Garis devolvem celular encontrado em rua de Maceió
Não foi preciso utilizar aplicativo de rastreamento ou qualquer outro programa de localização para a jornalista Meline Lopes recuperar o celular perdido durante a reportagem que fazia na manhã dessa segunda-feira (25), no bairro de Jaraguá. O aparelho voltou às suas mãos graças a uma antiga, e por vezes esquecida, conduta de caráter: a honestidade. Os responsáveis por esse verdadeiro exemplo de humanidade e cidadania foram os garis Gilson Viera da Silva, 33, e Sidyneis Barbosa dos Santos, 37.
A dupla, a serviço de Superintendência de Limpeza Urbana de Maceió (Slum), encontrou o telefone no chão, próximo à Praça Marcílio Dias, enquanto realizava o trabalho diário de varrição e recolhimento de pequenos resíduos. Ao apanharem o celular, eles deduziram que a dona seria Meline, uma vez que o aparelho estava próximo ao carro da reportagem que acabara de estacionar.
“Chamamos uma pessoa que trabalha no local onde ela entrou – a Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC) – e pedimos para entregar”, relatou Gilson, que ao lado de Sidyneis trabalha na região do Jaraguá de segunda a sábado, sempre das 05h às 13h20. A dupla, que atua há um ano e três meses como gari, também auxilia nos trabalhos de limpeza da orla da Praia da Avenida.
E eis a grandeza da história toda. Em uma profissão tão discriminada, por vezes, invisível, surge uma lição de vida surpreendente. Um ato digno da nobreza de caráter.
Na manhã desta terça-feira, eles se reencontraram com Meline no mesmo local do dia anterior. A jornalista, agradecida, fez questão de cumprimentar mais uma vez os agentes de limpeza. “Na hora, eu fiquei tão nervosa e emocionada com a situação, que esqueci até de pegar o contato deles”, comentou. “Não é nem pelo valor financeiro, mas pela atitude. Por saber que ainda existem pessoas assim. Um exemplo como esse nos faz continuar acreditando na humanidade”, frisou.
Quem avistou o celular primeiro foi Sidyneis. “Eu imaginei que era dela devido à posição junto ao carro da reportagem”, relatou. Mesmo assim, o gari não tinha certeza e por que resolveu entregar? “Não era meu”, respondeu, de modo decisivo. “Não era meu. Eu não preciso do celular de ninguém. Eu tenho o meu. Tenho o meu trabalho para comprar o meu celular”, reforçou Gilson, o colega de farda.
Questão de educação
Gilson mora com os pais, no bairro da Levada. Na garagem de casa, o gari trabalha como autônomo na parte da tarde na própria oficina para conserto de bicicletas. Assim como já aconteceu com Sidyneis, essa não foi a primeira vez que ele achou objetos e documentos enquanto trabalha na limpeza da cidade. “Já achei documento de carro, carteira de motorista e outros documentos. Sempre entreguei tudo”, garantiu Gilson.
Já Sidyneis mora no Clima Bom com esposa e um casal de filhos. Nas vezes em que chegou em casa e contou para a companheira sobre os achados, a reação da mulher foi sempre a mesma. “Ela aprova. Diz que eu tenho que entregar mesmo”, revelou. “Eu já achei carteira e dinheiro aqui em Jaraguá. Sempre entreguei tudo. Dentro de um ônibus, achei uma carteira com R$ 1.800 e devolvi com tudo dentro. Entreguei ao dono no estacionamento de Jaraguá com todo o dinheiro dentro”, disse. Nesse último caso, o gari ganhou uma recompensa de R$ 200.
“Meu comportamento é fruto da educação. Minha mãe sempre conversava comigo e dizia: ‘Passou por algum canto e viu algo perdido, deixe lá que tem dono e ele está procurando. Sempre que puder, ajude. Mas não pegue aquilo que não é seu’”, lembrou ele que, além de dar o exemplo, ensina uma nobre lição para todos nós.
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