“Monocultura não aceita ‘também'”, defende escritora sobre amor livre
A escritora Geni Núñez é responsável por dois livros, ambos que abordam a pluralidade de relacionamentos e a não monogamia
Ativista indígena Guarani e psicóloga, a escritora Geni Núñez (foto em destaque) viralizou nas redes sociais e alçou a lista de mais vendidos da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano trazendo assuntos que costumam render polêmica em alas mais conservadoras da sociedade: a não-monogamia e o amor livre.
A escritora é responsável pelos livros Felizes Por Enquanto e Descolonizando Afetos, ambos da editora Paidós, selo da editora Planeta. No primeiro, a especialista celebra a pluralidade de vivências e as diversas maneiras de se relacionar com as pessoas e o mundo por meio da literatura e da poesia.
Já no segundo livro, Geni disserta sobre a sexualidade dos povos originários e suas pluralidades, além de desmistificar equívocos comuns a respeito da não monogamia e acolher pessoas que desejam viver as mais diferentes formas de amar.
“Eu fui percebendo, ao longo do meu ativismo, que a colonização tem esse movimento de imposição de um único jeito, uma única língua, uma única forma de ser e estar no mundo. E isso também aparecia para as relações. Eu fui atrás tanto de uma escuta oral dos mais velhos do meu povo, quanto também de uma pesquisa nas cartas jesuíticas. E foi um impacto muito grande para mim quando eu vi, por exemplo, que a ideia de adultério tinha sido, num primeiro momento, pensada para o adultério espiritual. Aquele povo que adorava outros deuses era um povo infiel, um povo adúltero”, explica ela.
A descolonização dos afetos envolve uma crítica a um modo imposto de relação, mas não só entre humanos, como também pela terra. Então a gente vai dizer que nós não somos donos da terra, dos rios, das florestas. Essa crítica a ideia de posse, de controle, vai além do humano.
Quanto as polêmicas em torno do amor livre e da não monogamia, Geni opinou: “Na época que teve o debate sobre a união estável de pessoas LGBT, os políticos que foram contrários não perderiam o direito de se casarem como heterossexuais. Mas a monocultura não aceita o ‘também’. Para esse grupo, não bastava que a família heterossexual fosse uma família dentre muitos no país, mas que ela fosse a única possível.”
“Essas outras sexualidades, diversidades, são sentidas como um ataque, uma ameaça. Se a única maneira de alguém se sentir amado e desejado é outras pessoas não serem amadas e desejadas ao mesmo tempo, então a beleza do mundo se torna um inimigo contra mim”, completa.
Sucesso na Flip
Geni Núñez viu sua pesquisa crescer ainda mais na Flip deste ano, evento do qual foi convidada pela programação oficial, quando seus dois livros foram parar na lista de mais vendidos da festa literária. “Eu falo desse assunto e pesquiso há mais de 10 anos, só que é mais recente esse interesse”, comemorou ela.
“Eu não tenho até hoje agência, produtores, eu não tenho indicações nesse meio. Alguém lê, comenta com outra pessoa. É um pouquinho mais lento, mas é algo que realmente eu sei que, se a pessoa comprou aquele livro, é porque veio mediada por alguma outra fonte, às vezes de uma conversa ou de um interesse pelo tema, que não é só porque está no hype”, relembra a autora.
Geni ainda pretende se aprofundar ainda mais nas redes sociais, para levar seus aprendizados e ensinamentos a outras pessoas: “Eu não sei mexer no TikTok, mas pretendo me aproximar. São outras vozes além da minha.”
O livro Descolonizando Afetos é de Geni Núñez, autora e ativista. Obra foi lançada pela editora Paidós, selo da Planeta
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