Com crimes em alta em AL e no país, veja como vai funcionar a criminalização da misoginia
O Plenário do Senado aprovou nessa terça-feira (24) a inclusão da misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação
Com o objetivo de diminuir os crimes de violência contra mulheres em todo o país, o Congresso brasileiro fez um movimento importante para amplificar o combate a esse tipo de prática: a tipificação de misoginia como crime. Em suma, misoginia nada mais é do que o ponto de partida para o ato de violência concreta e explícita contra pessoas do gênero feminino. Se caracteriza pelo ódio, desprezo, aversão ou preconceito contra mulheres e meninas, manifestado através de comportamentos que as desvalorizam, inferiorizam ou objetificam. Ela vai além do machismo estrutural e atua como um mecanismo de punição para mulheres que não seguem “normas tradicionais de submissão”.
O Plenário do Senado aprovou nessa terça-feira (24) a inclusão da misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação. A pena para esse tipo de crime é de dois a cinco anos de prisão, além de multa. Diante de casos cada vez mais frequentes de mulheres sendo impedidas de encerrar relacionamentos, agredidas, estupradas, ameaçadas e mortas, é fácil entender o porquê da votação entre os senadores ter tido um placar unânime para a aprovação do Projeto de Lei (PL): foram 67 votos a favor e nenhum contra.
A intenção é proteger o público feminino que, somente no primeiro semestre de 2024, registrou, no Brasil, 322.207 casos de violência. Vale lembrar que grande parte desses crimes nem mesmo chegam a ser notificados, o que revela que os números reais são ainda maiores.
Mesmo com números alarmantes, uma votação popular feita no próprio site do Senado Federal, sobre a opinião da população com relação ao PL, mostra que a maioria dos votantes é contra a inclusão da misoginia no rol de crimes tipificados no Brasil, o que demonstra preocupação de grande parte dos brasileiros em como a punição para este tipo de delito ocorrerá.

Para entender melhor sobre o debate, o 7Segundos entrevistou a advogada especialista em direito criminal, Rayanne Albuquerque. Segundo ela, o tema é complexo e precisa ser analisado sob diferentes dimensões, considerando tanto a necessidade de proteção das mulheres quanto os limites do Direito Penal.
Na avaliação da criminalista, o avanço de movimentos como o chamado “Red pill” ajuda a explicar o contexto em que o projeto surge. Ela aponta que, embora nem todo conteúdo ligado a esse grupo seja ilegal, há uma parcela que reforça a desvalorização feminina e contribui para a naturalização de violências simbólicas. Esse ambiente, especialmente nas redes sociais, amplia a visibilidade de condutas misóginas e pressiona o legislador a dar respostas mais firmes.

Rayanne Albuquerque destaca que essa mudança já vem sendo percebida no próprio Direito Penal, com uma ampliação da proteção à dignidade da mulher. Crimes como ameaça, injúria e violência psicológica passam a ser analisados com maior atenção à questão de gênero, o que tende a se fortalecer com a nova tipificação.
Ao tratar das diferentes formas de misoginia, a advogada pondera que nem todas terão enquadramento penal automático. Segundo ela, o Direito Penal exige condutas concretas que causem dano ou representem risco real. Nesse cenário, práticas como ataques reiterados no ambiente digital, exposição vexatória e incitação à violência têm maior possibilidade de enquadramento. Já manifestações estruturais de misoginia, embora relevantes, dependem mais de políticas públicas e educação do que de punição criminal.
Sobre a reação dividida da sociedade na enquete pública do Senado, a especialista avalia que o resultado reflete um equilíbrio delicado entre proteção e cautela. Parte da população defende medidas mais rígidas diante da violência de gênero, enquanto outra demonstra preocupação com possíveis excessos e com a ampliação do alcance do Direito Penal, especialmente em temas que envolvem liberdade de expressão.
Ela também considera que o projeto pode ser interpretado como parte de um movimento mais amplo de endurecimento das respostas do Estado frente ao aumento dos casos de violência contra a mulher. No entanto, faz uma ressalva: a criação de novos crimes, por si só, não resolve o problema. Para ela, o enfrentamento efetivo exige ações integradas, com prevenção, educação, políticas públicas e aplicação eficiente das leis já existentes.
Os dados mais recentes do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher reforçam a dimensão do problema. Em nível nacional, o Brasil registrou 302.856 notificações de violência contra mulheres em 2023, um crescimento em relação ao ano anterior. A maioria das vítimas é composta por mulheres pretas e pardas, que representam mais de 60% dos casos. A violência física aparece como a mais recorrente, mas há forte presença de violência psicológica e moral. Em grande parte das ocorrências, o agressor é um homem e o crime acontece dentro da própria residência da vítima, muitas vezes praticado por parceiros ou ex-parceiros.
Em Alagoas, os indicadores também chamam atenção. Em 2024, o estado registrou 21 casos de feminicídio, com aumento em relação ao ano anterior. Os homicídios dolosos e lesões corporais seguidas de morte somaram 49 ocorrências, enquanto os casos de estupro chegaram a 776 registros, mantendo tendência de alta. Outro dado que evidencia fragilidade na rede de apoio é que apenas 3,6% das empresas que responderam ao levantamento possuem políticas de incentivo à contratação de mulheres vítimas de violência.
Os números indicam que a violência de gênero segue presente em diferentes níveis e contextos, o que reforça a pressão por respostas institucionais. A tipificação da misoginia como crime passa a integrar esse cenário, ao lado de outras medidas já existentes, em uma tentativa de ampliar a proteção às mulheres no país.
Últimas notícias
Ator Rui Rezende, de 'Roque Santeiro', morre aos 88 anos no Rio de Janeiro
Revalida 2026/1: divulgado resultado final da primeira etapa do exame
IBGE inicia coleta da Pesquisa Nacional de Saúde 2026
Inmet emite alerta de baixa umidade para 16 municípios de Alagoas nesta segunda (13)
Após 26 anos, concurso da Guarda Municipal reúne quase 15 mil candidatos em Maceió
Mais de 10 mil pessoas acompanham Renan Filho e Cícero Cavalcante em caminhada histórica
Vídeos e noticias mais lidas
Lojas Mix Mateus em Alagoas passarão a operar com a bandeira Novo Atacarejo
Governo de Alagoas entrega restauração da rodovia AL-105 em julho
Nova lei reorganiza efetivo da PM de Alagoas; entenda o que muda
Duas lojas anunciam encerramento das atividades no Centro de Arapiraca
