Após mortes de meninos autistas em Maceió, especialista alerta para os riscos de fuga
Anthony Gabriel e Arthur Fochi, ambos autistas não-verbais, morreram afogados após fugir da presença dos pais em Maceió
Dois casos recentes de crianças com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) que fugiram da presença dos cuidadores e acabaram sendo encontradas mortas, em Maceió, chamaram atenção para o perigo de um padrão de comportamento comum em alguns indivíduos dentro do espectro. Anthony Gabriel, de cinco anos e Arthur Fochi, de seis, perderam a vida em um curto espaço de tempo, entre um e outro, praticamente da mesma maneira: se afogaram horas depois de se afastarem de suas mães.
Para entender melhor o que leva crianças autistas a apresentar tal comportamento, o 7Segundos consultou a psicóloga especialista em Análise do Comportamento Aplicada, Ericka Duarte. Sobre o assunto, Ericka esclarece, de antemão, que não são todas as crianças autistas que possuem o comportamento de fuga, mas que muitas delas podem acabar tendo atitudes que aumentam o risco de acidentes, inclusive os afogamentos.
De acordo com a psicóloga Erica Duarte, em alguns casos o TEA pode estar associado a comportamentos que aumentam o risco de acidentes. Isso acontece porque algumas crianças dentro do espectro apresentam dificuldades em reconhecer situações perigosas ou prever as consequências de determinadas ações.
Segundo a especialista, não se trata exatamente de ausência de medo, mas de uma forma diferente de o cérebro processar estímulos e avaliar riscos presentes no ambiente. Outro fator que pode estar relacionado a esse tipo de situação é o chamado comportamento de fuga, conhecido como “elopement” ou “wandering”. Nesses casos, a criança pode se afastar repentinamente do cuidador, andando ou correndo sem avisar, muitas vezes seguindo algum estímulo específico que chamou sua atenção.
“Algumas crianças autistas podem se afastar porque estão seguindo um interesse específico, como um objeto, um som ou algum estímulo visual”, explica a psicóloga. No caso do pequeno Arthur, a família informou que o menino tinha um grande interesse (hiperfoco) em florestas e áreas de mata, e que isso pode ter sido um fator que contribuiu para que a criança fosse até o local onde morreu.
Alguns estudos apontam que ambientes com água também costumam atrair parte das crianças dentro do espectro. O reflexo da luz, o som repetitivo da corrente e o movimento da água podem funcionar como estímulos sensoriais agradáveis ou relaxantes.
Por esse motivo, afogamentos aparecem em estatísticas como uma das principais causas de morte acidental entre crianças autistas. Outro fator é que, em determinadas situações, elas podem ficar extremamente concentradas em algo que chamou sua atenção e acabam ignorando outros estímulos ao redor, inclusive chamados ou alertas de adultos.
A especialista também ressalta que nem todas as crianças com TEA apresentam comportamento de fuga. O espectro é amplo e cada indivíduo pode apresentar características diferentes.
Como previnir
Observar padrões de comportamento pode ajudar na prevenção. Entre os sinais que podem indicar risco estão tentativas frequentes de abrir portas ou portões, correr quando surge a oportunidade de sair ou demonstrar interesse intenso por determinados locais.
Em alguns casos, a fuga também pode acontecer em momentos de estresse ou sobrecarga sensorial, como ambientes muito barulhentos, com muitas pessoas ou diante de mudanças inesperadas na rotina.
Para reduzir os riscos, Erica Duarte orienta que pais e cuidadores adotem algumas medidas de prevenção no dia a dia. Manter rotinas previsíveis é uma das principais estratégias, já que mudanças bruscas podem aumentar a ansiedade da criança.
A supervisão constante também é considerada fundamental, principalmente em locais públicos. A recomendação é manter a criança sempre ao alcance visual e, sempre que possível, físico.
A adaptação do ambiente doméstico também pode ajudar na segurança. Portas e portões devem permanecer fechados e, se necessário, podem receber travas ou fechaduras instaladas em pontos mais altos, dificultando que a criança consiga sair sozinha.
Outra orientação é informar familiares, vizinhos e a escola caso a criança tenha tendência a se afastar, o que pode facilitar a identificação rápida em situações de desaparecimento.
Recursos de identificação também podem ser úteis. Pulseiras ou colares com telefone dos responsáveis, etiquetas nas roupas ou mochilas e até rastreadores GPS infantis podem ajudar na localização mais rápida da criança.
A psicóloga destaca ainda que observar quando e onde as tentativas de fuga acontecem pode ajudar a entender os gatilhos do comportamento. Anotar o que ocorreu antes da situação, como barulho, mudança de atividade ou frustração, pode auxiliar terapeutas e familiares a desenvolver estratégias mais eficazes de prevenção.
Os casos envolvendo Anthony Gabriel e Arthur Fochi, apesar de parcialmente elucidados, seguem sob investigação da Polícia Civil.Recursos de identificação também podem fazer diferença em situações de emergência. Pulseiras ou colares com telefone dos responsáveis, etiquetas em roupas ou mochilas e até rastreadores GPS infantis são ferramentas que podem facilitar a localização rápida da criança.
Nem todas as crianças autistas apresentam comportamento de fuga. O espectro é amplo e cada indivíduo pode ter características diferentes. Ainda assim, observar padrões de comportamento pode ajudar muito na prevenção.
Tentativas frequentes de abrir portas ou portões, correr quando surge uma oportunidade de sair ou demonstrar interesse intenso por determinados locais são alguns sinais que podem indicar risco de fuga. Em outros casos, a criança pode tentar se afastar em momentos de estresse, excesso de barulho, ambientes muito cheios ou mudanças inesperadas na rotina.
Por isso, especialistas orientam que pais e cuidadores observem quando e onde essas tentativas acontecem, registrando o que ocorreu antes do comportamento. Identificar possíveis gatilhos ajuda terapeutas e familiares a compreender melhor o motivo da fuga e a criar estratégias para reduzir o risco.
Para a psicóloga, a informação e a prevenção são fundamentais para evitar tragédias como as registradas recentemente em Maceió. Quanto mais cedo os padrões de comportamento são identificados e compreendidos, maiores são as chances de garantir segurança para a criança.
Os casos
No dia 18 de fevereiro deste ano, Anthony Gabriel desapareceu após se afastar da frente da casa de um tio, onde brincava, no bairro Jacintinho, em Maceió. Segundo a família da criança, Anthony desapareceu da presença da mãe e só foi encontrado horas depois dentro de em um córrego, no bairro Feitosa, já sem vida.

Em apenas 14 dias Arthur Fochi também desapareceu de casa, dessa vez no bairro Benedito Bentes, parte alta de Maceió. Depois de buscas feitas no entorno da região, a criança, que também era autista não verbal como o pequeno Anthony, foi achada morta, dentro de uma vala localizada em uma área de mata próxima da residência em que morava.

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