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Matriz de Camaragibe entra na rota do turismo de experiência com chocolate 100% alagoano

De origem simples, vice-prefeito transforma sonho de infância em negócio inovador

Por 7Segundos, com Assessoria 24/02/2026 16h04
Matriz de Camaragibe entra na rota do turismo de experiência com chocolate 100% alagoano
Fábrica de chocolate tem feito muito sucesso em Alagoas - Foto: Assessoria

Ele nasceu em Matriz de Camaragibe, estudou a vida inteira em escola pública, cresceu no assentamento São Frutuoso e sempre foi conhecido como “o menino do campo”. Filho de agricultores, Ramon Dantas aprendeu cedo que a terra era sustento, identidade e dignidade. O que ele não imaginava era que, aos 33 anos de idade, estaria à frente da primeira fábrica de chocolate 100% alagoana do estado, presidente da Cooperativa dos Produtores de Cacau de Alagoas e Derivados da Floresta – COPCACAU, e responsável por um dos projetos mais inovadores de diversificação turística do interior.

A trajetória até aqui não foi linear. Passou por cooperativismo, microcrédito rural, fundação de sindicato, política e uma obstinação que transformou desvantagens em combustível. “As pessoas passavam por Matriz e só viam cana. Mas minha família inteira é agricultora, em Matriz sempre teve muito agricultor. Eu sonhava em alavancar esse setor aqui, para além da cana-de-acúcar”. Foi dessa inquietação que nasceu o desejo de mudar a narrativa da cidade.

Antes do chocolate, o sonho era turismo


O primeiro grande sonho de Ramon Dantas não era produzir chocolate. Era fazer de Matriz de Camaragibe um destino turístico. Ele conhecia as cachoeiras, os rios e a mata desde criança e não aceitava que a cidade fosse lembrada apenas pela monocultura da cana.


Dantas destacou que foi preciso mudança. “Nunca foi culpa do turista. Foi culpa nossa, porque a gente nunca se apresentou como destino turístico. As praias dos municípios vizinhos sempre estiveram sob os holofotes, e com razão. Mas o turista atravessava Matriz rumo ao próximo destino porque nós mesmos deixamos de mostrar a riqueza que existe aqui”, afirma.

A virada começou quando ele encontrou um antigo pé de cacau próximo a uma casa de engenho. Ali, enxergou uma oportunidade estratégica: usar o cacau como âncora para atrair visitantes e, a partir dele, apresentar a natureza https://redacao.7segundos.com.br/noticias/textos/adiciona#e a cultura local.

Nascia o embrião do Vale do Cacau e da agência Flor de Camará, que passou a estruturar experiências de ecoturismo integrando trilhas, rio, cachoeira e plantação de cacau.


Em vez de competir com o litoral, Ramon Dantas decidiu somar. “Eu não quero tirar o turista de você, quero fazer ele ficar mais um dia”, dizia o empreendedor aos donos de pousadas de Japaratinga e Maragogi. A estratégia funcionou. O turista que ficaria três dias no litoral passou a estender a estadia para viver a experiência da floresta. O ecoturismo ganhou força, e a ideia do chocolate começou a nascer.

A descoberta do cacau


Até 2024, Ramon acreditava que sua produção era praticamente isolada. A participação na Expoagro daquele ano mudou o cenário. Agricultores começaram a se aproximar dizendo que também tinham cacau, ainda que em pequenas quantidades, muitas vezes plantado no quintal.


Ele passou a mapear produtores em Colônia Leopoldina, Joaquim Gomes, União dos Palmares, Murici, Palmeira dos Índios, Boca da Mata, Teotônio Vilela e outros municípios. O que parecia escassez revelou-se potencial.

Com o diagnóstico feito, veio a organização. Hoje, a COPCACAU reúne 42 cooperados e já articula novos produtores. A fábrica do Ramon Dantas compra parte da produção e o excedente é organizado coletivamente, reduzindo custos logísticos e ampliando mercado. “Hoje o Estado já tem produção suficiente para a gente aumentar em 10 vezes o que faz. A matéria-prima existe. O que precisamos agora é de maquinário e estrutura”, ressaltou Dantas.

A primeira fábrica de chocolate 100% alagoana


Inaugurada em 21 de novembro, a loja Cacau Matriz, às margens da rodovia AL-105, no Centro de Matriz de Camaragibe, funciona como vitrine e mini fábrica. Ali, o cliente não apenas compra, mas acompanha a produção em tempo real. “Diferente das grandes franquias, aqui a pessoa não vem só comprar. Ela acompanha o processo, desde a plantação do cacau, até chegar na loja, e ver o chocolate sendo feito para logo depois degustar os produtos. É uma experiência completa".

A proposta é sensorial. Degustação guiada, explicação dos processos, chocolate sendo finalizado na hora. A fábrica principal, instalada no Conjunto Residencial Senhor Bom Jesus, já opera com a parte fria do processo estruturado, e prepara a expansão para a área de torra do cacau.

O portfólio da Cacau Matriz vai do fruto a seus derivados: barras tradicionais, versões veganas e zero lactose, chocolate branco, creme de cacau com amendoim e castanhas, panetones, chá de cacau e sorvete artesanal.

Com apenas dois meses de operação efetiva, a loja já alcançou a primeira meta de faturamento: R$ 50 mil em janeiro. A meta seguinte é R$ 55 mil, com crescimento projetado de 5% ao mês e objetivo de encerrar o ano próximo dos R$ 100 mil mensais.


A gestão inclui sistema informatizado, metas individuais, bônus por avaliação cinco estrelas no Google e premiação coletiva com viagens para a equipe. A prioridade é empregar moradores de Matriz. “A gente só emprega quem é daqui. Nosso propósito é fortalecer a cidade”, frisou.

Nas embalagens, a inovação ganha traços lúdicos. Ramon Dantas criou a turminha dos Guardiões da Floresta, personagens inspirados em animais nativos que contam histórias educativas sobre a importância ambiental das matas de Matriz de Camaragibe.

Os desenhos autorais estampam os chocolates e, em breve, virarão mascotes de pelúcia à venda na loja, ampliando o mix de produtos e reforçando a conexão emocional com o público.

“O Sebrae é âncora”


Se o sonho nasceu da inquietação, a estrutura veio com apoio técnico. Ramon participou de consultorias, capacitações em boas práticas, gestão e planejamento estratégico com apoio do Sebrae. “Eu costumo dizer que a gente só começou a andar quando o Sebrae chegou na nossa vida. O sonhador sonha demais. O Sebrae foi uma âncora, ensinou o processo, passo a passo”, enfatizou.

A analista da Unidade de Competitividade Setorial (UCS) do Sebrae, Amanda Pinto, destaca que Dantas se tornou liderança regional ao formatar a Rota do Cacau como produto turístico estruturado. “Alagoas precisa diversificar a oferta de produtos e experiências turísticas e sair do ‘monopólio’ do sol e mar. O Ramon já tem um produto consolidado, que integra natureza, cultura e indústria. O papel do Sebrae é apoiar na melhoria e na comercialização desses produtos, conectando às agências de turismo e ao mercado nacional”, disse.

Segundo ela, o Sebrae atua nas duas pontas: estrutura o negócio e amplia o acesso a mercados por meio de núcleos e parcerias estratégicas.

Já a analista da Unidade de Relacionamento Empresarial (URE) do Sebrae Alagoas, Pollyana Bellutti, acompanhou Ramon desde os primeiros passos, de acordo com ela, a clareza da visão empreendedora sempre esteve presente. “O Sebrae apoiou na adequação da produção, no desenvolvimento dos primeiros produtos e na organização da gestão, para que o sonho se estruturasse como um negócio competitivo”, explicou Pollyana.

O diretor técnico do Sebrae Alagoas, Keylle Lima, também esteve em Matriz de Camaragibe, e reforça que histórias como a da Cacau Matriz demonstram o impacto do atendimento qualificado ao pequeno empreendedor. “Quando o empreendedor busca orientação, planejamento e capacitação, ele reduz riscos e aumenta a competitividade. O Sebrae está ao lado do micro e pequeno negócio desde a ideia até a expansão. O caso da Cacau Matriz mostra como inovação, identidade territorial e gestão profissional podem transformar realidades locais”, disse.

Desenvolvimento que nasce da terra



Ramon Dantas é técnico agropecuário, técnico em turismo, bacharel em Sistemas de Informação, pós-graduado em Gestão Pública e cursa agronomia. Atualmente é vice-prefeito de Matriz e liderou a formalização de mais de 400 agricultores por meio da criação de sindicato rural.

Hoje, alia formação, experiência pública e visão empreendedora para consolidar um ecossistema que envolve agricultura, indústria, turismo e identidade cultural. “Parece que a gente andou muito, mas ainda estamos só no começo”, disse modestamente, o homem que já deixou sua marca na história de Matriz de Camaragibe.

O projeto liderado por Ramon Dantas consolida um novo modelo de desenvolvimento para o interior de Alagoas, ao integrar agricultura, indústria e turismo com gestão estruturada e apoio do Sebrae. Ao organizar a cadeia do cacau e fortalecer a competitividade local, a Cacau Matriz se firma como exemplo de como planejamento e capacitação transformam potencial em geração de renda e desenvolvimento territorial.