Arapiraca enfrenta o bullying na escola e cria laços de confiança juvenil
Daniel, Cristina, Gabriel e Sabrina são quatro dos 33 alunos do único 7º ano da Escola de Ensino Fundamental Cônego Epitácio Rodrigues, na Vila São Francisco, em Arapiraca. Eles, em uma dessas quintas-feiras, entraram na sala de aula depois do intervalo se divertindo uns com os outros.
Até aí, tudo bem. Há sorriso nessa troca. O problema é quando brincadeiras aparentemente “saudáveis” tornam-se um tormento na vida das pessoas. Esse tipo específico de violência é chamado de bullying.
Tecnicamente essa violência intencional pode ser direta ou indireta, física, psicológica, moral, verbal, material e se apresenta de forma repetida com o objetivo de diminuir e intimidar o outro sem motivação aparente.
No material didático da Metodologia Liga Pela Paz, programa de Educação Emocional e Social implantado na rede municipal arapiraquense, em parceria com a Secretaria de Estado de Prevenção à Violência (Seprev) e organização Inteligência Relacional, diversas questões sociais são abordadas, dentre elas esse ato de violência praticado recorrentemente por uma pessoa ou um grupo de pessoas adultas ou crianças.
“Existe a violência que não fere somente o corpo, mas fere a mente e, numa linguagem mais afetiva, fere o coração. E esta é muito maior que a violência física. Aquele que fere é ferido. Ou está ferido ou ainda tem a história de uma ferida”, reflete o mestre em psicologia social e criador da Metodologia Liga Pela Paz, João Roberto de Araújo.
Segundo pesquisa divulgada este ano no The British Medical Journal, um dos mais influentes jornais de medicina do mundo, crianças e adolescentes assediados física e/ou moralmente têm duas vezes mais chances de ter depressão em comparação àqueles que nunca foram intimidados.
Preocupada com esse problema que tem levado angústia e humilhações não só ao ambiente escolar, a professora de Língua Portuguesa da Cônego Epitácio, Karla Melo, criou em 2015, junto à direção, o projeto “Todos contra o Bullying na escola”.

“Eu sempre reservo um momento com meus alunos para falar sobre temas transversais. Eles precisam entender que aquilo que parece brincadeira pode prejudicar a vítima para o resto da vida. Então tive a ideia de fazer o projeto com foco na escola por meio de paródias, danças, exposições do que é o bullying e apresentação teatral que eles mesmos imaginaram”, disse Karla.
Além disso uma “caixinha de denúncias” foi criada e também um levantamento de dados para saber quem já tinha sofrido esse tipo de violência repetida e de que tipo não só na escola, mas também na comunidade.
“Muitas vezes a vítima não fala a ninguém o que está passando e a caixinha os deixou mais à vontade para desabafarem, até porque no bullying também há ameaçadas. Notei que eles ficaram assustados, sem querer acreditar nas consequências dessa agressão. É preciso pregar a paz e o programa de Educação Emocional e Social tem ajudado muito”, pontuou a professora.
Daniel José da Silva Santos, de 16 anos, quando era pequeno foi recriminado por causa das orelhas. Sentia-se mal pelos insultos. Achava-se imperfeito. Muitas vezes as pessoas que sofrem o bullying acabam acreditando que são as depreciações que recebem, por isso acabam enfrentando silenciosamente seus medos, internalizando tais suposições equivocadas, e “enxergando-se”, exclusivamente, como a crítica que recebem.
“Apesar de saber que ninguém é perfeito, era ruim escutar aquelas chateações. Mas eu os ignorava. Dava as costas e saia. Nunca falei a ninguém da minha casa. Só cheguei a dizer a uma professora minha na época e aí depois que ela deu algumas broncas neles, eles pararam”, confessou.
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