Professor Abel
Quando a torcida fala mais alto que a lei, a democracia perde.
À medida que as eleições de 2026 se aproximam, cresce a dificuldade de separar paixão política do respeito às regras do jogo. Transformar toda punição eleitoral em “perseguição” pode enfraquecer as instituições e comprometer o debate democrático.
Não tem jeito: o clima de torcida já tomou conta do país inteiro, e as eleições de 2026 vão marcar, mais uma vez, um cenário que vai muito além da disputa racional pelo voto do eleitor. As paixões partidárias seguem a mil pelos quatro cantos do país. Alagoas não é exceção. Por aqui, a euforia toma conta dos apoiadores dos pré-candidatos, e fica cada vez mais difícil discutir ideias, propostas e, principalmente, as práticas adotadas por eles.
Virou moda: quando a Justiça Eleitoral entra em campo para advertir ou punir determinada prática em desacordo com a lei, os apoiadores mais fervorosos logo gritam: “É perseguição!”, “O lado de lá está com medo!”, “Bateu o desespero!”. Será mesmo? Curioso é perceber que, quando é o outro lado fazendo exatamente a mesma coisa, o julgamento muda completamente. O que antes parecia certo agora passa a ser errado, e o que era considerado errado, de repente, parece certo. Tudo depende de quem pratica o ato. Aí fica difícil, não é?
É fundamental lembrar que a legislação eleitoral prevê, de forma explícita, o que pode e o que não pode ser feito tanto no período de pré-campanha quanto durante a campanha. E, claro, os candidatos e suas assessorias sabem disso. Mas por que, ainda assim, muitas equipes insistem em cometer irregularidades, mesmo sabendo que poderão ser punidas?
Aposto em duas estratégias.
A primeira é a velha lógica do “a gente faz e depois vê no que dá”. É a ideia de que “quem chegou primeiro, levou” ou de que é mais fácil pedir desculpas do que pedir permissão. Muitos acreditam que ninguém vai dar importância ou que, se houver reclamação, basta desfazer o ato.
A segunda é mais complexa e até perigosa para o processo eleitoral e para a democracia: a famosa tese da perseguição política. Aqui mora um grande risco. Comete-se a irregularidade, espera-se a punição e, a partir daí, constrói-se a narrativa de que “só fazem isso porque somos nós”, “se fosse o outro lado, ninguém falava”, “estamos incomodando”, “estão tentando nos calar”, “não querem que você veja”. É um roteiro tão repetido que chega a causar certo constrangimento.
A mensagem transmitida por esse discurso é perigosa. A grande massa passa a acreditar que sua paixão política deve ser compartilhada pelas instituições do Estado, que tudo é permitido desde que beneficie quem ela apoia. Enquanto isso, as instituições vão se enfraquecendo e o coração passa a falar mais alto do que a razão.
Justiça não pode ser torcida. Leis não podem ser relativizadas por conveniência. O meu candidato não é um “alecrim dourado” que todos querem perseguir. Às vezes, o que falta é apenas uma boa dose de bom senso para perceber isso.
Sobre o blog
Thiago Abel, mas podem me chamar apenas de Abel. Professor, e inquieto por natureza. O objetivo do blog é observar o que de fato importa no cotidiano do povo arapiraquense e tudo que influencie em nossas terras.
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