Jornalista que divulgou crônica sobre escolha de vacinas morre de Covid-19
Dias antes de morrer, a vítima havia publicado uma crônica chamada ‘O especialista’
O jornalista, professor, escritor, historiador e psicólogo Marcus Vinicius Batista, de 46 anos, morreu na última quarta-feira (14), em Santos, no litoral de São Paulo, vítima da Covid-19.
Dias antes de morrer, a vítima havia publicado uma crônica chamada ‘O especialista’, que fazia uma crítica a quem tentava escolher a fabricante da vacina contra a doença.
Segundo o G1, Marcus estava internado devido a uma cirurgia no pé, que realizou como consequência de uma infecção causada pela diabetes. Durante a hospitalização, o jornalista acabou testando positivo para a doença e passou a fazer um tratamento intensivo para tentar se recuperar.
A morte da vítima, que era muito conhecida e querida por profissionais com quem trabalhou, gerou comoção e diversas pessoas o homenagearam nas redes sociais. Ele deixa dois filhos.
Veja abaixo a crônica elaborada por Marcus, intitulada como “O especialista”.
— Não tomo desta marca, moça!
Ele se considerava um especialista. Sentia-se um homem bem informado, ainda mais agora com os grupos e as mensagens que recebia e repassava pelo WhatsApp. Era usuário de celular várias horas por dia.
Ele ia mais longe. Pouco frequentava outras redes sociais, aparecia de vez em quando. Noticiário, só uma emissora, alinhada com a sua religião e os seus pontos-certezas de vista. Não acompanhava outros veículos de comunicação, que as mensagens de WhatsApp já provaram ser “vendidos”.
Ele se orgulhava de ser convicto desde jovem. Tinha uma marca de refrigerante preferida. Não abria mão. Chegou a tomar água de torneira em lanchonete pé sujo para não fraquejar na fidelidade.
Mais velho, se vangloriava no boteco perto de casa. Só tomava aquela marca de cerveja. Quantas e quantas vezes Seu Alírio, o dono, guardou aquela caixa só pra ele, ciente de que o freguês tinha sempre razão e o mesmo paladar.
Comia sempre no mesmo restaurante com a esposa nas datas comemorativas. Repetia o mesmo prato. Uma vez, ela reclamou. Ele respondeu no ato:
— Essa sociedade já tem valores invertidos. Temos que dar exemplo e seguir as tradições familiares. (A esposa se calou e nunca mais sugeriu comida alguma).
Na semana passada, se sentiu irritado e contente. Irritado porque teve que sair de casa a contragosto. Não eram os amigos do boteco, os colegas do futebol de quarta à noite, a reunião na igreja, o supermercado lotado de final de tarde ou a farmácia às segundas.
Só saía de casa com propósitos definidos. Nunca eram aglomerações. Dez pessoas no boteco. Vinte no futebol. Eram encontros, diferentemente da juventude que se aglomera em baladas ou da elite que se junta em pizzaria.
Pizza se pede em casa. Resenha de futebol não funciona pela internet. E cerveja não se toma sozinho. Frases que sempre repetia antes que qualquer desavisado viesse a fazer discurso pronto durante a pandemia.
Ele se sentiu contente quando pôde dizer novamente:
— Não tomo desta marca, moça!
Não havia fila no Ginásio Rebouças. Foi na hora do almoço, comecinho da tarde, com a certeza de que não haveria movimento. Perfeito. Uma pessoa na frente apenas. Entregou os seus documentos, sentou-se, levantou a manga da camisa quando ela se aproximou. Antes que ela pudesse encostar a agulha em seu braço, ele logo perguntou:
— Moça, qual é a marca da vacina?
— Marca? O senhor quer dizer o laboratório?
— Isso, isso, a marca do laboratório.
Com a resposta da enfermeira, ele foi taxativo:
— Não tomo desta marca, moça!
— Por quê?
— Porque fiz o curso no último final de semana. Grátis, na internet. Sommelier de vacina! Sei as diferenças entre as marcas, a eficácia, os efeitos colaterais, tudo para me proteger de fraudes.
— Sommelier de vacina? Hum… Tinha algum médico infectologista dando aula? Algum profissional da Saúde?
— Não, imagina. Só gente especializada, indicações de amigos do grupo de WhatsApp.
— Hum, entendi. Tudo bem, senhor.
Pode se levantar. A sorte é que não está em São Bernardo do Campo. Lá, os sommeliers de vacina assinam um termo, com duas testemunhas, e vão para o final da fila da vacinação.
— Deve ser coisa de comunista. Semana que vem, trago meu neto para tomar a primeira dose contra a pólio e também vou perguntar a marca.
De peito cheio, deixou o ginásio com aquela velha opinião formada sobre tudo, inclusive sobre a música do Raul Seixas. Não gostava. Achava subversiva.
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