Saúde

Superpopulação de pombos em Arapiraca: doença ligada às fezes pode gerar morte

Crescimento da população de aves no Centro de Arapiraca reforça alerta para riscos à saúde e especialistas pedem que população deixe de alimentá-las

Por Erick Balbino/7Segundos 20/07/2026 11h11 - Atualizado em 20/07/2026 13h01
Superpopulação de pombos em Arapiraca: doença ligada às fezes pode gerar morte
Doença do pombo pode evoluir para meningite e até morte - Foto: Ilustração por IA/Google Gemini

À primeira vista, eles parecem apenas parte da paisagem urbana. Caminham entre as pessoas, disputam restos de alimentos nas praças e pousam sobre bancos, telhados e monumentos. Mas por trás da aparência inofensiva, os pombos podem representar um problema de saúde pública capaz de provocar doenças graves, algumas com risco de morte.

O aumento da população dessas aves no Centro de Arapiraca, especialmente no Calçadão da Concatedral Nossa Senhora do Bom Conselho, no Parque Ceci Cunha e nas imediações do Mercado do Artesanato Margarida Gonçalves, voltou a preocupar moradores e autoridades sanitárias, como adiantou o Portal 7Segundos no início de julho. O principal motivo é simples: quanto maior o número de pombos, maior a quantidade de fezes espalhadas pelo ambiente e, consequentemente, maior o risco de exposição da população a fungos, bactérias e parasitas.

Uma das doenças que mais preocupa especialistas é a criptococose, causada pelo fungo Cryptococcus neoformans, frequentemente encontrado em fezes secas de pombos. Quando esses dejetos secam, pequenas partículas podem ser levadas pelo vento e inaladas sem que a pessoa perceba.

De acordo com o médico arapiraquense Jefferson Vieira, a infecção geralmente começa nos pulmões, mas, nos casos mais graves, pode atingir o sistema nervoso central, provocando meningite criptocócica, uma doença potencialmente fatal se não houver diagnóstico e tratamento precoces.

"Não sou contra as aves, mas o risco à saúde é real. Pessoas com imunidade comprometida, como pacientes transplantados, em tratamento contra câncer ou vivendo com HIV, apresentam risco muito maior de desenvolver formas graves da doença. Entretanto, especialistas alertam que pessoas saudáveis também podem adoecer", destacou o profissional de saúde.

Ainda segundo o médico, além da criptococose, o contato indireto com ambientes contaminados pelas fezes dessas aves pode favorecer a transmissão de outras doenças, como histoplasmose e salmonelose, além de desencadear alergias e problemas respiratórios.

Um problema tratado de forma diferente dos ratos

O crescimento da população de pombos revela um comportamento curioso da sociedade. Quando ratos começam a aparecer em grande quantidade em uma residência, a reação costuma ser imediata. Moradores eliminam fontes de alimento, contratam empresas especializadas em controle de pragas e buscam reduzir rapidamente a infestação, justamente pelos riscos de doenças como leptospirose e hantavirose.

Com os pombos, porém, a situação costuma ser diferente.

Mesmo sendo considerados uma praga urbana por órgãos de saúde pública devido aos riscos sanitários que representam quando há superpopulação, muitas pessoas continuam oferecendo alimento às aves por acreditarem estar praticando um ato de compaixão.

Na prática, esse comportamento produz o efeito contrário.

Especialistas explicam que o alimento fácil faz com que os pombos permaneçam nos mesmos locais, aumentem sua taxa de reprodução e concentrem grandes quantidades de fezes exatamente onde há intensa circulação de pessoas.

Ou seja, alimentar um pombo hoje significa contribuir para que dezenas de outros ocupem aquele mesmo espaço nos próximos meses.

Uma espécie que não pertence ao ecossistema local

Embora sejam vistos diariamente nas cidades brasileiras, os pombos urbanos (Columba livia) não fazem parte da fauna nativa de Arapiraca nem da biodiversidade brasileira.

A espécie foi introduzida pelo homem há séculos e encontrou nas cidades um ambiente perfeito para sobreviver: abundância de alimento, água e locais para construir ninhos.

Com poucas ameaças naturais no ambiente urbano, a reprodução ocorre praticamente durante todo o ano.

Cada casal pode produzir diversas ninhadas anualmente e os filhotes atingem rapidamente a maturidade sexual. Quando existe oferta constante de alimento, o crescimento populacional torna-se contínuo.

Alimentar pombos agrava o problema

Especialistas e órgãos de saúde são unânimes ao afirmar que a principal medida para controlar a população dessas aves é interromper o fornecimento de alimentos.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, os pombos conseguem encontrar comida suficiente no ambiente urbano. Restos descartados inadequadamente já garantem sua sobrevivência.

Quando recebem alimento diretamente da população, passam a frequentar diariamente o mesmo local, formando bandos cada vez maiores.

Foi exatamente essa situação registrada recentemente no Parque Ceci Cunha, onde dezenas de pombos foram vistos sendo alimentados.

Além da alimentação, o controle da população depende da redução dos chamados "quatro A's" que favorecem sua permanência nas cidades:

> Acesso;
> Abrigo;
> Água;
> Alimento.

Sem esses fatores, especialmente a oferta de comida, a tendência é que a população diminua gradativamente.

Como limpar fezes de pombos com segurança

Especialistas alertam que as fezes nunca devem ser varridas quando estiverem secas, pois isso aumenta a dispersão de partículas contaminadas no ar. A recomendação é:

> umedecer completamente o local;
> utilizar solução de água com água sanitária;
> usar máscara com boa vedação e luvas durante a limpeza;
> evitar gerar poeira;
> higienizar bem as mãos após o procedimento.

Prefeitura acompanha situação

Após reportagem publicada anteriormente pelo Portal 7Segundos, a Prefeitura de Arapiraca informou que equipes da Vigilância em Saúde realizariam vistorias nos pontos denunciados para avaliar a situação e definir medidas de orientação e controle.

A Secretaria Municipal de Saúde reforçou que a principal colaboração da população é justamente deixar de alimentar os pombos, atitude considerada essencial para conter o crescimento das colônias na cidade.

Embora a legislação ambiental não permita o extermínio indiscriminado dessas aves, especialistas ressaltam que o controle populacional por meio do manejo ambiental e da eliminação das fontes de alimento é a estratégia mais eficiente e segura para proteger tanto a saúde pública quanto o equilíbrio urbano.

O órgão alerta: o problema não é a simples presença de um pombo isolado. O risco aumenta quando há superpopulação, acúmulo de fezes e exposição contínua das pessoas às partículas contaminadas. Por isso, alimentar essas aves não é um gesto de proteção aos animais, mas uma prática que contribui diretamente para ampliar um problema sanitário que pode afetar toda a coletividade.