Drica Moraes brilha no teatro e fala das conquistas na profissão
Drica Moraes fala das conquistas na profissão, do aprendizado trazido pela maturidade e de como vê a vida após vencer a leucemia
Pérola é uma gema preciosa gerada por um molusco. Certas atrizes parecem forjadas da mesma matéria. E, quando reveladas, iluminam escuridões – sejam elas quais forem. Assim é com Drica Moraes. Essa atriz de gema preciosa não é somente uma das melhores da sua geração, mas do país. E, não por acaso, brilhou recentemente no cinema ao dar nova vida à Pérola, a personagem de Mauro Rasi (1949-2003) imortalizada nos palcos por Vera Holtz. E Drica dá, mais uma vez, provas da atriz que é em “Férias”, comédia na qual ela e Fábio Assunção fazem jus a uma das premissas do teatro: a de brincar. E, assim, divertem o público e – por que não? – um ao outro. “O Fábio é muito diferente de mim, e a mágica se dá a partir disso”, comenta a atriz, por telefone, nesta entrevista ao NEW MAG. A seguir, Drica fala sobre sua vida – matéria prima para seu trabalho – e das transformações trazidas pelo enfrentamento de uma leucemia, o que a fez repensar questões relacionadas ao trabalho e às liberdades conquistadas, temas presentes também no espetáculo. “A gente procura na vida a perfeição, e o que existe é o imponderável”, constata com a serenidade de quem não precisa provar mais nada a ninguém. Resta-lhe então brilhar – como as pérolas.
A peça fala sobre liberdades. Você tem hoje como artista liberdade de escolha?
Hoje, graças a Deus, tenho. Não venho de uma família de posses, não sou herdeira, sou mãe solo e tudo o que construí é fruto do meu trabalho. Não sou totalmente livre, e ninguém é, mas vivo uma vida simples. Não sou perdulária ou consumista. Tenho tranquilidade para minhas escolhas e esse é hoje um ponto importante para mim. Claro que nem sempre isso é possível. Às vezes você faz um trabalho que não tem a ver contigo, mas porque precisa. A vida nos exige providências o tempo todo, e cada um sabe de si.
Sua personagem é detida por atentar ao pudor. Chegou a “dançar” por cometer algum excesso?
Nunca fui uma pessoa de excessos, mas, na juventude, agente passa do ponto em algumas circunstâncias. Já bebi demais, paguei micos, mas sempre entre amigos. Minhas “cagadas” foram caseiras (risos). O importante é que nunca fiz mal a ninguém. Somos exagerados na adolescência, justo nessa fase em que somos preparados para a vida adulta. Essas transições são cruciais. Gosto muito de uma expressão do Mario Prata que é a da “envelhecença”, que é essa fase de preparação para a velhice, uma adolescência ao revés. Na adolescência, temos mais perguntas que respostas e, agora, será que temos mais respostas?
Você e Fábio divertem-se muito. O que ele te traz de mais genuíno como parceiro de cena?
O Fábio é muito diferente de mim, e a mágica se dá a partir disso. Somos de escolas diferentes. Ele traz esse viés do audiovisual, pensa em takes e closes, tem um jeito mais minimalista de atuar, mas a nossa química se dá aí, fora o fato de ele ser um ser sensível e amoroso. Funcionamos como uma dupla de clowns e damos à peça um tom de happening, de celebração da vida, e isso vem muito dele.
Vera Holtz me disse que sempre teve a intuição de que você deveria ser a Pérola. Até que ponto o fato de essa personagem ter estado associada a uma grande atriz representou um desafio ou uma intimidação?
Assisti à Vera em “Pérola” e foi um daqueles momentos em que a gente está no teatro e diz: é isso que eu quero fazer. Quando o Murilo (Benício) me telefonou fazendo o convite, não acreditei que alguém poderia se atrever a mexer naquilo, que, para mim, estava na esfera do sagrado.
A direção dele é muito sensível e a sua interpretação, sublime…
Um fator que me convenceu foi quando ele disse que o trabalho teria outra perspectiva e que, por isso, seria diferente. A Pérola é uma mulher do interior de São Paulo e eu tenho um ouvido bom para sotaques, então fui me aproximando dela numa construção que foi muito orgânica.
Você fez teatro em grupo e, ao longo de anos, integrou montagens memoráveis como a do Rei da Vela. Qual o principal aprendizado que fica dessa época?
Não tínhamos filhos e muitos de nós moravam ainda com os pais, o que nos permitia fazer toda uma imersão no universo de cada espetáculo e de cada autor. No caso de O Rei da Vila, ficamos meses estudando. Cada um recebia um tema e tinha que, a partir dele, preparar uma aula para o restante do grupo. Eram tempos diferentes, mas ainda é possível trabalhar assim.
Você enfrentou uma leucemia e, todos nós, uma pandemia. Qual o saldo desse aprendizado?
O de entregar os pesos ao mar. A vida é muito linda e muito difícil também. Quanto mais sensível se é, mais propenso se fica às dores do mundo. Fico sensibilizada quando alguém passa por um perrengue. Na vida fazemos escolhas o tempo todo, e a gente tem de escolher a alegria. Preciso de muito pouco para ser feliz.
Como é o seu dia a dia hoje?
Depois dos 40, a gente fica mais seletivo e introspectivo, né? Vivo uma vida simples, num estado que chamo de “piano” (numa alusão ao termo de leveza da música clássica): durmo e acordo cedo e adoro fazer programas que começam e terminam cedo.
O Régis Faria foi um dos teus doadores de plaquetas. Vocês foram casados e são amigos. A empatia dele é tocante, né?
Ele é incrível mesmo. Não era sempre que ele podia doar e, diante disso, ele angariava amigos para essa missão. A gente não se vê muito, mas existe um afeto que é perene.
Walcyr Carrasco é o autor que mais entendeu a atriz que você é?
Não somente ele, mas os diretores com quem trabalhei. Fui levada a “Xica da Silva” pelo Walter Avancini. Já em “Chocolate com pimenta”, o Walter e o Jorge Fernando foram fundamentais. Já em “Verdades secretas”, o olhar do Maurinho (Mauro Mendonça Filho) fez toda a diferença. A escalação de um ator parte de uma decisão conjunta. Sou grata aos autores e também aos diretores.
O que gostaria de realizar no teatro e que ainda não foi possível?
Um monte de coisas! O teatro voltou de forma muito significativa. O cinema depende de toda uma parafernália para acontecer, e o teatro não… O teatro é a casa do ator, e eu quero tudo com o teatro.
Termino a entrevista com uma pergunta a partir da frase com que você abre a peça: a existência é uma utopia paranoica?
Adoro essa frase. A gente procura na vida a perfeição, e o que existe é o imponderável, o imprevisível.
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