Política

Lula e Trump se reúnem hoje: do PIX ao crime organizado, o que está em jogo

Presidentes do Brasil e dos EUA se reúnem nesta quinta-feira (7), na Casa Branca; Terras raras, conflitos globais e eleições também estão no radar do encontro

Por G1 07/05/2026 09h09 - Atualizado em 07/05/2026 09h09
Lula e Trump se reúnem hoje: do PIX ao crime organizado, o que está em jogo
Trump e Lula durante encontro na 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático - Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

O presidente Lula (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se reúnem nesta quinta-feira (7), em Washington. Os dois devem discutir temas econômicos e de segurança, segundo fontes dos governos brasileiro e norte-americano.

Contexto: Esta será a segunda reunião presencial entre Lula e Trump. Em outubro, os dois se encontraram durante um evento na Malásia. Um mês antes, conversaram rapidamente durante a Assembleia Geral da ONU.

Antes do encontro, Lula e Trump falaram por telefone na sexta-feira (1º). O governo brasileiro disse que a conversa foi "amistosa".
Nesta quinta-feira, Lula será recebido por Trump na Casa Branca por volta das 11h (12h, em Brasília).
Em seguida, os dois farão declarações à imprensa por cerca de 30 minutos no Salão Oval, segundo agenda divulgada pelo governo norte-americano.
Depois, os presidentes participarão de um almoço, no qual devem discutir temas de interesse dos dois países.

Segundo apuração da jornalista Raquel Krähenbühl, da TV Globo, o encontro será uma “visita de trabalho”, formato menos formal do que uma reunião bilateral tradicional.

A reunião é vista como um passo para normalizar as relações comerciais entre os dois países, após os EUA aplicarem tarifas contra produtos brasileiros e sanções contra autoridades nacionais.

Pelo menos cinco temas devem centralizar as conversas:


- Combate ao crime organizado
- PIX
- Geopolítica e conflitos globais
- Terras raras
- Eleições

Veja a seguir detalhes de cada um dos assuntos.

1. Combate ao crime organizado


O governo dos Estados Unidos está analisando uma possível medida para classificar as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas.

Fontes ligadas ao governo Trump que atuam no Brasil afirmam que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, defende que facções brasileiras também sejam classificadas como terroristas, como já ocorreu com grupos do México e da Venezuela.

O tema já foi discutido por autoridades norte-americanas e brasileiras em reuniões anteriores e deve voltar ao foco no encontro entre Trump e Lula nesta quinta-feira.

Uma apuração do jornalista Gerson Camarotti, publicada pelo g1, aponta que Lula pretende convencer Trump a não tratar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. 

Segundo auxiliares, o petista quer deixar claro que o Brasil trata o crime organizado como prioridade e aposta na cooperação bilateral como caminho para enfrentar o problema.

A avaliação no Palácio do Planalto é que a classificação como grupo terrorista abriria margem para ações mais duras dos Estados Unidos.

Em um cenário extremo, os norte-americanos poderiam usar esse argumento para conduzir uma operação militar no Brasil, como já ocorreu em outros países.

2. PIX


Atualmente, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) conduz uma investigação contra o Brasil por supostas irregularidades em práticas comerciais. O PIX está entre os itens analisados.

Segundo o governo norte-americano, o sistema brasileiro é visto como uma ameaça a empresas dos EUA, por criar desvantagens para serviços de pagamentos eletrônicos, como cartões de crédito.

O Brasil já informou às autoridades americanas, no âmbito das investigações, que o PIX não discrimina empresas dos Estados Unidos e destacou que até gigantes de tecnologia, como o Google, já utilizam a ferramenta.

O tema tem sido usado pelo governo como símbolo de defesa da soberania nacional.

Em um evento em abril, Lula disse que o "PIX é do Brasil" e criticou a investigação conduzida pelos Estados Unidos.
O governo brasileiro deve aproveitar a reunião para tentar convencer Trump a não adotar medidas contra o país por causa do PIX.

O vice-presidente Geraldo Alckmin disse, em entrevista à GloboNews, que vê o encontro como uma oportunidade para esclarecer o funcionamento do PIX e buscar um “bom entendimento” entre os dois países.

3. Geopolítica e conflitos globais


Lula e Trump têm adotado posições divergentes sobre conflitos globais. O Brasil, por exemplo, condenou ataques realizados pelos Estados Unidos à Venezuela e, mais recentemente, ao Irã.

Em abril, em entrevista à revista alemã Der Spiegel, o presidente brasileiro criticou Trump e disse que o norte-americano não pode "ameaçar outros países com guerra o tempo todo".

Além disso, Lula repetiu uma declaração feita em 2025, após o tarifaço, ao afirmar que Trump não foi eleito "imperador do mundo".
Lula também tem defendido o fortalecimento da ONU, em vez de posturas unilaterais.

O presidente foi convidado a integrar o Conselho da Paz criado por Trump, mas ainda não aceitou. Em janeiro, em conversa telefônica com Trump, Lula propôs mudanças no grupo.

A situação de Cuba, com os Estados Unidos pressionando e ameaçando o regime de Havana, também pode ser discutida. O Brasil vê com preocupação a situação humanitária da ilha, que piorou após o governo norte-americano adotar medidas para restringir o envio de petróleo ao país.

4. Terras raras


A exploração de minerais críticos e terras raras deve entrar na pauta da reunião. O Brasil tem uma das maiores reservas no mundo e vê esses recursos como estratégicos para a transição energética, a digitalização da economia e o avanço da inteligência artificial.

O governo brasileiro defende que esses recursos sejam explorados sob controle nacional, com parcerias que garantam transferência de tecnologia e desenvolvimento da indústria.

O Brasil já sinalizou que não pretende aderir a uma aliança proposta pelos EUA para o setor e deve priorizar acordos bilaterais com diferentes países.

A avaliação é que os norte-americanos buscam influenciar as regras do comércio global desses minerais, hoje concentrados principalmente na China.

Também pode entrar na conversa um acordo firmado entre o governo de Goiás e os Estados Unidos para exploração desses minerais, que gerou reação do governo federal.

A avaliação é que a iniciativa envolvendo Goiás não tem validade jurídica, já que o subsolo pertence à União, responsável por regular a atividade e firmar acordos internacionais.

Além disso, na véspera do encontro na Casa Branca, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com previsão de incentivo para estimular a exploração. O texto ainda será analisado pelo Senado.

5. Eleições


Segundo o blog da Andreia Sadi, Lula vai tentar transformar o encontro em um ativo político. O presidente busca um compromisso do governo Trump de que não haverá interferência dos EUA nas eleições de outubro.

Fontes do governo ouvidas pela jornalista afirmaram haver preocupação de que o Departamento de Estado, visto como mais ideológico e com interlocução com bolsonaristas, adote medidas que possam prejudicar Lula.

Um ataque direto de Trump não está no radar, mas o presidente brasileiro quer um compromisso informal de não interferência e de ausência de apoio a Flávio Bolsonaro (PL).

Além disso, ainda segundo o blog da Sadi, o encontro permitirá que Lula explore a imagem de liderança internacional.
A reunião pode funcionar como demonstração de força em um momento de desgaste interno.

A ideia é virar a página da derrota no Senado na indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal.