Thiago Abel

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E a caminhada até Brasília? Rendeu.

Caminhar pode ser saúde e também história — mas, no Brasil de hoje, algumas mobilizações parecem menos sobre o povo e mais sobre engajamento, blindagem e voto.

26/01/2026 14h02 - Atualizado em 26/01/2026 14h02
E a caminhada até Brasília? Rendeu.

      Que caminhar faz bem, ninguém tem dúvida. A circulação sanguínea, o coração, o sistema respiratório e até o cognitivo melhoram consideravelmente no indivíduo que caminha com frequência.
      Historicamente, as caminhadas são muito simbólicas. Passeatas coletivas sempre foram uma marca definitiva na busca por causas em que se acredita. É fato que tivemos algumas muito sombrias e negativas, principalmente pelo que se viveu a partir delas. Em 1921, a Marcha sobre Roma levou o regime liderado por Mussolini ao poder e abriu caminho para as atrocidades fascistas na Itália.
      A marcha de Luther King não apenas denunciou a criminosa conduta racial das instituições estadunidenses, como inaugurou uma onda de transformações, resultando em leis antissegregação que alteraram algumas regras do jogo e fizeram daquele país um lugar menos injusto. Aqui no Brasil, tivemos a famosa Coluna Prestes que, com o objetivo de angariar apoio para sua causa política, saiu em marcha para o interior do país e acabou se deparando com forte repressão estatal, o que eternizou confrontos épicos.

  O que vemos no Brasil hoje é muito pequeno diante dos acontecimentos históricos que relatei aqui. Os organizações já disseram que foram marcar pela liberdade do ex presidente Bolsonaro, não há qualquer enfeite no discurso, não é pelas liberdades, por mais empregos, por mais direitos aos trabalhadores, por uma carga tributária menor, por mais transparência no uso dos recursos públicos, é apenas pela liberdade de um dos deles.

      Hoje, não se faz política por convicção, mas sim pela possibilidade de agradar, proteger e blindar os seus. É legítima a caminhada liderada pelo deputado Nikolas? Sim. Mas o que ela escancara é exatamente o oposto da mobilização política necessária para a mudança do país. Os parlamentares que acompanharam a marcha não têm um histórico de defesa de questões sociais, e isso não sou eu quem diz, são as dezenas de comentários postados nas matérias divulgadas nas redes sociais sobre o tema. A desconexão com questões como salários, jornadas de trabalho, direitos trabalhistas, benefícios sociais, a ausência de representação de minorias nos discursos, projetos de lei que não geram impacto real na vida das pessoas e a lentidão — às vezes o travamento — em decisões urgentes, como a revisão da tabela do imposto de renda e a escala 6x1, põem em xeque a narrativa de que é “pelo povo” e “em nome do povo”.
      A exposição de pessoas humildes, o privilégio de alguns em poder ficar dias sem trabalhar para “marchar” pelas pistas, a ausência de regramento junto a órgãos como a PRF, a falta de cuidados básicos com a segurança dos participantes, as horas embaixo de chuva — que tiveram como uma das consequências a queda de um raio que atingiu ao menos 30 pessoas concentradas sob a tempestade —, a esperança nos “Messias”, tal qual na época das famosas “mais 72 horas” na porta dos quartéis, que culminaram no 8 de janeiro de 2022, e a irresponsabilidade de expor uma criança dependente de oxigênio no colo de um homem sujo para orar por ela como se fosse um santo, revelam como os que conduzem esses movimentos não estão muito preocupados com as consequências negativas na vida das pessoas daquilo que intitulam “luta pelo país”. Estão ali pelo engajamento, pela lacração, pelos recortes e, principalmente, pelo voto.
      O sentimento que fica, diante de tantas complexidades políticas, é que há pouquíssima gente pensando realmente no povo e em suas questões. Os escândalos se sucedem, a corrupção continua sendo o aspecto mais democrático da nossa política, lideranças de diferentes segmentos sociais aparecem com frequência nos noticiários envolvidos em mamatas e conluios. Enquanto isso, alguns mais “descolados” conseguem surfar na onda, se blindar e seguir sua própria, impactante e longeva marcha dos privilégios.

Sobre o blog

✨  Thiago Abel Pantaleão Ferreira Bem
Professor pela Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) e pós-graduado em Psicopedagogia pelo IESC, Thiago Abel é mais do que um educador: é um contador de histórias reais da sala de aula.

Com uma trajetória construída entre a rede privada e o ensino público estadual, acredita que a educação é o espaço onde o conhecimento encontra sentido e transforma vidas.

Comunicador por essência, leva para o blog reflexões sobre aprendizagem, juventude e os desafios do mundo contemporâneo, traduzindo temas complexos de forma leve, atual e profundamente humana.

Para Thiago Abel, ensinar é um ato de esperança — e comunicar é o caminho para que mais pessoas acreditem que a educação ainda pode mudar o mundo. 🌍✏️

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