Política

Ex-banqueiro Daniel Vorcaro conta que liberou dinheiro para filme sobre Lula

Em áudio e documentos obtidos por VEJA, ex-banqueiro afirma ter pago os recursos em esquema com ex-tesoureiro do PT e o ministro Alexandre Padilha

Por 7segundos, com assessoria 09/10/2026 10h10
Ex-banqueiro Daniel Vorcaro conta que liberou dinheiro para filme sobre Lula
Daniel Vorcaro está preso no Complexo da Papuda, em Brasília - Foto: Reprodução / TV Lide

A VEJA teve acesso a relatos feitos pelo banqueiro Daniel Vorcaro nos quais ele revela ter negociado com o ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT), João Vaccari Neto o pagamento para conseguir acessar os cofres dos fundos de pensão de servidores federais controlados pelo petismo. Segundo conta o banqueiro em um áudio e em documentos obtidos por VEJA, seriam 30 milhões de reais em espécie, pagos por fora ao Instituto Lula. A Procuradoria não levou adiante o caso, com a justificativa de que não haveria provas da história, tendo em vista que os pagamentos teriam sido feitos em dinheiro vivo. A defesa de Vorcaro contra-argumentou, dizendo que o banqueiro teria provas como mensagens de WhatsApp, registros das pessoas que retiraram o dinheiro vivo e a relação de lugares e rotas usadas por operadores nas entregas do dinheiro. A história não foi adiante.

A confissão de Vorcaro envolve outros personagens graúdos do PT. De acordo com o banqueiro, a aproximação com o partido foi arquitetada por seu sócio, o então CEO do Master, Augusto Lima, que contou com o então líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner, para intermediar o primeiro encontro com Vaccari. Os fatos estão registrados num anexo levado à Procuradoria-Geral da República em junho passado — quando a segunda proposta de delação foi descartada. “O meu então sócio, Augusto Lima, através dos caciques do PT da Bahia, se reuniu com João Vaccari Neto. Nesse primeiro encontro ficou aventado que, para que houvessem votos suficientes para o nosso credenciamento junto aos fundos de pensão do Banco do Brasil, Caixa Asset e Previ, deveríamos fazer os seguintes adiantamentos: um pagamento por fora, ou seja, por espécie, na ordem de aproximadamente 30 milhões de reais para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e pagamento de valores ao ao Instituto Lula”, diz o banqueiro. O filme a que ele se refere é o documentário Lula, de Oliver Stone, que contou com depoimentos de amigos e aliados do presidente, como o advogado Walfrido Warde.

Além dessa primeira quantia, Vorcaro conta que Vaccari exigiu uma taxa de 10% de tudo o que o banco captasse junto aos fundos de previdência de servidores da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios. Se tudo tivesse dado certo, o petismo embolsaria 1 bilhão de reais. Vorcaro, por sua vez, faturaria 9 bilhões de reais na mesma operação. “Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele (Vaccari). É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara (Vaccari) pede para colocar dinheiro no filme do Lula”, explica Vorcaro num áudio sobre a negociação. O interlocutor do bilionário, impressionado com a revelação, argumenta que a situação se parece com o caso dos mais de 60 milhões de reais dados pelo banqueiro ao filme sobre Jair Bolsonaro, o Dark Horse. Vorcaro parece não concordar: “O filme do Lula eu coloquei acho que até mais (que o filme de Bolsonaro). Eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”.

Na confissão, Vorcaro conta que o então ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, Alexandre Padilha, o então secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, e dois operadores ligados à dupla também atuaram no esquema. “No fim de 2023 e início de 2024, formei uma equipe interna no Banco Master para captação institucional junto a novos produtos financeiros através dos fundos de pensão do Governo Federal… Com isso, eu logo passei a receber propostas espúrias (“as mordidas”) de políticos e emissários desses”, narra o banqueiro. Ele relata que o Master não perdeu tempo ao vislumbrar a oportunidade. Ao longo do primeiro semestre de 2024, partiu para a abordagem junto aos presidentes dos fundos estatais. Nessa fase, entra em cena um novo personagem. O contato de Vorcaro com presidentes dos fundos de pensão se dá com um operador petista identificado como “Júlio”, com livre acesso ao gabinete de Padilha no Planalto.

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro ajudaram a corroborar o relato de Vorcaro. Elas mostram que Júlio apresentou o banqueiro ao braço direito de Padilha no Planalto, Olavo Noleto. Essa aproximação foi exaltada numa mensagem de celular pelo empresário Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula e parceiro de Vorcaro em outros negócios. “Olavo me enviou mensagem falando que gostou muito de você”, escreveu Mares Guia. Na sequência, o banqueiro conta que foi pessoalmente ao Planalto conhecer Padilha e teve pelo menos dois jantares com o ministro enquanto tentava colocar em prática o esquema de negócios com os fundos das estatais. “Nesse dia, estavam também o assessor Olavo, Fernando, o primo desse Olavo, e o próprio Júlio. Nessa conversa, Padilha mais ouviu do que falou, mas afirmou que ‘o que eu tratasse com Olavo seria como se eu estivesse tratando com o próprio Padilha’”, diz Vorcaro. Depois dessa reunião, Vorcaro afirma que recebeu Júlio, Olavo e o seu primo Fernando foram em minha casa para uma conversa aberta: ‘só haveria um jeito de entrar na Previ, Petros e Postalis: mediante pagamento de propina também na ordem de 10% de tudo o que o banco captasse", diz.

Estabelecida a condição para acessar os fundos de previdência das estatais, Júlio começou a trabalhar a favor de Vorcaro. Mensagens no celular mostram que o banqueiro foi pessoalmente ao Postalis, em Brasília, se reunir com a cúpula do fundo e também conseguiu reuniões com Petros e Previ, a partir da ajuda de Padilha, via Olavo Noleto. O senso de urgência para fechar negócios com os fundos era grande. “O e-mail que pediram Petros”, diz Vorcaro em um dos diálogos ao operador Júlio, sobre o contato com a cúpula do fundo que ele havia feito, em 8 de abril de 2024. “Já repassei. Agora é o amigo com dever dele. Ontem estive com ele”, responde Júlio, referindo-se a Noleto. “O da Petros já foi? Cobrando?”, acrescenta Vorcaro. “Já sim”, afirma Júlio. “Vamos pressionar pra boletar (liberar o investimento). Postalis evoluiu?”, cobra Vorcaro no mesmo dia. “Evoluiu. Mandando e-mail também. Do BB essa semana resolve. Semana que vem reunião lá. Aí alinho contigo na sua agenda”, diz Júlio sobre Previ. “Vamos tentar concluir os que abrimos”, insiste Vorcaro.