Classe médica aprova prorrogação do isolamento social em Alagoas
Especialistas alertam que a população deve seguir em quarentena
Ainda não é hora de sair de casa. A prorrogação do Decreto Emergencial publicada na quarta-feira (10) pelo Governo de Alagoas mantém todas as restrições determinadas na versão anterior. Embora o governador Renan Filho tenha sinalizado com a possibilidade de iniciar o retorno gradual das atividades econômicas a partir do próximo dia 22 de junho, especialistas em infectologia, a Sociedade de Medicina de Alagoas (SMA) e a Associação Alagoana de Controle de Infecção Hospitalar (ALACIH) aprovam a manutenção das medidas, mas alertam que a população deve seguir em quarentena.
Para a infectologista Luciana Pacheco, integrante do Grupo Técnico de Enfrentamento à Covid-19 em Alagoas, o Governo do Estado acerta quando decide prorrogar o decreto vigente. “Acerta porque, de acordo com os dados epidemiológicos, o número de casos continua aumentando, principalmente no interior do Estado”, comenta a gerente médica do Hospital Escola Helvio Auto.
Uma abertura, ainda que gradual, do comércio e do setor produtivo a partir desta semana configuraria uma medida prematura, segundo a especialista. “As consequências seriam o aumento ainda maior de casos e a necessidade de leitos a ponto de colapsar o sistema de saúde. É preciso um planejamento efetivo desta ‘reabertura’”, pondera.
Especialista em infecção hospitalar pela Universidade de São Paulo (USP), a médica Maria Tereza Freitas Tenorio reconhece que a estruturação de unidades de saúde e a ampla abertura de novos leitos – tanto na rede pública quanto na privada – tiveram efeito positivo. “Que era esperado, de diminuir a aglomeração e o colapso nas emergências”, avalia a representante da ALACIH.
O que não se deve esquecer, segundo defende, é que o combate à pandemia sempre foi uma luta contra o tempo. “Precisamos que essa volta às atividades das áreas não essenciais seja feita de forma seletiva para termos mais tempo de nos organizar de modo bem estruturado. Só assim teremos condições de continuar assistindo aos cidadãos da melhor maneira possível”, diz Tereza Tenório.
“Não é fácil prolongar o isolamento social. Mas duas situações me chamam a atenção dessa circunstância. A primeira é que a pandemia ainda não está no seu fim – e isso deve ser levado em consideração de forma muito afirmativa”, aponta o médico Fernando Gomes de Andrade, presidente da SMA. “E segundo, que esse prolongamento irá conferir condições para que o grupamento médico envolvido no front da ação tenha condições de salvar mais vidas. Eu creio que, após o dia 22, teremos condições de voltar às ações em Alagoas de forma muito mais objetiva”, complementa.
Risco para a população
Com quase 80 dias de isolamento social, a população começa a dar sinais de inquietação e volta a tomar as ruas. O fato passou a ser observado em todo o Brasil. Em Santa Catarina, com o início da flexibilização, a adesão à quarentena caiu 25% na última segunda-feira (08) quando comparada com o início da pandemia.
Estados como São Paulo, Ceará e Minas Gerais ensaiaram começar um processo de abertura do comércio na semana passada, mas logo voltaram atrás e decretaram medidas mais restritivas de circulação e funcionamento ao identificar um novo aumento na taxa de ocupação de leitos.
“Voltar às ruas de maneira desordenada, como estamos observando em alguns locais é um risco para a população – tanto para os que se expõe quanto para os que estão tentando cumprir o isolamento como recomendado pelos profissionais de saúde”, certifica Tereza Tenorio.
Os especialistas lembram outro aspecto essencial na dinâmica de transmissão do vírus: as consequências do descumprimento das recomendações de isolamento e distanciamento social, do uso de máscaras e da higienização das mãos começam a aparecer somente depois de duas semanas. “A população não percebe esse efeito de imediato”, observa a médica.
Fiscalização
Em Alagoas, o governo vai intensificar a fiscalização – com foco ainda maior em cidades do interior cuja curva de transmissão tem aumentado, como na região metropolitana de Arapiraca. Os infratores podem levar multa e até serem presos por desobediência e descumprimento das determinações estabelecidas no decreto.
Mas, se mesmo assim, a curva de transmissão e a ocupação dos leitos continuarem a subir, a gestão governamental não descarta a volta de medidas mais restritivas. A infectologista Luciana Pacheco ressalta que nem o chamado lockdown deve ser ignorado. “Considerando um colapso na rede de assistência, não há outra medida a ser tomada”, recomenda.
A representar uma instituição centenária como a Sociedade de Medicina de Alagoas, o médico Fernando Gomes finaliza com um apelo à população do estado. “Eu conclamo a todos que são a favor – e também a todos que são contra – para refletir e pontificar que há uma necessidade [de isolamento social]. É muito importante ponderar, refletir e suavizar o processo”.
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