Saúde

Após acidente que o deixou paraplégico, alagoano passa por tratamento inédito com polilaminina

Natalício Barros, de 32 anos, foi o primeiro paciente de Alagoas a receber o biofármaco experimental voltado à regeneração da medula espinhal

Por Gabrielly Farias 02/06/2026 16h04 - Atualizado em 02/06/2026 17h05
Após acidente que o deixou paraplégico, alagoano passa por tratamento inédito com polilaminina
Natalício Barros foi o primeiro paciente de Alagoas a receber a aplicação da polilaminina, biofármaco experimental para lesões medulares - Foto: Cortesia

O que parecia ser mais um dia comum mudou completamente a vida de Natalício Jordan Correia Barros. Em março deste ano, o taxista de 32 anos sofreu um grave acidente de trânsito em Maceió e teve uma lesão medular considerada completa, ficando paraplégico.

Pouco mais de dois meses depois, ele se tornou o primeiro paciente de Alagoas a receber a aplicação da polilaminina, um biofármaco experimental que busca estimular a regeneração neural em pessoas com lesões medulares graves. O procedimento foi realizado no último sábado (31), no Hospital Maceió.

Segundo a médica assistente do caso, Morghana Ferreira, este foi o primeiro procedimento do tipo realizado em Alagoas e o 77º caso registrado no Brasil dentro dessa linha de pesquisa.

Natalício sofreu um traumatismo raquimedular após ser atingido por um veículo no dia 14 de março. A lesão provocou uma fratura explosiva na vértebra D12 e uma secção completa da medula espinhal, resultando na perda total dos movimentos e da sensibilidade abaixo do local afetado.

“Minha vida mudou completamente. Eu era taxista, praticava crossfit, treinava quase todos os dias e tinha acabado de voltar para a musculação. Depois do acidente, tudo mudou”, relatou em entrevista ao 7Segundos.

A possibilidade de participar do tratamento surgiu por meio de um protocolo especial de uso compassivo aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), destinado a pacientes com doenças graves e sem alternativas terapêuticas satisfatórias.

“Foi um misto de sentimentos. Fiquei muito esperançoso com as possibilidades que esse medicamento pode proporcionar. É uma honra saber que sou o primeiro em Alagoas a receber a polilaminina”, afirmou Natalício.

A aplicação foi realizada diretamente no local da lesão medular por uma equipe de neurocirurgiões do Rio de Janeiro, ligada à pesquisadora Tatiana Sampaio Coelho, que desenvolve a tecnologia em parceria com o Laboratório Cristália.

De acordo com a médica Morghana Ferreira, o principal desafio foi viabilizar o acesso ao tratamento dentro da chamada “janela terapêutica”, período considerado essencial para que o biofármaco tenha potencial de atuação.

“Logo após a lesão ocorre uma intensa resposta inflamatória que leva à formação da cicatriz glial. A polilaminina busca atuar justamente antes que essa barreira esteja completamente formada, favorecendo a neuroplasticidade e o crescimento dos axônios”, explicou.

A substância vem sendo estudada há mais de duas décadas por pesquisadores brasileiros. A expectativa é que ela funcione como uma espécie de suporte para estimular a reconexão das células nervosas interrompidas pela lesão medular.

Apesar da esperança, os especialistas ressaltam que a polilaminina ainda está em fase experimental e não há garantia de recuperação dos movimentos.

Segundo Morghana Ferreira, o acompanhamento será rigoroso. Natalício passará por avaliações clínicas e neurológicas após um, três, seis e 12 meses da aplicação, além de monitoramento de segurança realizado pelo laboratório responsável.

A fisioterapia também continuará sendo parte fundamental do tratamento. “O procedimento sozinho não é um milagre. Precisa de muita reabilitação. Vou me empenhar ao máximo para que eu realmente consiga voltar a andar”, disse o paciente.

Os primeiros meses serão decisivos para avaliar a segurança da aplicação. Já possíveis ganhos motores ou sensitivos deverão ser observados ao longo do primeiro ano de acompanhamento.

Para a médica, o procedimento representa um marco para a medicina alagoana. “Sabemos que a medicina experimental envolve riscos e muitas incertezas, mas oferecer a um paciente jovem uma possibilidade que antes não existia é algo extremamente significativo. É um passo importante para o futuro do tratamento das lesões medulares”, destacou.