Irmãos comeram fruto típico do AM para sobreviver na floresta por 26 dias
Eles foram encontrados na terça-feira (15), por um cortador de lenha, e estão em tratamento especializado na capital amazonense
Os irmãos de 7 e 9 anos que passaram 26 dias desaparecidos na floresta amazônica improvisaram e se alimentaram de sorva - um fruto típico da região - para não morrerem de fome na mata, segundo o coordenador do DSEI (Distrito Sanitário Indígena) de Manaus (AM), Januário Carneiro Neto, que acompanha o caso. Eles foram encontrados na terça-feira (15), por um cortador de lenha, e estão em tratamento especializado na capital amazonense.
No sábado (19), os irmãos continuavam internados em Manaus, mas apresentavam melhora.
Segundo o coordenador, o irmão mais velho era quem procurava as árvores que tivessem o fruto, muito consumido por comunidades tradicionais da Amazônia. A sorva é uma espécie pequena, de formato arredondado, com sabor adocicado e cor esverdeada.
"Conversei com o irmão mais velho, e foi isso que os salvou. Não foi uma ideia, foi um instinto de sobrevivência. Se eles sentiam fome, iam lá e comiam. É uma frutinha pequenininha que estava de fácil acesso para eles, era o que tinha", frisou o coordenador, corrigindo uma informação inicial de que eles haviam ficado sem comer durante o sumiço.
De acordo com ele, os irmãos Glaucon e Gleison, encontrados em grave estado de desnutrição e desidratação, ainda estão muito assustados e falam pouco sobre o período em que estiveram perdidos na selva. O coordenador classificou o resgate como um "milagre".
"Isso foi um milagre de Deus, proteção dos espíritos da floresta", comemorou ele.
Uma foto enviada pelo DSEI, na manhã de hoje, mostra os garotos sentados no leito de uma enfermaria. Eles aparentam estar mais magros e abatidos. Na imagem, é possível perceber lesões no rosto e na perna esquerda do menino de 7 anos. "Eles estão com os pais, e em plena recuperação alimentar", ressaltou Neto.
Menino carregou irmão nas costas
Uma das enfermeiras que atendeu os meninos disse que o irmão mais velho contou que precisou carregar o mais novo nas costas, por vários momentos, na floresta. Segundo ela, o garoto de 7 anos tinha dificuldades para andar, por causa de feridas nos pés, provocadas pelo contato com o solo.
Ainda segundo a enfermeira, os meninos relataram que usavam folhas de árvores para coletar a água que caía das chuvas e, assim, não morrerem de sede. O tio dos garotos disse ao UOL que, para a família, "a maior aflição já passou".
Busca por tratamento especializado
As crianças permanecem internadas no HPSC (Hospital e Pronto-socorro da Criança) da Zona Oeste de Manaus. Elas foram transferidas de Manicoré, a 390 km de Manaus, em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) aérea, após o Ministério Público expedir um ofício determinando o deslocamento, caso não fosse possível atendimento especializado - em até quatro horas - no Hospital Regional de cidade.
A SES (Secretaria de Estado da Saúde) informou hoje que os meninos estão clinicamente estáveis e que recebem os cuidados necessários para reverter o quadro de desnutrição e escoriações. Eles ainda não podem ingerir alimentos sólidos.
"Ambos apresentaram melhora considerável do quadro e boa recuperação das funções renais. Já houve introdução alimentar, com dieta pastosa, para reequilíbrio e fortalecimento da flora intestinal, para posteriormente receber dieta sólida", detalhou o órgão.
Resgate
Os irmãos desapareceram no dia 18 de fevereiro após saírem de casa para caçar passarinhos, informou o Corpo de Bombeiros, à época. A guarnição anunciou o encerramento das buscas no dia 25 de fevereiro, mas familiares e moradores continuaram a procura pelos garotos.
Eles foram encontrados em uma região localizada a cerca de 35 quilômetros da comunidade onde moram, em Manicoré.
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