"Fui criada praticamente no quarto de empregada", conta Regina Casé
No filme "Que horas ela volta?", a personagem Val é uma mulher que sai do interior de Pernambuco, onde deixa uma filha pequena em busca de emprego na cidade de São Paulo. Na capital paulista, ela passa a trabalhar como babá de um menino e cria como se fosse sua criança. A trama na telona é ficção, mas conta a história de muitos brasileiros.
Protagonista do longa da diretora Anna Muylaert, Regina Casé conhece uma "Val" bem de perto. "Quando eu tive a minha filha Benedita, que hoje tem 26 anos, vivi um caso igual. Contratei a Ana para trabalhar na minha casa e descobri que ela tinha deixado um filho no Maranhão. Por alguns anos fiquei aflita com essa situação, até que trouxe o Carlos Henrique. Hoje, ele é fotógrafo na produtora do meu marido, Estevão", explicou Regina.
Na pré-estreia de "Que horas ela volta?", na última terça (25) no Rio de Janeiro, Regina fez questão de levar boa parte de sua equipe de funcionários: uma babá, uma camareira e o motorista. "Tenho bastante pessoas trabalhando na minha casa, acho que até mais do que eu precisaria, mas eles fazem parte da minha família, do meu círculo de amigos e não tem como não tê-los mais por perto", explicou a atriz que lembrou ter sido criada praticamente no quarto de empregada.
"Meus pais trabalhavam o tempo todo, e eu fui criada pelas mulheres que trabalhavam lá em casa. Eu ficava mais nos quartos delas do que no meu, porque elas tinham que arrumar as coisas e tomar conta de mim ao mesmo tempo. Fui criada no quarto de empregada. Isso fica na memória. Essa relação próxima vai se perdurando e se enraizando na família. Nossos funcionários sempre foram e vão ser amigos, parentes, compadres e por aí vai", disse a apresentadora do programa "Esquenta" da TV Globo. A reportagem tentou conversar com os funcionários de Regina Casé, mas eles foram orientados a não darem entrevistas.
A atriz Lília Cabral é da mesma opinião de Regina Casé e acha que essa cultura de agregar os domésticos ao núcleo familiar é uma coisa típica brasileira. "A gente herdou dos séculos passados essa prática de ter serviçais para ajudar, auxiliar nos trabalhos domésticos. Em muitas famílias, essa relação é carinhosa, respeitosa e de consideração mútua que se esquece dessa divisão de classes entre patrão e empregado. Tenho a babá da minha filha que está há 17 anos comigo e ela é minha amiga. Não tenho pai, não tenho mãe e nem irmãos que poderiam cuidar da minha filha quando ela era pequena e eu tinha que trabalhar. Ela cuidou, ela me ajudou na criação e eu sou muita agradecida", admitiu Lília.
De férias desde o fim da novela "Império", Lília revelou que procura incentivar suas funcionárias a evoluir na vida pessoal e profissional. "Não se perde o que não se tem, não é verdade? E nesse caso de você desejar o melhor para próximo, é só ganhar", contou a atriz que foi elogiada pelo colega Luís Miranda pela atitude. "Ainda bem que existem pessoas que pensam no bem do outro."
Sem empregada doméstica há um tempo no Rio, já que possui uma diarista, o ator acredita que a cultura de ter um trabalhador em casa sempre vai existir em qualquer lugar do mundo. "Toda a vez que você excede em trabalho, você precisa de alguém, e isso se chama terceirização. Entendo isso de uma maneira muito comum, inclusive, acho importante essa relação para que a sociedade de uma maneira geral subsista e que o dinheiro circule. Quando existe respeito, troca, amizade e até essa coisa mais íntima, de ser parte da família, eu acho bem bacana e acredito que isso possa acontecer. O ruim é quando a relação é escrava e isso, infelizmente, ainda existe", observou.
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