O homem-parque do Sumaré: aos 93 anos, morador mantém 'Disney' gratuita em SP
Adalberto Bueno é amante do anonimato, mas não merece ter o nome escondido
Adalberto Bueno tem 93 anos e mais de 500 filhos. Dois deles biológicos. Todos os outros, com idades diversas e documentados religiosamente em uma caderneta, são de coração. No bairro do Sumaré, zona oeste paulistana, ainda não pavimentado da década de 1960, ele viu a oportunidade de transformar o terreno da família em área de lazer para as 32 crianças da vizinhança. Capinou mato, construiu um pequeno castelinho de madeira e, em um dia de Santo Antônio, inaugurou a Criançolândia, parquinho responsável pela diversão de centenas de crianças.
Fã do anonimato, ele batizou o espaço sem contar com a sutil democracia infantil que decidiu: o termo criançolândia não estava com nada. Um mês de insistência foi necessário para ele finalmente ceder aos pedidos e transformar o nome do parque. “Até evitei de fazer uma placa para ver se eles desistiam, mas não desistiram. Eles mesmo pegaram pedaços de eucatex e escreveram lá “ Adalbertolândia ”, lembra. Cinco décadas se passaram. Adalberto e a sua Disneylândia tupiniquim continuam de pé em São Paulo.
O publicitário aposentado fala do parque como se fosse um filho. Não é por menos. Tudo foi idealizado e produzido por ele. Do portão colorido ao carrossel reformado, passando pelos caminhos da floresta, gangorras, lixeiras e cada pequena planta. Exatamente 50 anos após abrir o espaço, ele consegue dar às crianças dos anos 2010 a mesma liberdade de correr, brincar e explorar vivida por ele na infância em Sorocaba, no interior do estado.
A idade, inclusive, é algo que não pesa na vida do aposentado. Vê o relógio correndo e os anos até entrar em três dígitos passarem, mas, ao contrário de milhares de idosos, não precisa adicionar nenhum remédio à dieta diária equilibrada. “Tem gente que fica chateado em ficar velho, mas o pior é ficar velho doente”, garante.
O olhar sobre tudo aquilo construído por ele é atento e constante. Quando não está dentro do parque, fazendo os reparos necessários no local, o homem de cabeça quase careca observa da sacada de casa, do outro lado da rua, toda a movimentação. Ele mora no mesmo endereço com a esposa Verita há 60 anos e nutre uma rotina simples que envolve exercícios diários, pedaladas aos fins de semana e tardes articulando as próximas invenções para melhorar o seu filho de árvores, madeira e concreto.
“Cresci vendo o senhor Adalberto sempre arrumando aqui, inovando ali, inventando alguma diversão nova”, lembra a vizinha Cláudia Avellar. Ela, um dos nomes cativos na caderneta de frequentadores do parque, ganhou até botton personalizado de frequentadora do espaço quando era criança. As anotações dos novos visitantes já não são tão frequentes, mas a ideia de que o parque atravessa gerações é concretizada todos os dias. “Tem uma senhora aqui na esquina que já tem bisneto de dois meses e diz que ele vai brincar no parquinho”, lembra Adalberto.
Para além da alimentação saudável, das pedaladas de quilômetros e do exercício diário, o quase centenário homem parece ter a vitalidade conectada à satisfação de ver os valores pensados por ele repassados para quem já esteve em seu recanto no Sumaré . “Eles viram o quanto a gente pode fazer com as próprias mãos, aprenderam a respeitar o que foi feito com tanto carinho e também que a gente está fazendo alguma coisa para os outros de graça, sem pedir nada de volta. Poder dar alguma coisa para o outro é uma graça que Deus dá”, garante.
Não faz sentido que seu Adalberto pense em quem vai “herdar” a sua amada criançolândia quando ele partir. O espaço físico pode - e deve - continuar a existir, mas o carinho injetado por ele naquele espaço nunca poderá ser equiparado. Ele é único criador, provedor e mantenedor da sua Adalbertolândia . Ali, nos menores detalhes, nas varridas de chão e em cada muda plantada, homem e parque se retroalimentam como um organismo vivo.
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