Cultura

Indígenas Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio difundem sua cultura nas plataformas digitais

TikTok, Instagram, YouTube e Spotify se tornaram meio para divulgar as artes produzidas pelos indígenas do interior de Alagoas

Por Patrícia Bastos/ 7Segundos 19/04/2023 06h06 - Atualizado em 19/04/2023 15h03
Indígenas Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio difundem sua cultura nas plataformas digitais
Indígenas da tribo Kariri-Xocó difundem sua cultura pelas plataformas digitais - Foto: Arquivo Pessoal

Acreditar que as sociedades indígenas brasileiras vivem - ou pelo menos deveriam viver, como pensam as mentes atrasadas - como há cinco séculos atrás quando as terras posteriormente nomeadas de Brasil foram invadidas pelos portugueses, não podia estar mais longe da atual realidade da grande maioria das tribos. Embora algumas, mais isoladas, ainda resistam ao contato com os não-índios e repudiam qualquer tipo de tecnologia, a realidade é que Instagram, YouTube, Tiktok e as plataformas de áudio e vídeo fazem parte da realidade dos jovens das tribos no interior de Alagoas.

“Gravar um podcast ou conversar com você por chamada de vídeo não faz de mim menos indígena. Respeitamos aqueles que resistem à tecnologia, mas para nós a tecnologia é uma forma de manter e espalhar nossa cultura, que a gente tanto se orgulha”, afirma o jovem Tkay Mirim, indígena de 23 anos da tribo Kariri-Xocó, de Porto Real do Colégio.


O jovem, cujo nome significa “pequeno conselheiro” junto com outros membros da tribo integram a geração Z, que nasceram e cresceram em um mundo conectado, mesmo que o acesso a internet dentro das tribos ainda sofra problemas de qualidade. Mas as dificuldades de conexão e os celulares que estão bem atrás dos melhores do mercado não impediram que o projeto iniciado com simples fotos das peças artesanais produzidas pela comunidade se transformou em podcast, vídeo do TikTok, gravação dos cantos ancestrais em estúdio e disponível nas plataformas de música e em breve clipes musicais e possivelmente até mesmo em documentário.

“Tudo começou com a ideia de vender nosso artesanato na internet. Em 2017, um grupo de cinco guerreiros criou o perfil Artefato Sagrado, mas a gente postava só a foto com o preço das peças. A gente não entendia como fazer, achava que só por estar publicado na internet, todas as pessoas iriam ver e comprar, como aparece nas novelas. Claro que não deu muito certo, mas a gente lutou e aprendeu a postar conteúdo mais interessante”, conta Tkay, que espera conseguir retomar a faculdade de Administração em breve.


Uma das formas encontradas para tornar o conteúdo mais interessante foi a gravação de vídeos, mostrando o dia a dia na aldeia, os mais velhos contando histórias e dividindo a sabedoria ancestral, além do processo de confecção das peças, as danças e as canções. Paralelo a isso, estimulados por familiares e outros membros da tribo, o Artefato Sagrado se tornou também um grupo cultural, para fazer apresentações em escolas dando uma mostra da cultura Xucuru-Kariri em datas como hoje, 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas.


Ao longo dos anos, o grupo passou por várias mudanças, entraram e sairam membros e com anos de muita luta, esforço e algumas tentativas frustradas, eles conseguiram fazer a gravação dos cantos Xucurus em estúdio e de lá veio a sugestão de podcast.

Apesar de não alcançarem a merecida popularidade dentro de Alagoas, o material produzido pelos jovens indígenas de Porto Real do Colégio têm chamado atenção fora do Estado e até mesmo no exterior. O projeto do álbum “Cantos Sagrados Kariri-Xocó” foi um dos vencedores do edital Natura Musical de 2023 e além da possibilidade de gravação em estúdio, irá patrocinar também a produção de clipes, que vão mostrar a força do canto, da dança e da cultura indígena. O material produzido na tribo também chamou a atenção do cineasta francês Karim Akadiri Soumaila, radicado em São Paulo há uma década, que já visitou a tribo e de acordo com Tkay Mirim negocia com plataforma de vídeos digitais, como Netflix e Amazon Prime a produção de documentário sobre a tribo.


O desejo do jovem indígena do interior de Alagoas é ver a sua cultura sendo perpetuada nos meios audiovisuais e alcançando um grande público, no Brasil e quem sabe até fora dele. Mas além de levar para fora sua cultura, o sonho dele é ver seu povo valorizado, vivendo em suas terras ancestrais e respeitado em sua cultura.

“Quando os brancos chegaram aqui tomaram nossas terras e hoje não temos mais direito de viver onde nossos ancestrais viveram. A gente quer manter a nossa cultura e também que ela seja valorizada. O governo podia construir museus, podia fazer projetos turísticos, isso iria trazer benefício não só para nossa comunidade, mas para o município também. O mais importante de tudo é que a gente quer ser respeitado”, finalizou.