Tinta preta e precisão dos traços nas obras de Afonso Sarmento
Trabalho minucioso do artista alagoano captura o olhar do espectador
O talento de Afonso Sarmento, de 31 anos, é inegável. Natural de Maceió, ele faz parte da nova geração das artes visuais em Alagoas. Desenhista autodidata, Afonso consolidou um nome no mercado das artes através de trabalhos minuciosos e traços marcantes.
Contraste de preto no branco e temas ligados ao Renascentismo, Barroco, Romantismo são aspectos marcantes de suas obras produzidas com lápis carvão, pastel seco e nanquim. As primeiras referências de hachuras — técnica artística utilizada para criar efeitos de tons ou sombras — conta ele, foi influenciada pelas texturas de galhos de árvore e pela frieza sonora da técnica do tremolo picking.
“Foi por volta de 2012 ou 2013 que comprei a primeira nanquim e o primeiro sketchbook, pois estava interessado na técnica do pontilhismo. Deu bastante trabalho, mas consegui produzir algumas coisas. Mas, ao passo que eu ia ganhando mais familiaridade com a nanquim, descobrindo a inclinação e pressão exercidas no papel que mais me apraziam, senti que poderia misturar essas especificidades com as técnicas de que eu já me utilizava com lápis carvão e pastel seco, simulando-as agora com a caneta”, explica.

Pontilhismo | dotwork
Afonso conta que o interesse pela arte surgiu na infância. “Desenho desde criança e venho desde então aprofundando os processos cognitivos do ato de desenhar — claro que, no início, era uma experiência muito embrionária e inconsciente. Mas seguramente tenho o desenho como processo mental e metodologia gráfica com a qual eu posso me expressar para além do plano verbal e tive a felicidade de, aos vinte e poucos anos, ter conseguido desenvolver uma técnica própria”, revela Afonso.
O processo criativo, explica ele, surge de inquietações. “Na maioria das vezes não planejo o resultado final, ele vai se construindo e se modificando durante os dias em que trabalho em um desenho. Também vou buscando referências figurativas clássicas e contemporâneas para me sentir provocado e vou tentando entender o que quero que meus olhos vejam dentro do mundo em que habitamos — interna e externamente. É como um processo de coleta de dados, ainda que imagéticos, que são transformados organicamente nas intenções gestuais da mão”, diz.
A despeito das inquietações, o desenhista afirma que o silêncio é o maior motivador. “Sempre tive uma relação muito efervescente com a imagem, mas também sempre guardei sem saber aquilo que com o tempo descobri que, para o pensador alemão Walter Benjamin, seria a 'manifestação de uma distância', referindo-se à percepção da 'aura' nas obras de arte que, grosseiramente falando, repousariam em si mesmas e preservariam, dessa maneira, suas significações estéticas ou, digamos assim, cultuais”, explica Afonso.
“Tal percepção encontrei inicialmente nos mestres do Renascimento italiano — com quem tanto aprendi —, mas também nos movimentos barroco, feísta e romântico e nas tradições figurativas de xilogravuras pós-medievais. Minha formação inicial é clássica. Mas isso, naturalmente, se deu sem aquele viés de pensamento moralista — pra não dizer artificial — que atualmente está na moda e que faz regredir simplistamente a arte à ideia de 'beleza'”, complementa.

Jan Gossaert (Mabuse) | nanquim 0.05mm
RECONHECIMENTO
A valorização do trabalho de Afonso já é notável. Ele foi um dos destaques na “Graciliano arte” — catálogo de arte alagoana contemporânea que engloba música, artes plásticas e literatura; ilustrou revista da Imprensa Oficial; foi convidado para produzir a ilustração da capa do primeiro álbum do músico Bruno Tenório; ilustrou o álbum de estreia da banda Vastarien — baseada na obra do escritor Thomas Ligotti; participou do projeto gráfico criado para “Entre (laços) literários” — livro de ensaios sobre literatura, publicado pela Editora da Universidade Estadual de Alagoas (Eduneal); desenhou a capa de 'Fantasma', primeiro romance de Nilton Resende; entre outros.
“Trabalhei com algumas bandas daqui de Maceió e Caruaru, por exemplo. Trabalho também, como freelancer, em um mercado de que gosto bastante, o editorial, com desenhos e ilustrações para capas e miolo de livros de literatura — meu primeiro trabalho publicado como capista de livro, inclusive, foi em 2001, aos 12 anos. Atualmente meu maior projeto é o hiato, que eu considero ser um detox muito importante — e por vezes necessário”, conta Afonso.

Capa do single “Faded Novelty” da banda Sedna

Capa do single “Relief” da banda Sedna
Afonso também participou de exposições em Maceió e São Paulo, entre elas uma solo na Aliança Francesa, denominada “bestiário”; da exposição “Olhar Contemporâneo”, na Galeria Gamma e; em São Paulo foi convidado para exibir seus trabalhos na galeria paulista de arte com foco em e-commerce ConecteArte, onde teve algumas de suas obras adquiridas por um dos maiores colecionadores brasileiros de arte contemporânea, Sérgio Carvalho.
“Em 2014, produzi duas séries, uma com possíveis representações de artistas e cientistas do maneirismo e renascimento italiano, alemão e português dos séculos XV e XVI; e outra, intitulada bestiário, mais psicológica, em que tentei mesclar tradição e contemporaneidade. Na época, tive a sorte de ambas as séries terem sido adquiridas por um dos maiores colecionadores de arte do país. Também já participei de algumas exposições, coletivas e individuais, em Maceió e São Paulo, entre 2015 e 2018”, recorda.
Quem tiver interesse em acompanhar os trabalhos de Afonso é só seguir o Instagram @sarmentoafonso.
Veja algumas produções de Afonso:

Ilustração para “Nothing Has To Be”, álbum de estreia da Vastarien

Projeto gráfico criado para “Entre (laços) literários”

Ilustração para capa do romance “Fantasma”, de Nilton Resende

Petrus Apianus | nanquim 0.05mm

Hans Sebald Beham |nanquim 0.05mm
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