Dados sobre Covid-19 não são atualizados há um mês devido a apagão na Saúde
Últimos boletins foram feitos com informações inseridas até 6 de dezembro quando não havia Ômicron circulando no país; pesquisadores dizem estarem às cegas
Um dos principais boletins de monitoramento e vigilância no combate à pandemia da Covid-19 no país, o InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), está há um mês sem poder ser feito em consequência do apagão no sistema do Ministério da Saúde.
A última atualização do boletim foi feita com base nos dados inseridos até o dia 6 de dezembro de 2021. De lá para cá, os pesquisadores afiram estarem às cegas.
O problema também afeta o MonitoraCovid, da Fiocruz. O boletim, aberto ao público, ajuda a mostrar o panorama de casos de Covid-19 no país. Esses dados são fundamentais para ajudar a orientar governadores e prefeitos e demais gestores a criarem estratégias e medidas eficazes para conter o avanço do vírus.
O último cenário apontava como estavam os casos de coronavírus no Brasil no fim de novembro de 2021, quando ainda não tínhamos a Ômicron circulando por aqui. Até o momento, sem as informações atualizadas, não é possível observar a dinâmica desta nova variante no país.
O boletim do Observatório Covid-19, também da Fiocruz, é mais um impactado, pois se vale das informações geradas pelo Ministério da Saúde, para orientar e disseminar informações da pandemia baseadas em dados.
A Rede Vigilância Genômica também está afetada, já que o cálculo de amostras semanais de cada estado depende dos dados atualizados do SIVEP-Gripe para ser realizado adequadamente. Este, até hoje, está se baseando no cenário do fim de novembro.
À CNN, o Ministério da Saúde alegou, em nota, que as plataformas e-SUS Notifica, Sivep-Gripe, SI-PNI e Conecte SUS foram restabelecidas, possibilitando a inclusão de dados por estados e municípios. Porém, informa que “alguns dos dados lançados podem ainda não constar nas interfaces dos sistemas”, sem dar detalhes das razões deste problema.
Pesquisador do Observatório Covid-19 da Fiocruz, Raphael Guimarães lamenta os prejuízos da falta de dados em um momento crucial da pandemia. Para ele, quando não se dispõe da informação adequada e oportuna, “perde-se duas vezes”.
“Em primeiro lugar, porque a produção de estatísticas públicas é o que legitima um país a compreender seus reais problemas sob diversas dimensões, o que dá o tom do tipo de bem-estar social, estratégia econômica e priorização de questões políticas. Perde-se, no limite, a soberania nacional. Em segundo lugar, ao ignorar a situação real do momento, o gestor público enfrenta o dilema de tomar decisões absolutamente cego, entrando numa zona cinza em que prevalece a especulação sobre a robustez de análises de dados”, ressaltou.
Guimarães apontou ainda que este nível de incerteza é o maior desafio que se coloca, destacando que investe-se tempo e recursos “sem qualquer garantia de retorno para a redução das iniquidades e combate aos problemas sociais, agudos e crônicos”.
O coordenador do InfoGripe da Fiocruz, o pesquisador Marcelo Gomes, explica que a inserção dos dados foi, de fato, restabelecida como informou o MS, porém, o problema está no acesso a eles. Ou seja, no repasse dessas informações por parte do Ministério da Saúde para os pesquisadores e, consequentemente, para a realização dos estudos.
“Por isso que até hoje estamos sem receber repasse do Ministério da Saúde para atualizar o InfoGripe, que depende dos dados do SIVEP-Gripe que o Ministério da Saúde nos enviava semanalmente, e o próprio site do open datasus segue fora do ar”, disse ele, que explicou que “todo e qualquer sistema de análise que dependa dos dados do e-SUS Notifica (casos leves e positividade dos testes, por ex.), SI-PNI (acompanhamento da vacinação), do Sivep-Gripe (internações e óbitos por infecções respiratórias), e do SIM (mortes por todas as causas) que dependem do repasse desses dados pelo ministério ou da publicação desses dados no opendatasus estão comprometidos desde então”.
Em contato diário com membros do Ministério da Saúde, os pesquisadores da Fiocruz informaram que não ainda não há perspectivas para que a situação se normalize e os boletins e informes técnicos possam ser divulgados novamente. Segundo eles, esta pane no sistema por tanto tempo, como ocorre agora, é algo sem precedentes.
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