Globo e suas novelas não entendem mais o Brasil atual
Dennis Carvalho, diretor de “Babilônia” na Globo, declarou publicamente que o conservadorismo atual tornaria impossível o sucesso de tramas icônicas do passado na emissora, como “Vale Tudo”.
Repetindo o ar de profecia, atores e diretores jogam para o telespectador o motivo de “A Regra do Jogo”, novela das 21h da dobradinha pop João Emanuel Carneiro e Amora Mautner, não ter deslanchado, enquanto tem em seus calcanhares a trama bíblica da Record, “Os Dez Mandamentos”.
Este ser abstrato, o telespectador, é então esmiuçado por pesquisas de opinião. Questionado, examinado, cutucado, desnudado, as respostas caem em uma espécie de senso comum que deixa os pesquisadores ainda mais perdidos. “O público está cansado de maldades”, “ele quer histórias mais leves”, “quer sonhar”, “assistir à TV com a família”.
Tal espiral de vontades, no entanto, parece não encontrar eco na realidade: baseada na saga de Moisés para libertar os judeus do domínio egípcio, “Os Dez Mandamentos” mergulha com gosto, ainda que sob uma direção caricata, na crueza do Velho Testamento (pragas, doenças, filhos mortos diante dos pais, águas que se tornam sangue).
Na outra ponta, a novela das 23h da Globo, “Verdades Secretas”, levou ao ar, em ritmo de videoclipe, um enredo recheado de incesto, estupro, consumo de drogas e desilusões, com direito a suicídio explícito no final. Mesmo assim, batia recordes de audiência no horário ao mesmo tempo em que incendiava as redes sociais.
Sempre orgulhosa em perceber tendências de sua época e a traduzi-las através da sua teledramaturgia, a Globo parece vacilar neste quesito atualmente, detectando com rapidez o gosto popular, mas também demorando em captar a sua saturação.
Por exemplo, a mesma euforia econômica que colocou os bailes funk, o morro e seus personagens no topo da programação, agora mostra sinais de desgaste, sendo grande parte da grade da emissora carioca ocupada por programas focados nestas temáticas, como “Esquenta”, “I Love Paraisópolis”, “Chapa Quente”, “Pé na Cova”, além das novatas “Mister Brau” e “A Regra do Jogo”.
Contribuindo para a fragmentação da audiência, há a imensa oferta de canais, programas e plataformas disponíveis para se assistir a todos os tipos de enredos, desde as novelas até as mais obscuras séries americanas.
As diferenças de gostos, público e faixa etária não seguem mais a janela imóvel da programação manhã-tarde-noite, mas sim, se movimentam em um espectro largo de preferências, pois o telespectador está cada dia mais móvel, diluído, dividindo a atenção entre todas as telas.
Pode ser que a sacada da Record tenha sido detectar um público bastante específico, mesmo que ligado aos interesses religiosos da Igreja Universal, e investido nele, assim como o SBT se especializou em tramas infanto-juvenis, e a Band parece seguir o caminho da teledramaturgia importada, água com açúcar, mas bem produzida. Ou seja, o telespectador multifacetado, difícil de ser moldado em grupos de pesquisa.
Para quem se pretende há décadas compreender e guiar o gosto popular de um país amplo como o Brasil, a Globo aparentemente perdeu o caminho em algum ponto do eixo Rio-São Paulo. Mas não as capitais complexas e cheias de ângulos de “Verdades Secretas”, e sim, aquelas onde um sol artificial sempre brilha ao som de Valesca.
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