Pagamento de propina é prática antiga do setor de carne, dizem executivos
Turbinado com empréstimos oficiais, o crescimento dos frigoríficos brasileiros não acabou com uma prática ilegal antiga no setor: o pagamento de propina para os fiscais da defesa agropecuária.
Executivos do setor disseram à Folha que a situação passou a causar incômodo na cúpula das maiores empresas quando começaram a crescer e que seus dirigentes tentaram coibir essas práticas.
Mas o esforço que os dirigentes de empresas como a JBS e a BRF teriam feito para eliminá-las não deu resultado e com o tempo foi deixado de lado, disseram os executivos.
Em notas divulgadas nesta sexta (17), as duas empresas negaram ter cometido irregularidades como as apontadas pela Polícia Federal.
Segundo os executivos ouvidos pela Folha, as grandes empresas sempre procuraram manter bom relacionamento com os fiscais, em troca de favorecimento na liberação de suas cargas em detrimento dos concorrentes.
Geralmente um fiscal é encarregado de vistoriar quatro ou cinco unidades diferentes em uma região agrícola. Hoje existem aproximadamente 2.300 fiscais.
Formada pela união de Sadia e Perdigão, a BRF decidiu adotar "tolerância zero" com o pagamento de propina a partir de 2010, enquanto enfrentava um delicado processo de aprovação da fusão pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
Pessoas próximas à companhia relatam que ela chegou a sofrer retaliações dos fiscais agropecuários, que deixaram de liberar suas cargas à noite ou em fins de semana.
A JBS decidiu tomar medidas sobre o assunto a partir de 2014. Executivos disseram à Folha que o presidente da empresa, Wesley Batista, convocou à época uma reunião de diretoria para avisar que a prática não seria mais aceita.
A companhia queria melhorar sua imagem, que estava desgastada por causa das críticas aos empréstimos concedidos pelo BNDES.
Com o crescimento e o investimento de milhões de reais em marcas, as empresas perceberam o dano que práticas ilegais poderiam provocar no mercado doméstico e no exterior. Nesta sexta-feira, as ações da JBS caíram 10,6%, e as da BRF, 7,3%.
Com o tempo, no entanto, os controles foram sendo afrouxados. Pressionados por metas de produção e exportação, os funcionários das unidades de abate no interior do país acabavam encontrando outras maneiras de se entender com os fiscais, dizem os executivos.
SISTEMA DE DEFESA
Criado há 40 anos, o sistema brasileiro de defesa agropecuária é coordenado pelo Ministério da Agricultura. Mas, a partir da Constituição de 1988, a União perdeu exclusividade sobre o tema e, a partir daí, surgiram agências estaduais.
O ministério também possui superintendências estaduais, cujo comando é usualmente preenchido por indicação de políticos da região. No Paraná, o servidor Daniel Gonçalves Filho ocupou o cargo por décadas e comandava a cobrança de propina, segundo a PF.
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