Alagoas está entre os estados com maior número de amputações de pênis por câncer no Brasil
Diagnóstico tardio e desigualdade social agravam cenário que especialistas classificam como evitável
Alagoas e Sergipe seguem entre os estados brasileiros com maior incidência de casos graves de câncer de pênis, refletindo um problema de saúde pública que combina desigualdade social, falta de informação e dificuldade de acesso a serviços básicos.
O dado foi revelado pelo médico urologista e andrologista Breno Amaral, coordenador da ANDROS - Centro de Saúde do Homem. De acordo com ele, o cenário não é recente, e continua preocupante. “Sergipe e Alagoas historicamente figuram entre os estados mais vulneráveis ao câncer de pênis no Brasil, e esse cenário persiste”, afirma.
Segundo o especialista, apenas em Sergipe foram registrados 155 casos da doença e 46 amputações ao longo de uma década. “Uma em cada três vítimas chegou tarde demais para salvar o órgão”, destaca.
Nordeste concentra os casos mais graves
Dados nacionais reforçam o alerta. O câncer de pênis é considerado raro, mas apresenta maior incidência justamente nas regiões Norte e Nordeste, onde estão os piores indicadores sociais do país.
No Brasil, o problema ainda atinge milhares de homens todos os anos. Levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), com base em dados do Ministério da Saúde, aponta que o país registra, em média, cerca de 486 a 645 amputações por ano decorrentes da doença.
Em 2022, por exemplo, foram contabilizados 1.933 casos e 459 amputações.
Nos últimos cinco anos, o número total de amputações chegou a 2.949 procedimentos, evidenciando a persistência do problema em escala nacional.
Apesar dos números elevados, especialistas são unânimes em afirmar que a maioria dos casos poderia ser evitada.
“O Nordeste concentra proporcionalmente mais mortes e mutilações por essa doença do que qualquer outra região do país”, explica Breno Amaral. Ele ressalta que o problema vai além da medicina: “Estamos falando de estados com desigualdades socioeconômicas, menor acesso a saneamento básico e uma cultura que ainda tem dificuldade em falar sobre saúde íntima masculina”.

Dr. Breno Amaral, médico urologista e andrologista
A literatura médica aponta que fatores como higiene inadequada, infecção por HPV, fimose e baixa escolaridade estão diretamente associados ao desenvolvimento da doença.
Além disso, milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso adequado a saneamento básico, o que contribui para o agravamento do quadro, especialmente no Nordeste.
Diagnóstico tardio agrava quadro
Outro fator determinante é o atraso na procura por atendimento médico. Estudos indicam que até metade dos pacientes só busca ajuda quando o câncer já está em estágio avançado, o que aumenta drasticamente a necessidade de amputação.
“Como urologista que atua em Sergipe, vejo essa realidade no meu consultório. É um problema de saúde pública, de educação e de acesso — e precisa ser tratado assim”, afirma Amaral.
Em cerca de 25% dos casos, a evolução da doença exige a retirada parcial ou total do órgão.
Apesar da gravidade, o câncer de pênis está entre os tipos de tumor com maior potencial de prevenção. Medidas básicas como higiene diária com água e sabão, uso de preservativo, vacinação contra o HPV e diagnóstico precoce são suficientes para reduzir drasticamente os casos.
Ainda assim, o tema permanece cercado por tabu, o que dificulta campanhas educativas e a busca por tratamento.
O resultado é um cenário paradoxal: uma doença evitável que continua levando centenas de homens à mutilação todos os anos, com impacto físico, psicológico e social.
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