Blog do Roberto Ventura
Rompimentos não acontecem do nada, eles carregam uma história que pouca gente conhece por completo e elas precisam ser contada
O rompimento entre o ex-prefeito Kil e o atual prefeito Júnior Menezes não é um fato isolado nem recente. Para compreender o cenário atual, é necessário revisitar os acontecimentos e entender como essa relação foi construída ao longo do tempo.
Em 2016, União dos Palmares vivia um momento de instabilidade política e administrativa. Naquele contexto, Júnior Menezes estava cotado para ser vice na chapa liderada por Zé Alfredo, que aparecia à frente nas pesquisas. No entanto, uma articulação mudou completamente o rumo da eleição.
Por iniciativa do então governador Renan Filho, foi formada uma nova composição: Kil assumiria a cabeça da chapa, tendo Zé Alfredo como vice, em uma estratégia para unificar forças e viabilizar a vitória do grupo.
Diante dessa mudança, Júnior Menezes abriu mão de seu espaço político imediato. Recuou de um projeto próprio e passou a apoiar a nova formação sem gerar conflitos ou rupturas.
E não se tratava de um nome sem base. Júnior carrega um legado político consolidado. Filho do ex-prefeito Iran Menezes, herdou uma tradição marcada pela proximidade com a população, presença nas comunidades e atuação especialmente na zona rural. Esse histórico lhe dava legitimidade para disputar protagonismo naquele momento, mesmo assim, optou pela construção coletiva.
Com o apoio de Júnior e da família Menezes, a chapa de Kil e Zé Alfredo venceu as eleições. A partir daí, Júnior passou a integrar a gestão, assumindo a Secretaria de Infraestrutura.
A relação entre os dois, no entanto, já vinha de antes. Após a derrota de Kil em 2012, período marcado por dificuldades políticas e pessoais, Júnior esteve entre os poucos que permaneceram ao seu lado. Essa lealdade foi um dos fatores que o levaram a ser escolhido como vice na chapa de 2020.
Durante os dois mandatos de Kil (2017 a 2024), a gestão passou por fases distintas. O início foi marcado por dificuldades e desgaste político, enquanto o segundo momento apresentou recuperação, impulsionada por investimentos importantes — especialmente os recursos oriundos da concessão do SAAE.
Nesse período, Júnior manteve alinhamento com a gestão, mas também construiu um perfil próprio: mais próximo da população, mais acessível e com forte presença nas comunidades. Sua atuação contribuiu para melhorar a percepção da gestão junto à população.
Enquanto Kil adotava um estilo mais técnico e reservado, Júnior se consolidava como uma liderança de diálogo, agregando apoios e ampliando a base política do grupo.
Essas diferenças de perfil foram decisivas na eleição de 2024. Em áreas onde havia resistência ao nome de Kil, Júnior conseguia dialogar e construir apoio, resultado de sua trajetória e relação com a população e isso resultou em uma eleição histórica, com a maior votação já registrada no município.
Após assumir a prefeitura, Júnior manteve compromissos políticos. Preservou a maior parte do secretariado, abriu espaço para aliados e convidou o próprio Kil para a Secretaria de Educação. Também contemplou a vice-prefeita Samires com espaço na gestão e reafirmou apoio a um projeto político futuro de Kil.
No entanto, a construção desse caminho não dependia apenas de um lado. Kil precisava consolidar apoio dentro do grupo político, o que não ocorreu. Diante disso, Júnior buscou alternativas para manter a governabilidade e garantir a continuidade de articulações importantes para o município.
A dinâmica interna passou a ser marcada por falta de alinhamento, decisões isoladas e distanciamento político. Esse cenário comprometeu a harmonia da gestão e dificultou a condução de um projeto coletivo e foi, a partir daí, que a relação começou a se desgastar.
A Secretaria de Educação, sob influência de Kil, passou a operar de forma desalinhada com as diretrizes do governo. Episódios recorrentes reforçaram esse desgaste: falhas de comunicação, ausência do prefeito em agendas institucionais e atitudes que contrariavam o espírito de unidade esperado.
Somaram-se a isso tensões políticas envolvendo integrantes dos dois grupos, além de conflitos que já vinham se acumulando ao longo do tempo.
O rompimento, portanto, não foi um episódio pontual, mas o resultado de um processo contínuo.
Esse movimento ganha ainda mais relevância quando se observa seu impacto mais amplo. Ao romper politicamente e se alinhar a um projeto de oposição ao governo do Estado, Kil não afeta apenas sua relação com Júnior Menezes - coloca em debate a coerência de sua própria trajetória.
Durante seus mandatos, sua gestão contou com apoio direto dos governos estaduais, o que viabilizou obras importantes para o município.
Romper com esse mesmo grupo após anos de parceria levanta um questionamento inevitável: trata-se de estratégia política ou de incoerência?
Mais do que uma decisão individual, é um movimento que repercute diretamente na cidade.
Porque, no fim, política não se constrói apenas com decisões momentâneas, mas com consistência, responsabilidade e respeito às alianças que tornam os resultados possíveis.
E, neste caso, o que está em jogo não é apenas um rompimento - mas a forma como cada liderança se posiciona diante da própria história.
Sobre o blog
Roberto Ventura: Bel. em Ciências Sociais ( Cientista Político), Jornalista, Radialista, Pós-graduado em Assessoria de Comunicação e Marketing, cursou Marketing Político, Ex-Arbitro de Futebol Profissional
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