Caso Davi completa dez anos e revela outra vítima: a mãe, consumida pela espera
O velório de Dona Maria José acontece hoje, no Memorial Parque das Flores, no Benedito Bentes, e o sepultamento está previsto para o final da manhã
O julgamento do caso que envolve o desaparecimento do adolescente Davi Silva, ocorrido em Maceió, estava marcado para acontecer como um marco na luta contra a impunidade e em defesa dos direitos humanos. No entanto, antes que esse momento pudesse se concretizar, mais uma vida foi atravessada pela violência da ausência de respostas do Estado: Dona Maria José, mãe de Davi, faleceu sem ver a justiça pela qual lutou durante mais de uma década.
Davi Silva desapareceu há 11 anos, após ter sido visto pela última vez no bairro Benedito Bentes. Conforme apontam as investigações, há indícios de envolvimento de policiais militares no sequestro do adolescente. Desde então, familiares, movimentos sociais e entidades de defesa dos direitos humanos, como o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente de Alagoas (CEDECA), acompanham o caso e cobram responsabilização.
O julgamento, que representaria um passo fundamental para a verdade e a memória, chegou a ser previsto, mas foi adiado por decisão judicial, ficando sem nova data definida. A espera prolongada, marcada por sucessivos adiamentos, aprofundou a dor da família e reforçou a sensação de abandono institucional.
Dona Maria José morreu enquanto aguardava, há meses, a substituição de um marca-passo pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A precarização do atendimento público, somada às desigualdades sociais que atingem de forma mais dura a população pobre, interrompeu não apenas sua vida, mas também o direito de uma mãe de ver seus filhos terem justiça. Sua morte se soma à longa lista de vítimas indiretas da negligência estatal.
Para o CEDECA, o falecimento de Dona Maria José evidencia que a violação de direitos não se limita ao momento do desaparecimento ou do crime em si. Ela se estende no tempo, atravessa corpos, adoece famílias e pode matar. A ausência de respostas, a morosidade do sistema de justiça e a fragilidade das políticas públicas de saúde e proteção social configuram um ciclo de violência institucional.
“O caso Davi não é apenas sobre o desaparecimento de um adolescente. É sobre uma mãe que morreu esperando justiça, sobre um Estado que falha em proteger, investigar e cuidar, e sobre uma sociedade que não pode naturalizar essas mortes”, reforça o CEDECA.
O velório de Dona Maria José acontece hoje, no Memorial Parque das Flores, no Benedito Bentes, e o sepultamento está previsto para o final da manhã. Sua morte transforma o julgamento do caso Davi em um compromisso ainda mais urgente com a memória, a verdade e a responsabilização do Estado.
Para o CEDECA, lembrar Davi é também lembrar Dona Maria José e todas as mães que morrem sem respostas. O silêncio, o adiamento e o esquecimento não podem prevalecer. Justiça tardia também é injustiça.
“Dona Maria José, minha tia, mãe do jovem Davi da Silva, desaparecido há 11 anos morreu hoje sem ver o julgamento dos PMs que (conforme apontam as investigações) sequestraram o seu filho no Benedito Bentes. O caso seria julgado há um mês, mas uma decisão do desembargador Turmés Airan adiou o julgamento que ficou sem data prevista. Dona Maria morreu porque estava esperando há meses a troca do seu marca-passo. Graças À precarização imposta ao SUS e por ser pobre, o coração dela não aguentou e parou. Dona Maria é mais uma vítima do Estado liberal, do seu aparelho de repressão contra os pobres e do sistema capitalista, de conjunto”. afirmou o professor Magno Francisco, sobrinho de dona Maria.
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