Empreendedorismo
A jornada de Ybotyra Kixelô, do povo Kixelô Kariri, mostra como as redes sociais se tornaram ferramenta de retomada cultural, negócio e representatividade
Por Willian Nelson
O Brasil vive, nos últimos anos, uma transformação silenciosa e ao mesmo tempo estrondosa na forma como pequenos negócios nascem e crescem. As redes sociais, que até pouco tempo atrás eram vistas apenas como espaço de entretenimento, se consolidaram como uma verdadeira plataforma de negócios, capaz de gerar renda, construir marcas e, mais do que isso, dar voz a grupos historicamente invisibilizados. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube deixaram de ser apenas vitrines e passaram a funcionar como ecossistemas completos de empreendedorismo, onde criadores de conteúdo constroem comunidades, monetizam seu trabalho e, muitas vezes, transformam sua própria história em produto, serviço e propósito. Nesse cenário, cresce um perfil de empreendedor que une comunicação, tecnologia e identidade: pessoas que não vendem apenas um produto, mas uma narrativa, uma cultura, uma causa. É dentro desse movimento que desponta a trajetória de Ybotyra Kixelô, jovem de 25 anos, publicitária, influenciadora indigenista, fundadora e diretora criativa do Jenipapo Studio e coordenadora do coletivo Raiz Retorna. Formada em Publicidade e Propaganda, Ybotyra sempre esteve familiarizada com o universo da comunicação, atuando por anos em agências de marketing e atendendo clientes diversos, longe, a princípio, das pautas indígenas. A virada em sua trajetória profissional e pessoal aconteceu quando sua família iniciou um processo de resgate da própria identidade étnica, apagada ao longo de gerações por conta da história de deslocamento e silenciamento vivida por povos originários no Nordeste brasileiro. Foi ela quem conduziu esse movimento dentro de casa, buscando reconectar a família às raízes do povo Kixelô Kariri, que sempre estiveram presentes, mas haviam sido soterradas por décadas de invisibilização.
Esse processo, descrito por ela como profundamente difícil, resultou na publicação do primeiro vídeo público sobre o tema: um conteúdo que discutia a realidade dos indígenas não aldeados e o percurso de retomada identitária. A publicação, que já havia sido precedida por um trabalho interno de reconexão com a ancestralidade, mudou de forma definitiva os rumos de sua vida. A partir dali, Ybotyra passou a compartilhar publicamente sua busca por reconhecimento étnico e por aceitação dentro da própria comunidade indígena, em um movimento que resultou, com o tempo, no reconhecimento oficial do povo Kixelô como povo de levante indígena, uma conquista construída à base de resistência diante da luta histórica por validação junto às autoridades competentes. O crescimento de sua audiência não veio sem custo. Ybotyra relata ter enfrentado críticas duras, ataques e comentários racistas, tanto de pessoas fora da comunidade quanto de parentes indígenas, o que chegou a provocar nela um quadro de fobia social em eventos presenciais. A dor, segundo conta, vinha sobretudo da falta de compreensão em relação ao seu processo de retomada, uma vez que seu histórico familiar carrega as marcas do apagamento étnico, um fenômeno que, segundo ela, se manifesta de diversas formas no Brasil e que, paradoxalmente, ainda gera questionamentos sobre a legitimidade de quem precisa reconstruir sua identidade a partir do zero. Com o tempo, ela aprendeu a lidar com as críticas de outra maneira: entendeu que não precisa agradar a todos, que nem toda crítica exige resposta e que o tempo, como ela mesma define, é o melhor remédio. Foi dessa vivência que nasceu o coletivo Raiz Retorna, criado para acolher parentes indígenas em busca de suas próprias raízes. A iniciativa hoje promove encontros online e presenciais em cidades como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, produz conteúdo educativo sobre retomada identitária e prepara o lançamento de um material gratuito, o "Manual do Resgate Identitário Indígena", pensado não como uma fórmula pronta, mas como um instrumento de acolhimento para quem atravessa um processo semelhante ao dela. Mantido até o momento com recursos próprios, sem qualquer rede de apoio financeiro institucional, o coletivo representa, em suas palavras, o abraço que ela não teve no início da própria retomada.
Paralelamente ao trabalho de ativismo, Ybotyra também constrói, ao lado da irmã Caroline Soares, o Jenipapo Studio, um estúdio criativo que carrega em sua identidade visual referências diretas à ancestralidade da família. O próprio nome remete ao jenipapo, elemento simbólico da cultura indígena, enquanto a marca tem no rio Jaguaribe, no Ceará, um dos seus principais símbolos visuais, em referência direta à origem do povo Kixelô Kariri, hoje disperso entre o Ceará, terra dos "troncos velhos" da família, e a Bahia, onde Ybotyra nasceu e cresceu. Mais do que um empreendimento comercial, o Jenipapo Studio se apresenta como extensão de sua história pessoal, um espaço onde criatividade, ancestralidade e comunicação caminham juntas sob o lema "criando conteúdo com propósito". A trajetória de Ybotyra também expõe as camadas complexas da identidade indígena contemporânea no Brasil. Filha de mãe cearense, Maria Crizineide Soares, que precisou migrar para a Bahia em razão da seca, e de pai negro e baiano, ela carrega duas ancestralidades: a negra, por parte paterna, e a indígena, por parte materna. Essa condição de mulher mestiça já lhe rendeu, dentro das próprias redes sociais, comentários que questionam sua legitimidade étnica com base em traços físicos, uma forma sutil, porém recorrente, de apagamento que ela enfrenta com a convicção de que não precisa escolher uma ancestralidade em detrimento da outra, pois ambas compõem, de forma indissociável, quem ela é. Enquanto aguarda a efetivação da retomada de território no Ceará, ela encontra acolhimento na Reserva Indígena Tapirica, do povo Tupinambá, em Itaparica, na Bahia, espaço onde, mesmo entre etnias diferentes, encontra apoio e consegue amenizar a saudade do território de origem.
O crescimento de sua presença digital, que partiu de 600 seguidores e hoje se aproxima da marca de 20 mil, é reflexo direto de um trabalho constante de aperfeiçoamento profissional, que incluiu cursos de edição de vídeo e estratégia de conteúdo, somados à resiliência diante de recusas e portas fechadas ao longo do caminho. Esse investimento se traduziu em oportunidades concretas: recentemente, Ybotyra esteve na região do Tapajós, no Pará, onde ministrou um curso de comunicação voltado ao turismo de base comunitária para indígenas e ribeirinhos, iniciativa vinculada a um projeto de parceria com a WWF, que resultou em retorno positivo dos participantes e na realização de um sonho antigo de conhecer a Amazônia. A experiência também impulsionou um novo projeto: um curso online gratuito de reforço em comunicação, direcionado às comunidades que participaram da iniciativa. Segunda pessoa da família a concluir uma graduação, Ybotyra transformou aquilo que um dia foi tratado com ironia dentro de casa, a escolha por estudar marketing, em motivo de orgulho para os pais, que sempre incentivaram os filhos a estudar. Hoje, entre os planos que projeta para o futuro, estão a estabilidade financeira para viajar e conhecer outras culturas brasileiras, a ampliação de projetos voltados a comunidades indígenas, o desejo de se tornar referência em comunicação indígena e, sobretudo, o sonho maior de ver seu povo com o território homologado e o pleno reconhecimento étnico por parte dos órgãos públicos. Ela também almeja transformar as redes sociais em sua principal fonte de renda e dedicar parte de seu tempo a trabalhos voluntários de comunicação em comunidades indígenas.
A história de Ybotyra Kixelô ilustra, de forma emblemática, o potencial transformador do empreendedorismo digital quando aliado à ancestralidade e à causa social. Em um cenário nacional no qual cada vez mais brasileiros descobrem nas redes sociais uma via legítima de geração de renda e construção de marca própria, ela desponta como protagonista de um movimento ainda mais específico e urgente: o de usar a tecnologia e a comunicação para romper barreiras históricas de apagamento, dar visibilidade a povos originários e provar que é possível empreender sem abrir mão da própria identidade. Entre a tela do celular e as margens do rio Jaguaribe, entre o Instagram e o território ainda por retomar, Ybotyra segue construindo, com cada vídeo publicado, uma ponte entre o Brasil digital e o Brasil ancestral.
Sobre o blog
Willian Nelson é um profissional versátil e apaixonado pelo mundo dos negócios. Com sua formação como Bacharel em Direito, Especialista em Empreendedorismo, ele se destaca como um consultor empresarial reconhecido. Além disso, como Escritor Profissional pela UBE, ele compartilha suas ideias e experiências através de palestras inspiradoras.
À frente de um blog dedicado ao Empreendedorismo, Willian busca trazer informações valiosas e práticas para aqueles que almejam o sucesso empresarial. Seu compromisso é guiar seus leitores rumo a estratégias eficazes e caminhos promissores no mundo dos negócios.
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