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Em documentário de duas horas, Suzane von Richthofen relembra crime e alega ‘abismo’ para os pais: ‘Era zero afeto’

Longa-metragem inédito só foi disponiblizado por plataforma de streaming numa pré-estreia restrita

Por O Globo 06/04/2026 11h11 - Atualizado em 06/04/2026 12h12
Em documentário de duas horas, Suzane von Richthofen relembra crime e alega ‘abismo’ para os pais: ‘Era zero afeto’
Suzane em diferentes momentos do documentário - Foto: Reprodução

Pouco mais de duas décadas depois de mandar matar os próprios pais, Suzane von Richthofen, hoje com 42 anos, resolveu remexer o próprio passado. Em um documentário inédito, ela aceitou revisitar o crime pelo qual foi condenada a 39 anos de prisão, pena atualmente cumprida em regime aberto. Na obra, ela concede entrevista e reconstrói, sob sua própria versão, a história que se tornou um dos casos mais emblemáticos do país.

Por ora, o longa-metragem de quase duas horas só foi disponiblizado pela Netflix numa pré-estreia restrita. Ainda não há data oficial de lançamento. No documentário, o relato da parricida começa pela infância. A casa que, anos depois, serviria de palco para a morte dos pais, Manfred e Marísia von Richthofen, é descrita por ela como um ambiente sem afeto, marcado por cobrança e silêncio emocional.

“Eu vivia estudando. Era só nota alta. Tirava 9 e 10 em todas as matérias. Não tinha demonstração de amor, nem deles pra gente, nem da gente pra eles. Minha vida era brincar com o meu irmão”, sustentou Suzane. Manfred, segundo ela, era ainda mais distante: “Meu pai era zero afeto. Minha mãe ainda tinha um pouco. Volta e meia ela pegava a gente no colo. Mas era muito de vez em quando”.


Ainda de acordo com Suzane, a rotina familiar era atravessada por conflitos. “O relacionamento dos meus pais era muito ruim”, classificou. Ela chega a contar ter presenciado uma cena de violência dentro de casa. “Eu era criança. Meus pais botavam a gente pra dormir muito cedo. Ouvi uma discussão e desci pra ver o que era. Eu vi meu pai enforcando a minha mãe contra a parede. Foi horrível”, recorda-se.

Ela também descreve um ambiente de ausência completa de diálogo em temas íntimos. “Eu nunca conversei sobre sexo com a minha mãe. Nenhuma vez. Zero”, contou. O lar, diz, era marcado por um distanciamento progressivo. “Eu e meu irmão fomos ficando invisíveis dentro de casa”, narrou Suzane. Nesse cenário, ela afirma que criou com Andreas von Richthofen, de 14 anos na época do crime, um mundo próprio, separado dos pais. “Era um refúgio nosso dentro de casa”, definiu.

No depoimento, Suzane afirma: “Minha família não era família Doriana. Longe disso. Meus pais construíram um abismo entre nós”. Em outro momento, diz que “esse espaço vazio foi ocupado pelo Daniel”.

Ela sugere, portanto, que tal cenário abriu caminho para a relação com Daniel Cravinhos, que acabaria condenado pelo mesmo crime. Sem afirmar diretamente, Suzane constrói uma narrativa em que a relação familiar degradante aparece como pano de fundo para o duplo homicídio.

Manfred e Marísia foram assassinados a pauladas em 31 de outubro de 2002. O homicídio foi planejado pela filha do casal e executado pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos. “Eu não construí a arma do crime. Não tenho nada a ver com isso”, ressaltou.

Na narrativa de Suzane, a ruptura familiar se aprofundou à medida que o namoro com Daniel se consolidava. “O Daniel passou a ocupar todos os espaços da minha vida”, disse. Ao mesmo tempo, de acordo com ela, crescia a resistência dentro de casa. A mãe criticava o relacionamento de forma direta. “Ela falava que ele ia me puxar para o fundo do poço”, afirmou.

A partir daí, instala-se uma vida dupla. “Eu saía de casa dizendo que ia pro karatê, mas ia pra casa do Daniel”, contou. “Escondida dos meus pais, conheci todo o litoral de São Paulo. A gente alugava carro e seguia viagem. O Daniel me mostrou o mundo que eu queria viver”, prosseguiu.

As mentiras se acumularam até serem descobertas. “Virou uma guerra dentro de casa. Qualquer coisa era briga”, relatou. O conflito com o pai escalou até a agressão física. “Ele me deu um tapão na cara tão forte que meu rosto virou pro lado”, revelou.

O ponto de virada, segundo ela, aconteceu quando os pais viajam por 30 dias para a Europa, e Daniel se mudou para viver com ela dentro da casa da família. “Foi um mês de liberdade total. Um sonho que eu não queria que acabasse. Era o dia inteiro de sexo, drogas e rock ’n’ roll”, recordou. “Aquele mês mudou tudo na nossa vida”, afirmou, em um dos momentos nos quais chega a rir ao relembrar episódios do período.

No relato de Suzane, a ideia do crime não surgiu de forma direta, mas foi sendo construída aos poucos. “Nós não falávamos em matar meus pais. A gente dizia que seria muito bom se eles não existissem”, descreveu.

O duplo homicídio, assim, foi ganhando forma até se tornar concreto. Ainda assim, ela tenta se afastar do planejamento, embora reconheça o ponto central da própria participação. “Eu aceitei. Eu os levei pra dentro da minha casa”, pontuou Suzane. E conclui, direta: “A culpa é minha. Claro que é minha”.

Sobre a noite do crime, Suzane sustenta que não participou diretamente da execução. Diz que permaneceu no andar de baixo, tentando se desligar do que acontecia no pavimento superior, onde os pais dormiam. “Eu fiquei no sofá, com a mão no ouvido para não escutar nada”, contou, admitindo, no entanto, que tinha consciência do que estava em curso: “Eu sabia”.

Em outro momento, ela classificou o próprio estado de espírito no momento da execução como “dissociado”. “Eu não estava em mim. Era como um robô, sem sentimento”, comparou. Ao mesmo tempo, reconhece que poderia ter interrompido o assassinato dos pais. “Se eu parasse pra pensar, aquilo não aconteceria. (...) Quando tudo terminou, o impacto veio de forma imediata. Não tinha mais como voltar atrás. O que eu fiz não tem mais volta”, reforçou.

Durante todo o documentário, Suzane pouco é confrontada. Em um dos raros momentos de questionamento, a delegada Cíntia Tucunduva afirma que, no intervalo entre o crime e a identificação de Suzane como mandante, uma equipe do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa foi até a casa da família e a encontrou em uma festa, de biquíni, com um cigarro na mão e uma lata de cerveja. Segundo a polícia, Suzane apresentou o imóvel como se fosse um museu, afirmando que ali havia ocorrido um crime.

Ao ser exposta ao relato, Suzane contesta a versão da delegada. Afirma que seria absurdo imaginar a realização de um evento do gênero logo após a morte dos pais. “Não tinha a menor condição de fazer uma festa naquela casa. A casa estava com cheiro de sangue”, diz.

A obra tem o título provisório de "Suzane vai falar". No último feriadão, fãs de true crime de todo país passaram a se reunir para assistir ao material. Várias imagens de Suzane dando entrevista foram postadas nas redes sociais, inclusive uma em que ela está na praia.

Um dos pontos que chama atenção de quem já teve acesso ao conteúdo é a exposição da vida atual de Suzane. Ela aparece ao lado do marido, o médico Felipe Zecchini Muniz, que no próprio documentário relata ter entrado em contato com ela pelo Instagram para encomendar para as três filhas sandálias que Suzane customizava. A partir desse contato, os dois passaram a se relacionar. As filhas do médico também aparecem no filme, em cenas domésticas como quando surgem ajudando a decorar a casa para o Natal. Suzane também exibe o filho pequeno, reforçando a construção de uma nova vida familiar.

No trecho final, Suzane tenta estabelecer um rompimento definitivo com o passado e com a própria imagem associada ao crime. Afirma que a mulher que participou do assassinato dos pais deixou de existir. “Aquela Suzane ficou lá no passado. A sensação que eu tenho é que ela morreu junto com os meus pais”, comparou. Segundo ela, hoje é “uma outra pessoa”, transformada ao longo dos anos.

Ao falar de fé e redenção, Suzane diz que encontrou no filho a prova concreta de que o passado ficou para trás. “Quando eu olho para o meu filho, eu tenho a certeza de que Deus me perdoou”, elucubrou.

Ainda assim, a assassina condenada reconhece que não consegue escapar da própria história. “Você entra num lugar e parece que o ar para. Todo mundo olha. ‘Olha, a Suzane’”, relatou, com ar de celebridade. Ela diz ser constantemente reconhecida e fotografada, inclusive em situações banais do dia a dia. “Quantas fotos minhas, às vezes, no supermercado... a pessoa tirando foto”.