'Luto por dinheiro': Mercenário brasileiro que diz ter servido no Haiti vai à Ucrânia
O homem foi chamado pelo sistema de recrutamento de estrangeiros usado pela Ucrânia para garantir recursos contra a Rússia
Um homem, que diz ser ex-militar do Exército brasileiro com participação na missão humanitária de paz no Haiti, agora revela estar a caminho da guerra na Ucrânia com recursos próprios para atuar como mercenário.
"Eu luto por dinheiro", disse ao UOL sob a condição de anonimato. Ex-soldados multilíngues estão sendo recrutados em todo o mundo por US$ 2.000 ao dia (o equivalente a R$ 10 mil) para ajudar no resgate de famílias, conforme revelou a BBC.
O governo ucraniano criou um site no dia 5 de março de recrutamento de estrangeiros com formação militar para a Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia, com contato de consulados e embaixadas ucranianas espalhadas pelo mundo, incluindo o Brasil. Contudo, não há a informação de soldados sendo remunerados.
O UOL revelou a história de dois ex-militares brasileiros que dizem integrar uma tropa de elite ligada ao exército ucraniano formada por estrangeiros. A Embaixada da Ucrânia no Brasil confirmou que mais de cem pessoas se ofereceram para se alistar. Brasileiros que dizem estar dispostos a morrer gastam até R$ 7.000 em despesas para defender o povo ucraniano.
Mesmo sem informar de quem recebe pagamento, o brasileiro que se diz mercenário afirmou à reportagem nesta semana que "governos de diversos países estão ajudando combatentes de elite de todo o mundo", enquanto se preparava, segundo ele, para embarcar levando na mochila apenas remédios para dor e roupas para enfrentar o frio na Ucrânia.
Do terno à farda militar
Na conversa com o UOL, disse ter 29 anos e levar uma vida comum no interior de Minas Gerais —ele revelou a cidade onde afirma morar, mas a reportagem optou por não revelar para evitar uma eventual identificação.
Afirmou ser casado e pai de dois filhos pequenos e disse que comprou a casa onde mora com a família e montou um escritório de advocacia graças ao dinheiro obtido em missões como mercenário no Sudão, no norte do continente africano.
Contou ser pós-graduado em direito penal militar, mas afirma reconhecer que prefere ser remunerado para voltar a participar de confrontos armados.
Eu não me vejo mais com terno. Eu luto por dinheiro, e a minha função de vida é combater"Brasileiro, que afirma ser ter sido militar e agora combate como mercenário
O brasileiro disse ter se alistado no Exército em 2011 e participado da missão de paz no Haiti no ano seguinte, onde teria permanecido por cinco meses e 20 dias. Em 2014, afirmou ter atuado ainda como militar na pacificação no Complexo da Maré, conjunto de favelas da zona norte do Rio de Janeiro sob o domínio do tráfico de drogas.
Também disse ter sido policial militar em São Paulo e Minas Gerais entre 2016 e 2018. E, após deixar a corporação, conta, passou a atuar como mercenário no continente africano, onde permaneceu por dois anos. Lá, teria participado de um grupo responsável pela segurança de um milionário que era alvo constante de grupos paramilitares no Sudão.
"No front, não há lugar para medo"
Em meio aos confrontos que diz ter enfrentado no continente africano, o alegado mercenário brasileiro conta que não há espaço para o medo.
"Óbvio que a gente pensa sobre o que aconteceu [mortes em combate]. Mas no front, não há lugar para o medo. A única coisa que você faz é lutar. Medo, raiva, ódio, tudo some".
É esse sentimento que diz levar para a Ucrânia. "Há diversos crimes de guerra acontecendo lá. Virou banal receber vídeos mostrando civis sendo mortos".
Ele diz ter sido chamado para a Ucrânia por militares da legião estrangeira francesa, que pediram baixa da unidade de origem também para atuar como mercenários no conflito.
Mas revela uma preocupação: a "convocação" de civis. "Estão [governo ucraniano] entregando armas e mandando a população para a guerra. São pessoas sem tática ou conhecimento. Isso é muito arriscado", adverte.
Estamos batendo de frente contra a segunda maior potência militar do mundo, comandada por um presidente [Vladimir Putin] que não quer discutir por meios diplomáticos e que preparou essa invasão há anos. Esse será um dos conflitos mais difíceis da minha vida"
Em memórias dos conflitos no continente africano, ainda diz levar com ele a imagem de colegas mortos, que também está presente em seus pensamentos enquanto se preparava para ir á Ucrânia. "Perdi irmãos em batalhas sem ter a chance nem de enterrar o corpo".
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