Homem que perdeu a memória ao sofrer acidente reencontra familiares após 46 anos
Reencontro ocorreu nesta quinta-feira (16)
Foram quatro décadas e meia de silêncio, saudade e perguntas sem resposta. Uma família inteira conviveu durante anos com a dor de não saber onde estava o filho, o irmão, o tio, o filho. Do outro lado dessa história, um homem tentava reconstruir a própria vida depois de um acidente que lhe roubou não somente a memória, mas a sua própria identidade.
Nesta quinta-feira (16), a espera chegou ao fim: depois de 46 anos separado dos familiares, Edson Almeida Nunes voltou a abraçar as pessoas que nunca deixaram de procurá-lo. O reencontro só foi possível graças à atuação do Ministério Público do Estado de Alagoas (MPAL), por meio do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID/AL), que articulou uma força-tarefa entre instituições parceiras, até confirmar a sua verdadeira identidade.
Ao rever a irmã, Margareth Landa, de quem ainda tinha algumas lembranças remotas, seu Edson, um homem de poucas palavras, comentou: “Eu estou feliz”.

A notícia também encerra uma longa espera para a família.
“Parte da família ainda tinha esperança de reencontrá-lo, mas outros parentes, não mais. Foi uma lacuna muito grande sem notícias. Mas Deus preparou esse dia. Agora queremos apenas abraçá-lo, conversar e tentar recuperar, se assim ele também quiser, o tempo que nos foi devolvido”, disse a irmã.

A sobrinha, Claudeneia Almeida Souza, que cresceu ouvindo histórias sobre o tio desaparecido, contou que o reencontro representa o início de uma nova fase para todos. “É uma emoção difícil de explicar, e que bom que estou aqui para senti-la. Durante anos ele foi uma ausência na nossa família. Agora, vamos poder conhecê-lo de verdade, cuidar dele e construir novas memórias juntos”, afirmou, acrescentando que a sua mãe, irmã mais velha de seu Edson, está ansiosa para reencontrar o irmão caçula.
Valdeci Alves da Silva, idosa que também está institucionalizada na Casa São Vicente de Paulo, emocionou-se ao ver o reencontro. “O Edson é a melhor pessoa desse lugar, está sempre pronto para ajudar e, por isso, merece toda felicidade do mundo. Estou feliz por estar reencontrando a família. Quem sabe ele vai conseguir voltar ao convívio dos familiares, não é? Se isso acontecer, vou sentir saudades porque ele é o meu melhor amigo”, contou ela, que teve a oportunidade de ver o seu Edson ainda na época de infância, por meio das fotos que foram levadas pela irmã e pela sobrinha.

Para a coordenadora do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID), promotora de Justiça Marluce Falcão, momentos como esse revelam o verdadeiro propósito do trabalho desenvolvido pelo Ministério Público: “Cada identificação representa muito mais do que a descoberta de um nome. É devolver uma história, uma identidade e o direito de pertencer a uma família. Quando essas pessoas voltam a se encontrar, todos recuperam uma parte da própria vida. Esse é o maior resultado que o PLID pode entregar à sociedade”, declarou ela, acrescentando que o caso chegou ao conhecimento do MPAL por meio da delegada da Polícia Civil Rebecca Cordeiro, titular da Delegacia de Proteção aos Vulneráveis, quando ela estava no município de Santana do Ipanema fazendo fiscalização em ILPs, em junho deste ano.
A investigação que devolveu uma identidade
Até que sua verdadeira identidade fosse descoberta, seu Edson já havia recebido diferentes nomes ao longo da vida. Ao chegar à instituição de acolhimento – ele foi para o abrigo após receber alta hospitalar depois de se recuperar de um atropelamento, perder a memória e não ter para onde ir – era conhecido como Fabrício. Posteriormente, por meio de procedimento judicial, passou a utilizar o nome José da Silva, até que a investigação conduzida pelo PLID e a Polícia Federal devolveram-lhe, enfim, sua verdadeira história, naquele mesmo dia 17.
Desaparecido ainda aos 17 anos, após sofrer uma crise de esquizofrenia, o idoso foi vítima de um acidente que comprometeu sua memória, tendo passado décadas sem conseguir se lembrar da verdadeira identidade ou localizar a família. Sem documentos confiáveis, a identificação dele era um grande desafio. Mas, com a atuação integrada, essa resposta veio no mesmo dia, mais precisamente, sete horas após a PF ser acionada pelo Núcleo de Apoio às Vítimas e Desaparecidos (Navid) do Ministério Público, do qual o PLID/AL faz parte.
Em um trabalho conjunto entre os Núcleos de Identificação da Polícia Federal em Alagoas e no Distrito Federal, com apoio do Instituto de Identificação do Distrito Federal, a comparação das impressões digitais confirmou que o homem acolhido em Santana do Ipanema era, na verdade, Edson Almeida Nunes, filho de Guiomar Souza Nunes e Manoel Almeida Nunes. O laudo de perícia papiloscopia assinado pelos papiloscopistas policiais federais Julius Bomfim e André Nadaes encontrou a correspondência que encerrou décadas de incertezas, devolvendo ao seu Edson o nome que consta na certidão de nascimento e o reencontro com os parentes.
“Quando iniciamos a comparação das impressões digitais, tratava-se de mais um exame pericial. Mas, quando a identificação foi confirmada, percebemos que estávamos diante de uma história de vida. A ciência forneceu a resposta técnica, mas o resultado permitiu que um homem recuperasse sua identidade e que uma família encerrasse uma espera de mais de 40 anos. Esse é um dos maiores significados do trabalho desenvolvido pela Polícia Federal na identificação humana”, declarou Julius Bomfim.
Na sequência, policiais federais da Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários (DELEFAZ/DF) localizaram os parentes, concluindo uma força-tarefa que reuniu Ministério Público, Polícia Federal e Instituto de Identificação do Distrito Federal. “Esse resultado ultrapassou a solução de um caso de identificação, representando a reconstrução de uma história, o restabelecimento de vínculos familiares e a reafirmação da dignidade de um homem que, por décadas, viveu sem saber quem era”, destacou a coordenadora do PLID/AL.
Treze anos de cuidado e esperança
A Casa São Vicente de Paulo, Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) localizada no município de Santana do Ipanema, sertão do estado de Alagoas, acolhe seu Edson há 13 anos. Durante esse período, a entidade acompanhou sua transformação física, emocional e social. Segundo a enfermeira e coordenadora da Casa, Lucielma Ferreira Silva Costa, quando chegou ao abrigo, o idoso apresentava um quadro emocional bastante delicado. “Ao longo dos 13 anos de acolhimento, o senhor Edson apresentou uma evolução significativa em seu quadro psicossocial. No período inicial, observava-se um comportamento de difícil manejo, associado a importante comprometimento emocional e psicológico. Com o passar dos anos, por meio dos cuidados contínuos e da construção de vínculos afetivos com a equipe e os demais residentes, ele passou a demonstrar mudanças expressivas, favorecendo sua adaptação à rotina institucional e melhorando seu bem-estar físico e emocional”, detalhou a coordenadora.
Ela também contou que a notícia da localização da família emocionou toda a equipe da instituição: “Foi um momento de grande emoção para todos nós. Estávamos na expectativa de que esse reencontro permitisse o início da reconstrução dos vínculos familiares e uma adaptação tranquila. Nosso desejo é que o senhor Edson possa retornar ao convívio da família cercado de carinho, cuidado e apoio. Sempre que houver condições para garantir bem-estar e segurança, entendemos que o ambiente familiar é o melhor lugar para dar continuidade à sua vida”, pontuou a psicóloga.
Próximos passos
Embora o reencontro represente o fim de uma espera de 46 anos, o trabalho do Ministério Público ainda não foi concluído. Para assegurar que a transição ocorra de forma gradual e respeite as condições de saúde e adaptação do idoso, o promotor de Justiça Alex Almeida, que atua na 2ª Promotoria de Justiça de Santana do Ipanema, requereu ao juiz da cidade a realização de audiência concentrada, com a participação de seu Edson, dos familiares e da equipe multidisciplinar da Casa São Vicente de Paulo, além do cancelamento do registro civil emitido em duplicidade após a confirmação de sua verdadeira identidade.
“O nosso pedido foi acolhido pelo Poder Judiciário, que também determinou a realização de estudo psicossocial por parte do Tribunal de Justiça de Alagoas. O laudo deverá avaliar as condições cognitivas e emocionais do idoso e subsidiar um plano de desacolhimento gradual da instituição de longa permanência, permitindo que o retorno ao convívio familiar aconteça de maneira segura, respeitando seu tempo de adaptação e fortalecendo, passo a passo, os vínculos afetivos reconstruídos após décadas de separação”, explicou Alex Almeida.
E o olhar cuidadoso do Ministério Público ainda vai mais além: a assistente social e a psicóloga do Núcleo de Apoio Técnico, que é vinculado ao Centro de Apoio Operacional (Caop) do MPAL, Jediane Freitas e Lais Vilas Boas, estiveram presentes neste dia do reencontro e também vão preparar um relatório técnico sobre o caso.
O que é o PLID/AL
Criado pelo Ministério Público do Estado de Alagoas por meio do Ato nº 04/2018, o Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID/AL) integra o Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos (Sinalid), coordenado pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). A iniciativa atua de forma permanente na localização de pessoas desaparecidas, na identificação de pessoas sem documentos ou sem memória e no restabelecimento de vínculos familiares. Para isso, reúne em uma rede de cooperação órgãos das áreas de segurança pública, saúde, assistência social, perícia oficial e entidades de acolhimento, permitindo o compartilhamento de informações, a realização de buscas e a construção de estratégias conjuntas para dar respostas mais rápidas às famílias.
Além da atuação operacional, o PLID também desenvolve ações de prevenção, capacitação e conscientização sobre o desaparecimento de pessoas. “De forma mais ampla, o PLID atua para fortalecer o trabalho do Ministério Público na defesa da cidadania e dos direitos humanos”, finalizou a promotora de Justiça Marluce Falcão.

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