[Vídeo] Ribeirinhos alertam para mortandade de peixes juvenis após redução de vazão no Rio São Francisco
Ambientalistas e autoridades apontam diminuição brusca da vazão como causa do problema
A redação do Portal7Segundos recebeu vídeos feitos por ribeirinhos mostrando peixes juvenis (fase posterior a de alevino), alguns aparentemente mortos, e outros, ainda vivos, que teriam ficado presos em poças de água em alguns pontos do Rio São Francisco.
As pessoas que narram o vídeo lamentam a situação e dizem que os peixes ficaram “presos” em áreas do rio que secaram após a rápida redução da vazão nas águas do Velho Chico, situação impediu que muitos peixes novos conseguissem deixar a tempo as diferentes localidades do rio que funcionam como berçários naturais para estes animais.
“Secou, ficou só a pocinha. Tem piauzinho novo, pirambeba, várias espécies de piaba, cará, piau preto, tá aqui, não deu tempo...baixou de vez e o peixe não saiu, não deu tempo dele sair” narra o ribeirinho durante a gravação. Assista ao vídeo:
Entre os meses de janeiro e fevereiro de 2022, a Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco), após ser autorizada pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) em articulação com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), aumentou a vazão do Rio São Francisco na Hidrelétrica de Xingó, entre Alagoas e Sergipe, saindo do patamar de cerca de 1.000m³/s até atingir os 4.000m³/s, de maneira gradativa.
A justificativa para o aumento da vazão para patamares muito acima dos praticados nos últimos anos foram as chuvas que caíram na região da Bacia do São Francisco em Minas Gerais e na Bahia, fator que contribuiu para o aumento do nível dos reservatórios das hidrelétricas de Três Marias, Sobradinho e Itaparica. Em março, a Chesf anunciou a redução gradativa da vazão em Xingó, atingindo o Baixo São Francisco.
O professor, pesquisador da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) e coordenador da Expedição Científica do Baixo São Francisco, Emerson Soares, explicou que as quedas de vazões praticadas recentemente estão sendo feitas de maneira drástica, impactando e estressando todo o ecossistema ribeirinho.
“Eles estão baixando 500m³/s de um dia para o outro, até chegar a 1.100m³/s. Num espaço de dois dias, foram 900 m3/s a menos de água circulando no rio, e quando são praticadas essas oscilações grandes de vazão, não dá tempo desses peixes menores saírem dos locais onde estão. Eles não têm como sair de onde tem pouca água e acabam morrendo”, comentou o professor.
O professor Emerson Soares também afirma não compreender os motivos dessa oscilação de vazão devido à atual situação dos reservatórios da Chesf.
“A ONS diz é que essa oscilação de vazão é para atender, momentaneamente, o Sistema Nacional de Energia, que sofre o impacto de determinados picos, só que as oscilações estão acontecendo de maneira constante e de forma não gradativa, ultrapassando os 600m³/s no espaço de um dia ou menos, e isso é inadmissível. Nós estamos com os três reservatórios, Três Marias, Sobradinho e Itaparica com 90% da capacidade de água, então, não havia a necessidade de haver essa oscilação toda de vazão”, explicou o professor Emerson Soares.
Ainda segundo o professor, esses peixes jovens que agora habitam o rio foram desovados entre o final de 2021 e o início de 2022. O Pesquisador explicou também que além desse impacto no ecossistema, a oscilação repentina de vazão também causa problemas nos sistemas de irrigação e de bombeamento de água, prejudicando o abastecimento das cidades, e também gera consequências como o acúmulo de esgotos e a não diluição desses dejetos.
“Essas quedas bruscas vão de encontro ao que foi preconizado e discutido já em várias salas de situação que nós participamos e é um desrespeito à resolução nº 2.081/17 que foi elaborada para evitar essas quedas bruscas de vazão, que impactam bastante na diluição de poluentes, na programação do abastecimento dos municípios, dos irrigantes, da pesca e da fauna aquática”, explicou.
O Presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), Maciel Oliveira, informou ao Portal7Segundos que a entidade está elaborando um documento oficial com o apoio de vários pesquisadores para que o ONS reveja e reconsidere essas diminuições de vazão de forma brusca praticadas do Velho Chico.
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