Estudo inédito mostra avanço criminoso do garimpo em terras indígenas na Amazônia
Pistas de pouso e vendas de combustíveis mostram rastros da logística de máfias na Amazônia
Um estudo inédito feito pelo Mapbiomas ilustra o avanço criminoso do garimpo na Amazônia, especialmente em terras indígenas e unidades de conservação. É um retrato da logística do crime organizado na região —outros dados como o rastro de vendas de combustíveis de aviação ajudam também a salientar as atividades ilegais na floresta, especialmente na Terra Indígena Yanomami.
O levantamento do Mapbiomas identificou, em imagens de satélite, 2.869 pistas de pouso criadas na Amazônia. Mais da metade dessas pistas não tinham registro na Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e, portanto, são consideradas clandestinas. São aeroportos criados por criminosos interessados em pilhar recursos da natureza. A impunidade dessas quadrilhas provoca danos irreparáveis para a população, a fauna e a vegetação do Brasil.
No governo de Jair Bolsonaro, a atividade criminosa de garimpeiros recebeu inúmeros incentivos do próprio presidente. Bolsonaro já disse que garimpou ouro nos anos 80 e seu governo boicotou o trabalho de fiscalização feito pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O governo Bolsonaro tentou até aprovar no Congresso a legalização do garimpo em terras indígenas, uma violação clara da Constituição Federal.
Especialistas veem todo esse incentivo como motivação generalizada para a explosão do garimpo nos anos de governo Bolsonaro. Os números do Mapbiomas deixam claro esse avanço. O desafio é transformar esse mapeamento do crime organizado em reações efetivas das autoridades.
"Hoje com imagens de satélite podemos localizar e identificar cada um desses aeroportos clandestinos. Esse não é um problema. O Mapbiomas faz isso com uma competência ímpar. A questão é adotar medidas concretas para coibir os crimes ambientais na Amazônia, que tem a conivência de políticos locais", afirmou à coluna Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e cientista do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU.
Pelo menos 804 pistas de pouso identificadas pelo Mapbiomas estão dentro de alguma área protegida por lei. Outras 320 pistas foram construídas no interior de Terras Indígenas como a reserva Yanomami.
É justamente na Terra Indígena Yanomami que foram feitas mais pistas de pouso para garimpeiros usarem aviões de pequeno porte e helicópteros, sempre na pilhagem de ouro e outros recursos minerais. Foram identificadas nada menos do que 75 pistas no território demarcado dos índios yanomamis.
O Mapbiomas destaca que a construção de aeroportos é inequivocamente resultado do avanço do garimpo na Amazônia. Isso porque outro estudo já tinha identificado o tamanho das áreas tomadas por garimpeiros nas terras indígenas e unidades de conservação. Só na reserva Yanomami garimpeiros já devastaram 1.556 hectares.
Combustível que abastece o garimpo
A construção de pistas de pouso não é o único indicador do avanço da pilhagem da Amazônia. No caso da reserva Yanomami, outro dado ilustra o aumento de voos de aviões de pequeno porte, utilizados pelos garimpeiros. Isso pode ser observado no volume vendido de gasolina de aviação no estado de Roraima, onde fica a maior área demarcada da TI Yanomami.
No primeiro ano do governo Bolsonaro, foram vendidos 1.098 metros cúbicos de gasolina de aviação em Roraima, mas esse volume comercializado mais do que dobrou a partir de 2020. Alcançou um total de 2.815 metros cúbicos vendidos em todo o ano de 2022, só no estado.
Apesar do afrouxamento na fiscalização feito pelo governo Bolsonaro, a análise das vendas de combustíveis de aviação pode salientar a rede de criminosos envolvidos no garimpo da Amazônia. A questão é, como sempre, usar esses dados de maneira eficaz na repressão a esse tipo de máfia.
"Você não movimenta três mil litros de combustível de um lugar para o outro sem ninguém saber. É bem conhecido para onde vai e quem paga por isso. Precisamos ter um poder Judiciário que realmente vá atrás do crime organizado na Amazônia", avalia Artaxo.
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