Alagoas

Pesquisas destacam as conquistas e deficiências na interiorização da Ufal

Por Ascom Ufal 12/02/2016 21h09

A expansão da Universidade Federal de Alagoas para todas as regiões é de fundamental importância para o crescimento socioeconômico do Estado. Essa é uma tese com a qual a comunidade universitária e a sociedade alagoana concordam. Mas a forma como foi feita essa interiorização e as condições dos campi no interior rendem muitas análises e debates.
O Campus Arapiraca foi inaugurado em 2006.

Já o Campus do Sertão começou a funcionar em 2010, ainda em instalações provisórias, até que o prédio, em Delmiro Gouveia, ficou pronto, no final de 2013. Embora a unidade de Santana do Ipanema permaneça funcionando em escola particular alugada. Nesses 10 anos de interiorização, muitas conquistas foram alcançadas, por alunos e professores, e muitos problemas ainda são enfrentados.

Recentemente, a aluna de Psicologia da unidade de Palmeira dos Índios, Andressa Santos de Goes, resolveu se debruçar sobre a situação da unidade de Santana do Ipanema, do campus Sertão. Esse foi o foco da monografia da estudante apresentada no início deste ano, e que obteve nota dez com recomendação de publicação, pela banca examinadora formada pelas professoras do curso de Psicologia Danielle Nóbrega, Maria Augusta dos Santos e Lídia Ramires (COS).

A Ufal chegou ao sertão

A monografia da aluna Andressa Santos de Goes é intitulada: "A Ufal chegou ao Sertão: um estudo sobre os sentidos e significados da interiorização para estudantes da unidade educacional de Santana do Ipanema". A orientação do estudo foi feita pela professora Danielle Oliveira da Nóbrega, do curso de Psicologia da unidade de Palmeira dos Índios.

Essa dificuldade que os estudantes do interior encontram ao pensarem como continuar os estudos diante das poucas opções, quando não têm condições de se deslocarem para estudar na capital, é uma realidade que Andressa conhece bem. "Desde sempre, eu prestava atenção no quanto a educação me transformava e cresci vendo a educação superior como um sonho. Depois, quando comecei a entender as relações de poder dentro da sociedade, percebi que não seria tão fácil para mim, filha de agricultores, ingressar na universidade, principalmente, em me deslocar para a capital. Então, quando eu fiquei sabendo da Ufal no interior, eu não acreditei que o meu sonho estava tão mais perto de mim", relata a estudante.

Na monografia, a Andressa faz um histórico da criação do Campus do Sertão, em 2010, com recursos do plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), e expõe os resultados de uma pesquisa qualitativa realizada junto à dois grupos de estudantes: um denominado Grupo “Oportunidades” e o outro Grupo “Resistências”. Os estudantes que participaram do estudo falaram sobre a realização do sonho de estudar numa universidade pública, a rotina de estudos, as deficiências da assistência estudantil, sobre o movimento estudantil, entre outros temas.

A autora da monografia explica que a motivação para a realização da pesquisa surgiu da própria experiência dela como estudante da interiorização. Andressa Santos critica a "falta de estrutura e a falta de planejamento de um projeto de universidade no interior e o quanto que tais questões afetam a qualidade da educação superior. A partir disso, surgiu o desejo de entender como os demais estudantes percebem esse processo de interiorização, ou seja, como estão sentindo e significando a interiorização da Ufal", ressaltou a estudante na monografia.

Na monografia, a estudante reconhece a importância histórico-cultural da interiorização, mas crítica o processo e destaca a importância de buscar a solução de problemas que podem afetar a possibilidade de permanência dos estudantes na universidade. "Ressalta-se que se trata de um olhar crítico, pautado por um posicionamento político de entender que a educação superior é um fenômeno construído em sociedade e precisa ser entendido como um direito e debatido enquanto uma responsabilidade coletiva", destaca Andressa na introdução do texto.

E essa é uma questão que ela abraçou como posicionamento acadêmico e político. "Depois que consegui passar no PSS e viver a universidade, comecei a entender o quão pobre o interior é. Pobre de acesso às oportunidades que, na verdade, são direitos nossos. A partir disso, comecei a entender a interiorização por um viés político, passei a questionar o porquê da universidade chegar ao interior de forma tão precária e porquê nenhum esforço estava sendo feito para que as coisas melhorassem. Assim, vi na interiorização uma oportunidade de transformação social, mas que também precisa ser problematizada, pois, ela ainda não dá conta de tudo", destaca a concluinte em Psicologia.

Apesar de todos os problemas que devem ser enfrentados para garantir a interiorização com qualidade, Andressa destaca a importância desse processo para os estudantes do interior. Para esses jovens, a inauguração dos campi em Arapiraca e no Sertão, com as respectivas unidades acadêmicas foi recebida com uma expectativa positiva. "Sentimento de sonho realizado. De esperança de poder ter um futuro mais justo, mais incluso. Sentimento de vitória, de ter a oportunidade de mudar o lugar social que há tanto tempo se manteve excluído", enfatiza a estudante.

Visão de futuro

Mesmo com tantos obstáculos a serem enfrentados, o cenário projetado pela estudante é otimista. "Agora, com uma nova gestão, eu acredito que a Ufal no interior irá crescer. Terá sua importância democratizada. Acredito que mais pesquisas sobre a interiorização serão feitas e que elas irão apontar um caminho para onde ir. Acho que a Ufal irá se ampliar, receber mais cursos porque muitos frutos já estão sendo colhidos, colegas estão entrando no mestrado, representando a interiorização em congressos no exterior, recebendo prêmios, enfim", destaca a estudante.

Mas para garantir esse cenário positivo para o futuro, Andressa acredita que é preciso organização e participação política, principalmente dos estudantes. "O horizonte que enxergo é um horizonte de conquistas. E meus anseios são mais direcionados à educação superior como um todo, temo chegar ao ponto de ver a educação privatizada explicitamente. Entretanto, confio muito no movimento estudantil e que ele lutará muito para que isso não aconteça", ressalta Andressa.

Sobre a rotina de estudante e a luta estudantil

Ser estudante não é fácil. O esforço e a disciplina têm que ser constantes e alguns momentos são bastante tensos. Quem está elaborando o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sabe bem o que é isso. Para Andressa, a vida acadêmica também foi marcada pelo engajamento político. "Eu cursei o tronco inicial na Unidade Santana com a primeira turma de Economia e depois segui para a Unidade Palmeira, para fazer Psicologia, que era meu curso de fato. Quando cheguei em Palmeira, o movimento estudantil estava fervoroso na luta pelo prédio. Lembro-me de que na primeira semana de aula, houve uma assembleia estudantil para encaminhar os próximos passos de luta. Eu entrei no movimento e aprendi a problematizar aquelas condições de universidade", relata Andressa.

A experiência de organização estudantil vivenciada em Palmeira dos Índios, também inspirou Andressa a refletir sobre a situação da unidade de Santana do Ipanema. "Comecei a pensar na Unidade de Santana, que estava no início de suas atividades, mas onde eu não tinha visto nenhum encaminhamento para dizer que as coisas iriam melhorar. Foi quando as turmas aumentaram e com o período de chuva, as salas alagaram e as paredes davam choque. Nesse momento, algumas companheiras de curso estavam escrevendo seus TCCs também sobre a interiorização e foi quando eu problematizei mais ainda a Unidade de Santana. Participei das mobilizações em Santana pela construção do prédio e toda a minha angustia com a situação de abandono da Ufal começou a ser convertida em pesquisa, era o que tinha na mão", recorda a estudante.

E assim surgiu a pesquisa

Como disse a estudante, a luta estudantil motivou a pesquisa acadêmica. "No terceiro período, numa disciplina de pesquisa em Psicologia, minha equipe e eu decidimos discutir a Ufal no interior como um processo de inclusão precária. No quinto período, conversei com a professora Danielle e contei que o meu desejo era de estudar a educação superior em Santana. Ela se assustou dizendo que era cedo para eu tomar a decisão do que pesquisar. Mas eu estava tão engajada com a militância estudantil que pesquisar seria a minha forma de lutar, de dizer que eu não estava ali por acaso, então eu não enxergava outro tema para o meu TCC e ela, que também estuda a interiorização aceitou esse meu desejo", narra a estudante.

A realização da pesquisa aconteceu junto com a mobilização por melhorias. "Eu sempre mantive contato com a Unidade de Santana, nas mobilizações, nos eventos, nos encontros de lazer, enfim. Tive total apoio da Unidade Santana para a realização dessa pesquisa. Fui lá muitas vezes para entender como funcionava a dinâmica de entradas anuais, número de turmas, como estavam as lutas, como foi a visita do MEC, enfim. A escrita em si, teve seus momentos de ápices e seus momentos de desmotivações. Algumas vezes parei para refletir se minha pesquisa iria de fato contribuir para alguma coisa, mas, depois que realizei os grupos focais e vi o quanto de vozes que eu precisava, de alguma forma, fazer com que elas fossem ouvidas, eu entendi que o meu caminho era esse mesmo", enfatizou Andressa.

Manter a objetividade da pesquisa diante desse comprometimento e entusiasmo pessoal, não foi fácil para a estudante. "Ficou muito extensa a escrita, minha orientadora teve muito trabalho em me manter objetiva (risos). Foi um trabalho intenso transformar em palavras e em discussões toda a angustia e euforia que eu estava sentido ao problematizar cada voz estudantil e eu não podia escolher qual voz seria mais pertinente que outra porque cada vivência diz muito da interiorização. E assim, foi muito difícil me distanciar da posição de estudante da interiorização para a posição de pesquisadora da interiorização", relata a estudante.

Depois de superado mais esse desafio de concluir a graduação, e tendo conquistado uma ótima nota no Trabalho de Conclusão de Curso, agora Andressa Góes planeja os próximos passos. "Não me vejo longe da academia. Pretendo fazer mestrado e doutorado. Tenho alguns projetos em andamento e tentarei em universidades diferentes, tanto em Maceió, quanto pelo país afora. Infelizmente, o interior só conta com graduação no que se refere à Psicologia", concluiu a estudante.

Confira a monografia completa em anexo

Para saber mais sobre a produção científica dos campi do interior, é só conferir as publicações da Edufal. Algumas sugestões são:

Avaliação pós-ocupação da Ufal Campus Arapiraca: uma experiência didática

Organizadores: Odair Barbosa de Moraes; Thaisa Fracis César Sampaio Sarmento; Sheila Walbe Ornstein

ISBN: 978-85-7177-660-9

Edição: 1ª

Ano: 2011

Páginas: 159

Este livro consiste em um relato da experiência didática e avaliativa durante a implantação e ocupação do Campus Ufal Arapiraca, e pretende disseminar entre docentes e discentes do curso de Arquitetura e Urbanismo a metodologia Avaliação Pós-ocupação (APO).

Olhares: uma abordagem multidisciplinar sobre o semiárido alagoano

Organizadores: Cícero Ferreira de Albuquerque; Mailiz Garibotti Lusa; Maria Ester Ferreira da Silva (Orgs.)

ISBN: 978-85-7177-882-5

Edição: 1ª

Ano: 2015

Páginas: 282

Esta obra reúne textos de mais de 20 pesquisadores em torno da dinâmica de investigação que vive o Semiárido alagoano, em diferentes abordagens de aspectos diversos da realidade do Semiárido, possibilitando o olhar plural e multidisciplinar sobre a região.

Sertão Glocal: um mar de ideias brota às margens do Ipanema

Organizadores: José Marques de Melo; Rossana Gaia

ISBN: 978-85-7177-554-1

Edição: 1ª

Ano: 2010

Páginas: 391

Este livro é um conjunto de textos que apresenta uma visão caleidoscópica sobre a historiografia do município de Santana do Ipanema, em celebração a inauguração do Campus do Sertão da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Educação e formação docente: reflexões e relatos de experiências no sertão alagoano

Organizador: Rafael Alexandre Belo

ISBN: 978-85-7177-932-7

Edição: 1ª

Ano: 2015

Páginas: 170

A presente coletânea reúne contribuições teóricas de professores da Ufal para a criação de um âmbito contínuo de reflexões e experiências na formação educacional de caráter emancipatório no semiárido alagoano.

A avaliação institucional da universidade brasileira

Autor: José Marcio Augusto de Oliveira

ISBN: 978-85-7177-997-6

Edição: 1

Ano: 2015

Páginas: 202

Esta obra busca analisar a experiência de autoavaliação institucional da universidade brasileira nos marcos do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) em seu primeiro ciclo de avaliação institucional, definido para o biênio 2004-2006.