Hospital que testou Bolsonaro omite nomes de pacientes com o novo coronavírus
Bolsonaro afirmou na semana passada que poderá realizar um terceiro teste porque, como ele tem contato com muitas pessoas, pode já ter sido infectado
O Hospital das Forças Armadas (HFA) omitiu ao governo do Distrito Federal (DF) dois nomes em uma lista de infectados com o novo coronavírus. Uma lista de 17 infectados, sendo que 15 estão identificados, foi entregue ao governo do DF. O presidente Jair Bolsonaro foi uma das autoridades que fizeram exame no local, mas afirmou nas redes sociais ter testado negativo. O nome dele não está entre os 15 mencionados pelo hospital.
O Estado pede há dias à Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) que apresente os resultados do exames já feitos pelo presidente, mas até hoje não obteve resposta.
Procurado, o Hospital das Forças Armadas não respondeu. A Secretaria de Saúde do DF disse não ter manifestação.
Na última sexta-feira, a Justiça Federal atendeu a um pedido do governo do DF e determinou que o Hospital das Forças Armadas informasse imediatamente a relação completa de nomes dos infectados pelo novo coronavírus.
Bolsonaro afirmou na semana passada que poderá realizar um terceiro teste porque, como ele tem contato com muitas pessoas, pode já ter sido infectado.
"Deixo de informar à V Exa., neste documento, os nomes dos pacientes com sorologia positiva para a Covid-19, a fim de evitar a exposição dos pacientes e em virtude direito constitucional de proteção à intimidade, vida privada, honra e imagem do cidadão", escreveu o comandante do HFA, em ofício endereçado à Justiça Federal do DF e obtido pela reportagem.
Além de Bolsonaro, integrantes da comitiva presidencial que acompanharam o presidente da República em viagem aos Estados Unidos também fizeram exames no HFA. Ao todo, 23 pessoas que acompanharam o presidente já foram infectadas, testando positivo para o vírus.
Pandemia. Em sua decisão, a juíza Raquel Soares Chiarelli também impôs uma multa de R$ 50 mil ao diretor do hospital por paciente que tiver a informação sonegada. Além de Bolsonaro, integrantes da comitiva presidencial que acompanharam o presidente da República em viagem aos Estados Unidos também fizeram exames no HFA.
"Já é notório que a devida identificação dos casos com sorologia positiva para a Covid-19 é fundamental para a definição de políticas públicas para o enfrentamento urgente e inadiável da pandemia, a fim de garantir a preservação do sistema de saúde e o atendimento da população", escreveu a juíza em sua decisão.
"De modo que não se justifica, sob nenhuma perspectiva, a negativa da União em fornecer essas informações ao Distrito Federal, que tem competência constitucional para coordenar e executar as ações e serviços de vigilância epidemiológica em seu território."
Máscara. Depois de minimizar a pandemia e ignorar recomendações médicas de isolamento, Bolsonaro passou a tomar algumas precauções mínimas para não ser contaminado pela covid-19. Mas nem sempre as segue. Se na primeira entrevista que deu no Palácio do Planalto sobre a crise, na terça-feira passada, apareceu de máscara, não utilizou a proteção nas conversas com o apresentador Ratinho, do SBT, na sexta-feira, e com jornalistas da CNN e da TV Record, no fim de semana.
Na última segunda-feira, 23, ao falar a jornalistas sobre a reunião com governadores do Norte e Nordeste, no Salão Oeste do Palácio do Planalto, também apareceu sem o equipamento de proteção. A reunião foi feita via videoconferência com os chefes dos Executivos estaduais, mas em uma sala fechada com ministros e auxiliares. O mesmo ocorreu nesta terça-feira, 24, desta vez com governadores do Sul e do Centro-Oeste. Em vídeo da reunião divulgado nas redes sociais do presidente, é possível contar pelo menos 20 pessoas na sala -- apenas uma usando máscara.
A recomendação do Ministério da Saúde é que a máscara seja utilizada por quem apresenta sintomas de gripe ou resfriado, mesmo que não tenha sido diagnosticado com o coronavírus. A indicação é para evitar que, caso a pessoa esteja contaminada, não espalhe o vírus para outras pessoas.
Bolsonaro viajou aos Estados Unidos no início do mês e, após voltar, 23 pessoas que estiveram em sua comitiva tiveram diagnóstico positivo para a covid-19, incluindo auxiliares próximos, como o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, e o secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten.
Na semana passada, o ministro Luiz Henrique Mandetta justificou usar a máscara na entrevista ao lado do presidente e de outros ministros pelo fato de ter tido contato com Heleno na véspera de ele testar positivo.
O presidente realizou dois exames para saber se também foi contaminado e, segundo ele, os dois deram negativo. Entre um exame e outro, participou de manifestações de rua, no dia 15, quando teve algum tipo de contato com 272 pessoas, segundo levantamento do Estado. A reportagem pede há dez dias cópia do resultado dos testes ao Palácio do Planalto, que não respondeu até agora.
Questionado sobre o assunto em entrevista à CNN, no fim de semana, Bolsonaro disse que não teria problema nenhum em divulgar seus exames, mas considerou os pedidos como "intromissão". Segundo ele, caso algo ocorra com ele, haverá reflexo na economia.
"No caso do chefe do Executivo, eu tenho um tratamento especial. Se algo porventura vier a acontecer comigo, você mexe com a economia e isso não é bom para o País. No caso, o vírus para mim, se eu estiver sendo portador, não tenho problema nenhum em divulgar, eu não mentiria para o povo brasileiro. Mas não estou acometido pelo vírus. Acho que há uma intromissão, ingerência desproporcional na vida do ser humano.
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