alagoas não deve ser interpretado automaticamente como aumento proporcional da transmissão. Parte desse crescimento pode, sim, estar relacionada à ampliação da testagem, especialmente à descentralização dos testes rápidos na Atenção Primária, e ao aprimoramento da vigilância epidemiológica”, explicou.
Segundo ela, entretanto, a maior detecção não elimina a preocupação com a circulação da bactéria. “A persistência de taxas elevadas, a ocorrência de casos em diferentes segmentos da população e, sobretudo, a manutenção da sífilis gestacional e congênita demonstram que existe transmissão ativa e sustentada”, afirmou.
DIAGNÓSTICO MAIOR NÃO EXPLICA SOZINHO CRESCIMENTO
A sífilis é uma infecção bacteriana sistêmica, crônica e curável, causada pela bactéria Treponema pallidum. A transmissão ocorre principalmente por contato sexual e também pode acontecer da gestante para o feto durante a gravidez, especialmente quando a infecção não é tratada ou quando o tratamento é realizado de forma inadequada.
A doença pode permanecer sem sintomas em determinados períodos e, sem tratamento, evoluir para estágios capazes de comprometer diferentes órgãos e sistemas do organismo. Por isso, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para interromper a cadeia de transmissão e evitar complicações.
Em Alagoas, a Sesau considera que o crescimento das notificações é resultado de uma combinação de fatores. De um lado, houve ampliação da oferta de testes rápidos, descentralização do diagnóstico e fortalecimento da vigilância. De outro, a permanência de casos em diferentes grupos demonstra que a transmissão continua ocorrendo.
A própria análise epidemiológica exige cautela na comparação de números absolutos. Para acompanhar a evolução da doença ao longo dos anos, a taxa de detecção é considerada mais adequada porque leva em conta a população de referência. Já o número absoluto permite dimensionar a quantidade de pessoas diagnosticadas e a demanda que chega aos serviços de saúde.
“Embora o número absoluto de casos seja fundamental para dimensionar a magnitude do problema e o volume de casos sob responsabilidade dos serviços de saúde, a taxa de detecção da sífilis é o indicador mais apropriado para avaliar a evolução da ocorrência de um agravo ao longo do tempo e realizar comparações entre diferentes municípios”, destacou Hillary Gabrielle.
Para a coordenadora, os dois indicadores devem ser analisados conjuntamente. “Para análise da tendência e da evolução epidemiológica, a taxa de detecção apresenta maior relevância; para dimensionar a magnitude absoluta da demanda assistencial e a carga do agravo, o número absoluto de casos é indispensável”, completou.
DOIS RETRATOS DA SÍFILIS EM ALAGOAS
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GESTAÇÃO AINDA É PONTO CRÍTICO
Um dos aspectos que mais chama atenção nos dados é a permanência da sífilis entre gestantes e recém-nascidos. Em 2025, foram 1.517 notificações de sífilis em gestantes, contra 1.159 no ano anterior. Já a sífilis congênita passou de 386 para 417 casos no mesmo período.
O problema ganha relevância porque a transmissão vertical pode ser evitada quando a gestante é diagnosticada e tratada de maneira adequada e em tempo oportuno. A manutenção dos casos indica que ainda existem obstáculos entre a identificação da infecção e a conclusão adequada do cuidado.
De acordo com Hillary Gabrielle, fatores como início tardio do pré-natal, ausência de acompanhamento, testagem inadequada, diagnóstico tardio, dificuldades de acesso e falta de continuidade da assistência podem contribuir para a permanência dos casos.
Mesmo mulheres que realizam o pré-natal podem adquirir a infecção durante a gestação ou ser reinfectadas. Por isso, a abordagem das parcerias sexuais e a realização de testes ao longo do acompanhamento são medidas fundamentais.
“Quando o tratamento não é realizado adequadamente ou ocorre nova exposição à parceria infectada, pode haver risco de reinfecção, mantendo a possibilidade de transmissão vertical”, alertou a coordenadora.
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JOVENS ADULTOS CONCENTRAM NOTIFICAÇÕES
A distribuição dos casos também revela maior concentração da sífilis adquirida entre adultos jovens, especialmente na faixa de 20 a 29 anos, seguida, em muitos cenários, pela população de 30 a 39 anos.
A Sesau relaciona esse perfil a uma combinação de fatores, entre eles exposição sexual, uso irregular de preservativos, novas ou múltiplas parcerias, baixa percepção de risco e procura tardia pelos serviços de saúde. Os registros também costumam apresentar maior concentração de casos entre homens.
Hillary, porém, ressalta que os números não devem ser utilizados para estigmatizar grupos específicos. Segundo ela, a ocorrência da sífilis é determinada por uma combinação de fatores sociais, comportamentais e relacionados ao acesso aos serviços de saúde.
“Esses fatores não devem ser utilizados de forma isolada para caracterizar ou estigmatizar indivíduos ou grupos, pois a ocorrência da sífilis é influenciada por múltiplos determinantes sociais, comportamentais e relacionados ao acesso aos serviços de saúde”, afirmou.
A prevenção, portanto, continua dependendo de uma combinação de estratégias, como preservativos, testagem regular, diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento das parcerias sexuais.
2026 APRESENTA SINAL DE QUEDA, MAS CENÁRIO AINDA EXIGE CAUTELA
Os primeiros dados de 2026 trazem um cenário diferente daquele observado na comparação entre 2024 e 2025. Segundo a Sesau, entre janeiro e julho de 2025 foram registrados 2.463 casos de sífilis adquirida, enquanto, no mesmo período de 2026, foram contabilizadas 1.610 notificações.
A diferença representa uma redução de aproximadamente 34,6%. O dado, no entanto, ainda não permite afirmar que o Estado esteja diante de uma tendência consolidada de queda, já que os registros de 2026 são parciais e podem sofrer alterações à medida que novas notificações são inseridas, investigadas e encerradas.
A coordenadora estadual destaca justamente essa cautela na interpretação. “Em relação a 2026, é necessário destacar que, neste momento, os dados disponíveis ainda são parciais e estão sujeitos a atualização, considerando o processo de alimentação, investigação, encerramento e consolidação das notificações no Sistema de Informação de Agravos de Notificação”, explicou.
O recuo observado nos primeiros sete meses do ano deverá ser acompanhado nos próximos meses para verificar se representa uma mudança efetiva na tendência ou apenas uma oscilação temporária das notificações.

PrEP não elimina risco de sífilis
Outro ponto que entra no debate sobre o comportamento da epidemia é a utilização da profilaxia pré-exposição (PrEP), estratégia altamente eficaz para prevenir a infecção pelo HIV. A PrEP, entretanto, não protege contra a sífilis nem contra outras infecções sexualmente transmissíveis.
Segundo Hillary Gabrielle, não é possível atribuir à PrEP o crescimento das notificações de sífilis em Alagoas. A relação, quando discutida, envolve a chamada compensação de risco — situação em que uma pessoa pode reduzir o uso do preservativo por se sentir protegida contra o HIV.
“Não é adequado afirmar que a PrEP, isoladamente, seja responsável pelo aumento dos casos de sífilis. O aumento das notificações é um fenômeno multifatorial”, afirmou.
Ao mesmo tempo, existe uma particularidade importante: usuários da PrEP realizam acompanhamento regular e passam por testagens periódicas para diferentes ISTs. Isso significa que uma maior quantidade de diagnósticos nesse grupo também pode estar relacionada à maior oportunidade de identificação da doença.
A orientação da Sesau é que a PrEP seja compreendida como parte da chamada prevenção combinada, e não como substituta do preservativo: “Embora estejam protegidos contra o HIV, [os usuários] continuam suscetíveis a outras ISTs, sendo indispensável manter a testagem regular e adotar medidas complementares de prevenção, especialmente o uso de preservativos”.
Os dados mais recentes deixam, portanto, um quadro que exige acompanhamento: Alagoas teve forte crescimento das notificações entre 2024 e 2025, mas apresentou queda nos registros de sífilis adquirida no recorte de janeiro a julho de 2026. A consolidação dessa tendência dependerá dos próximos meses e da análise conjunta das notificações, das taxas de detecção, da testagem e dos indicadores relacionados à sífilis em gestantes e à transmissão congênita.

