Thiago Abel
Duas trajetórias, um legado ancestral: o Dia da Consciência Negra pelas vozes de duas Jéssicas.
Em Arapiraca e Salvador, as Jéssicas mostram que a ciência negra está viva nas escolas, nas unidades de saúde, na gestão, no jaleco e em todo lugar onde mulheres negras resistem, lideram e cuidam.
No Dia da Consciência Negra, o Brasil volta os olhos para histórias que reafirmam a força, a inteligência e a ancestralidade da população negra. Em Arapiraca e em Salvador, duas mulheres chamadas Jéssica — uma coordenadora pedagógica, outra enfermeira — mostram como suas trajetórias negras não apenas transformam seus espaços de trabalho, mas ecoam como parte viva da ciência negra que sustenta o país: a ciência que educa, que cuida e que resiste.
Jéssica Silva Alves, coordenadora: a gestão escolar como espaço de representatividade e reparação
Coordenadora da Escola Estadual Manoel André, em Arapiraca, Jéssica fala sobre o poder simbólico e prático de mulheres negras ocupando cargos de gestão educacional. Segundo ela, dirigir uma escola significa também ocupar um espaço historicamente negado.
“Estar no cargo de gestão tem a ver com representatividade. Minha vivência como mulher negra me permite promover políticas públicas de equidade na escola, baseadas na Lei 11.645, no Protocolo de Educação Antirracista e em todos os documentos que orientam uma escola que busca justiça racial.”
Para ela, ser mulher negra amplia tanto desafios quanto responsabilidades:
“Tudo que vivo e que sou atravessa meu olhar. Percebo os estudantes negros impactados pelo racismo e trago essa sensibilidade socioemocional para o centro da minha prática.”
Jéssica reforça que a valorização do povo negro não é apenas reconhecimento: é reparação histórica.
“A escola precisa ser um espaço democrático e reparador. A população negra teve o direito à educação negado por séculos. Quando implementamos cotas, protocolos, portarias e formações, estamos buscando uma equidade que foi historicamente sonegada.”
Jéssica França, enfermeira: ancestralidade, ciência e resistência no cuidado em saúde
Da educação para a saúde, atravessamos o país e chegamos a Salvador. Lá, outra Jéssica — enfermeira obstetra — fala da prática profissional como uma continuidade de algo muito maior que sua própria história: a ancestralidade negra que caminha com ela.
“Acredito muito que meus passos vêm de longe. Esse corpo já habitou outros espaços. Minha herança é espiritual, cultural e genealógica.”
Ela explica que a história da enfermagem negra — apagada pelo colonialismo — foi um dos primeiros motores de sua pesquisa e atuação.
Ao conhecer a trajetória da enfermeira jamaicana Mary Jane Seacole, apagada da história da enfermagem pela branquitude europeia, Jéssica percebeu que seu trabalho é também parte de uma disputa por memória e reconhecimento científico.
Sua prática se ancora em três pilares: a ancestralidade espiritual, a herança familiar — com tias e avós enfermeiras — e o samba:
“Sou uma mulher forjada no samba. Meu jeito de existir, sentir e cuidar vem dessa energia. Descobrir que Dona Ivone Lara também foi enfermeira só reforçou que a ciência negra pulsa em cada detalhe do meu trabalho.”
Desafios: invalidação, hipersexualização e o peso do racismo
A enfermeira também fala com franqueza sobre a violência estrutural que atravessa sua profissão:
“A primeira coisa é a invalidação do meu saber. Muitas vezes preciso repetir, comprovar e reafirmar minha competência — algo que profissionais brancos raramente precisam fazer.”
Ela relata que seu corpo é hipersexualizado, sua capacidade é questionada e suas conquistas, frequentemente atribuídas a outros:
“Se estou em um projeto com alguém branco, a ideia nunca é minha. Essa é a marca da branquitude atuando.”
O impacto emocional também é profundo:
“É como se a gente não pudesse errar. O peso é dobrado. O racismo é desumano porque exige da mulher negra uma performance incansável.”
Transformar cuidando e educando
Para ela, o caminho de enfrentamento é a educação:
“Eu não vejo outra forma de transformação que não seja pela educação. Formo novos enfermeiros para reconhecer e enfrentar o racismo institucional e para construir uma saúde realmente antirracista.”
Jéssica também utiliza suas redes sociais como ferramenta de conscientização e reparação:
“O Instagram virou um espaço para discutir saúde da população negra, autodeclaração, pertencimento e enfrentamento ao racismo.”
Duas Jéssicas, uma mesma linha: a ciência negra em movimento
As trajetórias dessas duas mulheres revelam algo profundo: a ciência negra está na sala de aula, no consultório, no jaleco, no planejamento pedagógico, no cuidado ancestral, no samba, na palavra, na escrita e na vida.
Elas mostram que o Brasil só avança quando a população negra avança.
Que a educação só é democrática quando é antirracista.
Que a saúde só é integral quando reconhece a pluralidade dos corpos.
Que o conhecimento só é completo quando incorpora memórias que antes foram silenciadas.
No Dia da Consciência Negra, as duas Jéssicas lembram que representatividade não é símbolo: é ferramenta de transformação. E que cada conquista de mulheres negras em espaços de poder é parte de uma longa linha ancestral que nunca se rompeu — apenas foi apagada, mas nunca deixou de existir.
Hoje, ela ressurge, forte, vibrante, orgulhosa. Essa é a ciência negra que constrói o Brasil.
Sobre o blog
✨ Thiago Abel Pantaleão Ferreira Bem
Professor pela Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) e pós-graduado em Psicopedagogia pelo IESC, Thiago Abel é mais do que um educador: é um contador de histórias reais da sala de aula.
Com uma trajetória construída entre a rede privada e o ensino público estadual, acredita que a educação é o espaço onde o conhecimento encontra sentido e transforma vidas.
Comunicador por essência, leva para o blog reflexões sobre aprendizagem, juventude e os desafios do mundo contemporâneo, traduzindo temas complexos de forma leve, atual e profundamente humana.
Para Thiago Abel, ensinar é um ato de esperança — e comunicar é o caminho para que mais pessoas acreditem que a educação ainda pode mudar o mundo. 🌍✏️
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