Do combustível ao alimento: como a alta do petróleo pode afetar o bolso do brasileiro
Petróleo mais caro eleva despesas do agro, da indústria e dos serviços e chegará ao consumidor de forma escalonada
O efeito da alta recente do petróleo no mercado internacional, após a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, terá impacto em diferentes setores da economia brasileira e poderá chegar ao bolso do consumidor de forma escalonada por meio da alta dos combustíveis, da energia elétrica, do frete e, de forma indireta, dos alimentos. Esse é o alerta que entidades e especialistas vêm fazendo desde que o preço da commodity beirou os US$ 120, no início desta semana.
Embora o Brasil seja exportador líquido de petróleo, os preços internos dos combustíveis são influenciados pelo mercado internacional. Assim, quando o barril registra forte valorização e persiste em alta globalmente, a tendência é que os valores praticados no país também sofram pressão, atingindo desde a produção no campo até o orçamento das famílias.
Para especialistas, o petróleo funciona como um insumo transversal na economia, presente em diferentes etapas da produção. O economista João Matos, professor da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, explica que o impacto começa no agronegócio.
“O petróleo é uma base muito importante para os insumos e fertilizantes usados na produção agrícola, por exemplo. Desde mover um trator até fazer a pulverização para evitar pragas e a adubagem no momento do plantio, quando se utilizam fertilizantes que são em grande parte derivados do petróleo”, afirma.
Rodrigo Simões, professor de Finanças e Economia da Universidade Anhembi Morumbi, cita que o efeito da alta do petróleo para o consumidor ocorre de forma encadeada. “Quando o combustível fica mais caro, diversos setores acabam sendo afetados, como alimentos, medicamentos, transporte coletivo e passagens aéreas”.
Pressão sobre indústria e agro
No setor industrial, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que o petróleo mais caro tende a elevar custos de energia, fretes marítimos, seguros logísticos e insumos industriais, fatores que compõem a base de custos de grande parte da produção no país.
“Às vezes, a gente não se dá conta disso, mas uma simples embalagem de plástico já utiliza petróleo. Além disso, ele é usado na movimentação das máquinas e em todo o processo fabril. O petróleo é a base de vários setores e talvez na indústria seja onde ele aparece de forma mais evidente”, explica João Matos.
No agronegócio, os efeitos também são relevantes. O petróleo mais caro tende a pressionar também o custo do frete marítimo e da logística global, além de afetar diretamente os fertilizantes nitrogenados, cuja produção depende fortemente do gás natural.
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Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), entre 60% e 80% da produção desses insumos depende diretamente do gás natural, o que faz com que aumentos no preço do combustível elevem o custo internacional da ureia e o preço de referência do produto no Brasil.
Além disso, eventuais interrupções nas rotas comerciais podem provocar atrasos nas entregas e reduzir a oferta global de insumos. Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) indicam que o frete pode representar até 30% do custo logístico em trajetos longos de escoamento de grãos.
No setor de serviços, o impacto se concentra principalmente no transporte. “A alta do preço do petróleo impacta diretamente a economia interna principalmente por meio do aumento dos custos de transporte e logística. Esse efeito acaba se espalhando por diversos setores da economia”, afirma Simões.
Alimentos também entram na conta
Esse aumento de custos na cadeia produtiva tende a chegar gradualmente ao consumidor. Frete e fertilizantes mais caros elevam o custo de culturas como soja e milho, que são base da ração animal. Como consequência, produtos como carnes, ovos e leite tendem a registrar aumento de preços.
Como a alimentação possui peso significativo no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), qualquer choque prolongado nesses custos tende a se refletir na inflação oficial. Segundo Matos, o fenômeno tende a gerar uma inflação de custos, quando os preços sobem porque produzir ficou mais caro.
“Existem dois tipos de inflação: a de demanda, quando as pessoas têm mais dinheiro e compram mais, e a de custos, quando o aumento vem da produção. No caso do petróleo, estamos falando claramente de inflação de custos”, explica.
Diante do cenário de incerteza, o economista Rodrigo Simões avalia que o desafio será evitar que o choque externo se transforme em pressão inflacionária prolongada.
“Ainda não há previsão de encerramento desse conflito. Com isso, o mercado tende a começar a precificar um aumento da inflação e também uma possível demora na queda da taxa de juros”, conclui.
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